domingo, 15 de setembro de 2013

BANDEIRANTES E CORONÉIS


 

BANDEIRANTES E CORONÉIS
“Quando se sabe, por experiência própria, quantas fadigas, privações, perigos ainda hoje aguardam o viajante que se aventura nessas longínquas regiões e se toma conhecimento do itinerário das intermináveis incursões dos antigos paulistas, sente-se uma espécie de assombro, tem-se a impressão de que esses homens pertenciam a uma raça de gigantes”.
Auguste de Saint-Hilaire, Viagem à província de São Paulo, p. 32-3.
 
                O nome Tibiriçá é, antes de tudo, um quatrocentão, que na verdade significa originalmente na língua tupi “formigão da terra” e depois sobrenome herdado dos primeiros portugueses que ocuparam a Capitania de São Vicente, as vilas do litoral e o planalto paulista, a partir do século XVI. Antes disso o nome Tibiriçá pertencia somente ao cacique tupiniquim da tribo Guainá (guaianazes), catequizado por José de Anchieta e Leonardo Nunes e que se tornou aliado dos portugueses nos primórdios da colonização. Ao ser convertido, o chefe indígena ganhou o nome católico Martim Afonso Tibiriçá, em homenagem ao fundador e mandatário-mor de São Vicente. Uma das filhas de Tibiriçá, a jovem Bartira, casou-se com o português João Ramalho, antigo degredado que habitava a aldeia Tumiaru (futura vila vicentina, bem antes da chegada de Martim Afonso em 1532); e a outra filha do cacique do planalto, Terebê (Maria da Grã), casou-se com o jesuíta Pero Dias, acontecimento especial concedido pela ordem inaciana e pela Igreja, já que Dias não era propriamente um padre com voto de castidade. Os demais filhos de Tibiriçá eram Ítalo, Ará, Pirijá, Aratá e Toruí, todos da mesma mãe, a índia Potira. Tibiriçá também tinha dois irmãos, como ele, chefes tribais do planalto de Piratininga: Caiubi e Piquerobi, cujas filhas também se casaram com colonizadores europeus. Esses primeiros descendentes é que formariam as primeiras fazendas no entorno da cidade de São Paulo. Depois eles se aventuram mata adentro da Capitania, como chefes de bandeiras e capitães de monções, a fundarem os inúmeros núcleos que dariam origem aos primeiros povoados do interior paulista e mineiro, em direção ao Mato Grosso e Goiás. Eram eles: Antônio Raposo Tavares, Manuel de Campos Bicudo, Bartolomeu Bueno da Silva (Anhanguera), Nicolau Barreto, Francisco Pedroso Xavier, Manuel Preto, Matias Cardoso de Almeida, Belchior Dias Carneiro, Fernão de Camargo - dito o Tigre ou o Jaguaretê -, Fernão Dias Pais Leme, Jerônimo de Camargo, Bartolomeu Bueno de Siqueira, Antônio Rodrigues Arzão, Brás Rodrigues de Arzão, Mateus Nunes de Siqueira, Sebastião Preto, Estêvão Ribeiro Baião Parente, Roque Barreto, Domingos Jorge Velho e José Ortiz de Camargo.

Quando a cidade de São Paulo comemorou o seu quarto centenário, em 1954, voltou à moda o uso dessa expressão há muito cultivada pelos aristocratas identificando seus membros mais ilustres e suas respectivas famílias de “quatrocentão” e “quatrocentonas”.  Essas famílias paulistas sempre prezaram pelas origens, seja por distinção, seja pela busca de uma identidade mais remota, cuja raiz pudesse legitimar e justificar suas tradições aristocráticas, obviamente transformadas em prestígio social, dominação territorial e política. Tibiriçá foi apenas uma delas e pretendia ser, talvez, a mais importante em termos de raízes miscigenadas, pois foi a primeira a dar os frutos mamelucos nessa vasta região da capitania vicentina. Os Tibiriçá civilizados dos séculos posteriores (da família Almeida Prado, por exemplo) adoraram esse sobrenome, acrescido de Piratininga, exatamente com essa intenção, quando simplesmente “resolveram ser Tibiriçá”, e o mantém até hoje como sinônimo de antiguidade e permanência da sua raiz mestiça mameluca ou ainda do conhecido “espírito bandeirante”. Assim como Francisco Tibiriçá deu nome ao Porto, o engenheiro Artur Piquerobi de Aguiar Whitaker, demarcador de terras na região e secretário da justiça do Estado de São Paulo em 1946, deu nome à conhecida cidade próxima de Presidente Epitácio.
Ao se referir ao Dr. Francisco Tibiriçá (irmão do governador Jorge Tibiriçá Piratininga), o fundador do Porto Tibiriçá, o também aristocrata Capitão Francisco de Aguiar Whitaker, o identifica como legítimo descendente dos quatrocentões:
“Paulista de antiga e fina raça, patriota e empreendedor”;
E da mesma forma se refere ao Coronel Artur de Aguiar Diederichsen, seu parente de sangue:
“Homem de ação e empreendedor; e pelo lado materno também paulista de velha raça”.  
E repete o mesmo critério ao citar o Coronel Paulino Carlos de Arruda Botelho, fazendeiro do Alto Tietê, que o ajudou a formar a flotilha desbravadora de 1906:
“Paulistas dos legítimos, homem de ação e velho "Almirante" do Tietê”.
            
            Daí se vê de forma inegável que a ligação e identificação histórica e cultural entre São Vicente e o Porto Tibiriçá não foi mera obra do acaso e sim algo que se pode atribuir à força das afinidades naturais ou simplesmente trabalho do “destino”.
A primeira vila ou municipalidade política do Brasil, que gerou Santos, Cubatão, São Paulo, Santana do Parnaíba, Sorocaba, Campinas, Ribeirão Preto e tantas outras, tinha o comando de dois grandes amigos: o português João Ramalho e o índio Tibiriçá, com apoio remoto do donatário Martim Afonso de Souza.
E a última empreitada, o Porto Tibiriçá, base das cidades do Oeste paulista, comandada pelos seus descendentes mestiços.
Nos dicionários da língua tupy a palavra “Tibiriçá” também significa, literalmente, "olhos da terra", no sentido de "vigilância da terra", "maioral", a partir da junção dos termos yby (terra) e esá (olho).
Tibiriçá era um porto fluvial do rio Paraná, hoje inundado pela represa da usina hidrelétrica de Porto Primavera. Foi lá que nasceu Presidente Epitácio, na primeira década do século XX. Essa empresa de navegação tem uma história muito interessante. Toda a região Oeste de São Paulo tinha sido alvo de grandes empreendimentos de colonização, estimulados pela expansão das ferrovias, no sentido capital-interior. Presidente Epitácio, porto próximo a Tibiriçá, era a última estação de um ramal da Estrada de Ferro Sorocabana, que começava na Estação Júlio Prestes, na Capital, e terminava nas margens do rio Paraná, divisa com Mato Grosso, na época um só estado.
A Companhia de Viação São Paulo-Mato Grosso era uma desses empreendimentos de colonização. Adquiriu uma vastidão de terras entre os dois estados para explorar a pecuária de corte e a navegação comercial. Pertenceu inicialmente a Arthur Diederichsen e a Francisco Tibiriçá, este último primo do então governador Jorge Tibiriçá, de quem recebeu amplo apoio político nesses negócios. A empresa deu início à sua atividade exploratória com uma expedição que partiu da região de Ibitinga, penetrou no interior pelo rio Tietê até ser concluída com a fundação do Porto Tibiriçá, no Rio Paraná, em 1907. Segundo depoimento de Manoela Borges, antiga moradora de Epitácio, o pai dela, Daniel Ferreira da Silva, estava nessa expedição histórica do Capitão Francisco de Aguiar Whitaker e do Coronel Paulino Carlos de Arruda Botelho. É provável que na mesma expedição estivesse também o Sr. Ovídio Braga, sobrinho de Paulino Carlos, mais tarde nomeado o segundo administrador do Porto Tibiriçá. A missão deles era encontrar um ponto de apoio na margem paulista do rio Paraná e dali iniciar a construção de uma estrada boiadeira entre o Porto Tibiriçá a Fazenda Indiana, local onde, nessa época, estava a última estação do ramal da Estrada de Ferro Sorocabana. Esse projeto iria concluir a ocupação definitiva do Oeste paulista com a expansão da ferrovia, o loteamento de propriedades rurais e a fundação de novos núcleos urbanos. Na versão escrita por Francisco Whitaker quase trinta anos após o evento, só aparecem nomes de pessoas de status social elevado e que mereciam, segundo ele, uma reverência especial, exatamente como era do seu costume e da sua cultura aristocrática. Outra versão desse evento, de tradição puramente oral, que também trás embutido os costumeiros vícios da memória (fala apenas de uma embarcação), privilegia a participação de pessoas de baixo escalão social. Ao descrever a participação dessas pessoas comuns na famosa expedição de Whitaker, Dona Manoela Borges transmitiu oralmente para Jacy Xavier Duque (São Vicente, 2012) o seguinte relato, este escrito a mão e que transcrevemos a seguir:
“Saiu do Alto Tietê um batelão com destino não revelado aos tripulantes, pois estes eram todos aventureiros e que o guia da expedição era o Sr. Daniel Ferreira da Silva, pai de Dona Manoela. Este permaneceu morando em Tibiriçá e faleceu na Santa Casa de Presidente Prudente. Eram oitos pessoas no batelão, sendo uma delas a sua mãe, de origem indígena. Ela veio de Aparecida do Taboado para encontrar com o marido nas margens do rio Tietê. Descendo o rio, chegaram no Salta de Itapura, onde havia um castelo (ruínas da Colônia Militar Imperial). Tiraram o batelão da água, andando um trecho por terra e depois disso chegaram até Jupiá, na divida de Mato Grosso próximo a Três Lagoas. Dali seguiram algumas semanas pelo rio Paraná até chegarem nas margens de Epitácio, exatamente no paredão, onde ficava o antigo guindaste, mas não era um lugar de fácil acesso, por causa da profundidade do rio e não tinha como acampar numa margem de mata fechada. Ela sempre dizia que eles chegaram no dia de São Pedro (29 de junho), às 9 horas da manhã. Soltaram o batelão e como o rio tinha forte correnteza foram descendo e chegaram na Pedreira. Ali foi o local ideal para acamparem”.
Esses exploradores talvez tenham sido os últimos bandeirantes e suas monções. O percurso que eles fizeram, a bordo de batelões, partindo sem saber se voltariam vivos, era uma típica empresa de risco e aventura dos antigos bandeirantes. Essa tradição das monções ou expedições de exploração foi iniciada no início do século XVIII, período da mineração, quando os paulistas, com a ajuda e conhecimento dos índios, queriam, a todo custo, chegar até minas de ouro na região de Cuiabá. Com o passar dos anos a atividade tornou-se frequente e de natureza comercial, para trocas e transporte de produtos de utilidade dos mineradores em diversos pontos de Mato Grosso. A introdução do gado bovino naquela vasta região foi feita pelas monções.
Duas importantes rotas de monções passavam pela região atual de Presidente Epitácio e, por isso mesmo já conhecida pelos últimos navegadores sertanistas que fundaram o Porto Tibiriçá. As duas rotas partiam de Porto Feliz (Araritaguaba), no rio Tietê (Anhembi), desciam pelo rio Paraná até a foz do rio Pardo (Porto XV) e seguia cada uma delas para destinos diferentes em Mato Grosso: uma para o Norte em direção aos rios Taquari, Miranda e Paraguai, São Lourenço e Cuiabá; e a outra ao Sul, tomando a direção do rio Anhandui, para atingir a região de Vacaria, também próxima dos rios Miranda e Paraguai. A mais famosa das monções, que certamente passou pelas barrancas onde se fundaria 145 anos mais tarde o Porto Tibiriçá, foi a do governador Rodrigo Cézar de Menezes, em 1726, com quase três mil pessoas (serviçais, autoridades militares e administrativas) transportados em 308 canoas e batelões. Estes últimos eram feitos de troncos de peroba ou ximbúva, tinham 1,6m de largura e 12m de comprimento, cuja tripulação era composta por um piloto, contra piloto, proeiro e cinco ou seis remeiros. Os batelões acomodavam até 90 sacos de mantimentos e mais tarde passaram a ser protegidos das chuvas por barras de ferro e lonas. Percorriam 3.500 quilômetros de águas, sendo o trecho do Tietê-Paraná percorrido em pouco menos de um mês; já o trecho do rio Pardo, subida, levava até dois meses para ser vencido. Os viajantes das entradas, bandeiras e monções deixavam em seus testamentos essas curiosas expressões, que justificavam esse sacrifício de aventura: “busca de remédio para a pobreza”, “buscar sua vida”, “buscar seu remédio”, “seu modo de lucrar”.
Não havia, portanto, nada de heroísmo nessas atividades exploradoras. Tudo era puro negócio de colonização. Quem inventou e propagou essa ideia de heroísmo dos bandeirantes foi a historiografia romântica do século XIX, em busca de mitos e heróis para compor o imaginário cívico do Brasil. Essa construção foi uma necessidade ideológica, pois o nosso país, recém fundado como Estado nacional independente, ainda não possuía uma identidade definida e tradicional, como as demais nações que o Brasil escolhera como modelo.
A expedição exploradora que partiu no dia 01 de dezembro de 1906, no Porto Laranja Azeda (Ibitinga), tinha ao mesmo tempo três tipos de liderança: um comando político, do fazendeiro e oligarca republicano Cel. Paulino Carlos e também do Cel. Sanches, antigos mandatários regionais; o comando de negócios, do Capitão Francisco Whitaker, ligado diretamente ao Cel. Arthur Diederichsen e demais investidores; e finalmente o comando técnico, especializado, dos engenheiros agrimensores, e também dos navegadores fluviais, em grupo ou flotilha, especialmente contratados para garantir esse percurso perigoso e imprevisível. Nesse último caso, o comando dos pilotos das barcas de madeira e uma lancha de ferro (batelão moderno) foi exercido por Pedro Passos, um “velho conhecedor do Tietê e Paraná e respeitado chefe de monções”, como consta no relato do próprio Whitaker.
Os títulos militares ostentados por esses homens vieram da antiga linhagem política dos donatários das capitanias hereditárias, cujo poder foi sendo transferido ao longo dos séculos aos seus beneficiários e descendentes. No século XIX, quando da construção ideológica do Estado Imperial, essa antiga aristocracia rural foi duplamente reconhecida como uma elite nobiliarcal e também a base da Guarda Nacional, força armada localista criada para defender a ordem social e os interesses agrários durante as rebeliões regenciais. O coronelismo (formação do território político) e o capitaneamento (defesa e manutenção territorial) foram mantidos rigorosamente após a proclamação da república. E assim permaneceu até a revolução de 1930, quando banqueiros e industriais passaram a controlar o país. Porém, nas intimidades do jogo político, capitães, majores e coronéis continuaram sendo não somente representantes do poder oficial, mas também símbolos culturais do mandonismo regional, cujo axioma ainda permanece vivo na mente e nos corações populares: “Manda quem pode, obedece que tem juízo”.
A vasta região do Pontal do Paranapanema, inóspita e também muito atraente, tinha permanecido isolada por séculos. Porém, ainda estava muito vivo o espírito dos tempos da Capitania Vicentina e do neocolonialismo industrial. Abrir caminhos era abrir também rotas de negócios e novos empreendimentos. Isso já havia acontecido em tempos mais remotos com a legendária estrada indígena Peabiru, do litoral até o Peru, que começava na região de São Vicente e tinha muitos ramais espalhados em várias direções a partir da Serra de Botucatu (Hernani Donato, “Sumé e Peabiru”). Desconfia-se que o Peabiru, por ser obra muito semelhante às antigas vias romanas, tenha sido iniciativa da civilização Inca, instalada nos Andes, cujos viajantes mantinham contato e relações de parentesco com as remotíssimas tribos indígenas sul-americanas do Atlântico.  É possível, embora ainda não haja nenhuma prova material disso, que esses ramais tenham sido construídos pelos remanescentes da Atlântida, continente afundado entre o Brasil e a África e cujos sobreviventes foram se instalar no Perú, na Guatemala e no México. O velho caminho de pedra e grama rasteira, mantido pelas constantes andanças sazonais indígenas, também usado pelos jesuítas e portugueses, foi a primeira forma de acesso entre o litoral e o sertão, recurso de deslocamento logo dominado e utilizado amplamente pelos portugueses para controlar e cobrar pedágio pelo fluxo de mercadorias. A famosa Calçada do Lorena, na Serra do Mar e copiada do Peabiru, foi uma autêntica precursora dos novos Caminhos do Mar, hoje as rodovias Anchieta e dos Imigrantes.
Assim como São Paulo teve uma gigantesca rede de trilhos ferroviários e hoje tem como característica econômica uma ampla e complexa malha rodoviária abrangendo praticamente todo o estado, a Estrada Boiadeira teve o mesmo papel de interligação de localidades e mercados primitivos. As modernas rodovias de quatro e até seis pistas, bem como os aeroportos regionais e longos trechos de hidrovias, são na verdade um efeito histórico desse caminho rústico aberto pelos negociantes pioneiros. O traçado original dessa estrada foi descrito por Dióres Abreu (O desbravamento da Alta Sorocabana por um bandeirante moderno) como uma linha de percurso de 120 quilômetros, dividida em pousos com distância média de 25 quilômetros entre cada uma deles. Esse modelo já era conhecido utilizado em regiões mais antigas de produção pecuária, principalmente em Minas e Goiás. Os pousos funcionavam também base de controle e arrecadação sobre fluxo de boiadas, onde havia, além de uma área que variava entre 100 a 200 alqueires, currais de permanência para o gado e alojamentos para as comitivas de condutores. Em cada um desses pousos a Companhia de Viação São Paulo Mato Grosso dispunha de um funcionário encarregado da manutenção e prestação de contas do estabelecimento. Entre o Porto Tibiriçá e a Fazenda Indiana, propriedade que funciona como invernada de engorda, haviam seis pousos, identificados e posicionados estrategicamente para captar e distribuir o gado circulante na região: Alegria, Esperança, Lagoa, Ribeirão Claro, Sucuri e o Porto Tibiriçá.
Celso Prado (Razias), citando outros pesquisadores que também avaliaram os efeitos transformadores da Estrada Boiadeira, reconhece que o empreendimento, mesmo sob “fortes suspeições” contratuais entre empresários e o governo, foi o responsável pelo intenso desenvolvimento que seria a marca irreversível de algumas regiões do interior paulista:
“A velha Boiadeira tornou-se, enfim, estrada oficial, a primeira e mais bem equipada a cortar o sertão Paranapanema e integrá-lo aos grandes centros. Por ela se podia ir a Campos Novos Paulista, Santa Cruz do Rio Pardo, São Manoel e até Botucatu e desta a Avaré, Itapetininga, Piracicaba, Porto Feliz, Sorocaba, São Paulo. De Santa Cruz do Rio Pardo se chegava a São Domingos, Espírito Santo da Fortaleza, Bauru, Agudos e Lençóis, para regiões além do Tietê, a exemplos de Jaú, Araraquara, São Carlos, Franca, São Simão, Casa Branca e até as Minas Gerais. Também de Santa Cruz a Salto Grande pelo espigão do Pardo, ou para além do Pardo a Cerqueira Cesar, Avaré, Piraju e regiões hoje de Bernardino de Campos, Óleo, Manduri, Ipaussu, Chavantes, Irapé e Ourinhos; por Botucatu chegava-se a São Paulo e daí ao litoral, e, de Sorocaba acessava-se a estrada para Viamão - RS. Ao longo dos caminhos sertanistas da estrada fundaram-se povoados, as boiadas iam e vinham, já sem precisar a grande volta pelo Triângulo Mineiro, enquanto o comércio fluía com mais dinamismo como prova do progresso Pessoas circulavam pelas estradas, a cavalo ou a burro, e até as famílias podiam se deslocar seguras, em carroças e charretes bem mais ágeis e confortáveis que os velhos carroções e carros de boi”
Empresários eram essencialmente aventureiros. Veja, por exemplo, o caso do industrial europeu Jan Antonin Bata, do ramo de calçados e couros. Bata possuía curtumes e fábricas na Checoslováquia. Com a expansão do nazismo e o aumento do risco de perseguições, resolveu empreender no Brasil, especificamente numa região inexplorada e de alto potencial para o seu ramo de negócios. A tomada do poder pelos comunistas após a Segunda Guerra Mundial o exilou definitivamente da sua pátria.
Bata era uma espécie de visionário e dizia para os amigos que tinha vindo ao mundo com uma missão de fundar cidades. Sua trajetória empreendedora foi vista como uma ameaça aos interesses de empresas e sindicatos do ramo de couros, sendo por esse motivo fortemente perseguido quando tentou se estabelecer nos EUA, pouco antes da Segunda Guerra Mundial. O mesmo aconteceu na Europa por parte de empresas inglesas e dos projetos nazistas. Nesse período sofre outro grande prejuízo nos investimentos feito no Canadá, quando perde o controle das empresas ali instaladas para um sobrinho que tinha sido seu funcionário de extrema confiança. Essa foi uma das causas da sua vinda para o Brasil, a convite do governo federal.  Lutou até onde pode e nunca desistiu dos seus bens nem dos ideais empreendedores. Atualmente as injustiças cometidas contra ele são intensamente divulgadas como resgate histórico dos desastres e crimes da Grande Guerra; sua imagem é celebrada como ícone do nacionalismo e da cultura eslava no leste europeu. Na Europa e no país de origem de Jan Antonin Bata há um renascimento e o resgate da memória do empresário que certamente estava muito à frente do seu tempo. Daí a incompreensão, as perseguições e os fracassos de muitos dos seus projetos. Mesmo assim, sua obra permaneceu intacta e influente como conceito e referência de inovação e empreendedorismo. Sua missão de fundar cidades, tal como acreditava, foi amplamente cumprida, mesmo que elas tenham tomado outros rumos dos projetos originais, pois existiram, geraram a cultura e a mentalidade progressista em todas as pessoas que ali nasceram, viveram e buscaram a felicidade. O Porto Tibiriçá e seu povo receberam muito dessa influência utópica batoviana. Tibiriçá não existe mais, mas sobrevive em nós como conceito de vida e sonho de um mundo melhor.
Jan Antonin Bata era talvez um desses espíritos muitos antigos do mundo bárbaro, líder de conquistas territoriais, agressores e detruidores das villas e civitas romanas. Voltou para combinar o resgate e débitos pessoais com a tarefa de promover o desenvolvimento coletivo. Juscelino Kubistchek, que também tinha esse perfil empreendedor, confessava em círculos íntimos que a criação e construção de Brasília foi na verdade uma oportunidade espiritual que recebeu, juntamente com seus antigos parceiros, para quitar dívidas cármicas dos tempos em que viveram no Egito e na Roma imperial, mandando incendiar vilas e aldeias conquistadas.
A utopia europeia de Jan Antonin Bata, transposta para o Brasil, visualizava uma grande área geográfica de produção agroindustrial interligada pela navegação nos rios e trilhos de ferrovias. Entre essas inúmeras fazendas, loteadas pela própria empresa, surgiriam seus tão sonhados núcleos urbanos. Ainda hoje existem no interior de São Paulo e em Mato Grosso do Sul pequenas cidades que levam seu sobrenome, combinado com sufixos da língua tupy-guarani: Batatuba, Bataguassu e Batayporã.
O Porto Tibiriçá também fez parte dessa fantástica mentalidade colonizadora. Era o local onde seria uma das bases da expansão da empresa exploradora. Uma antiga planta desenhada na década de 1920, já como empreendimento de Jan Antonin Bata, mostra os detalhes da futura Vila Tibiriçá que incluía ruas, casas, armazéns, estaleiros, enfermaria, casas de funcionários, escritórios da empresa e muitos outros detalhes técnicos como canalização de água, esgoto e drenagem pluvial.
O projeto de Bata para construir um enorme complexo agroindustrial interligado por ferrovias e portos não teve o fim que ele planejara inicialmente, quando adquiriu dos irmãos Sloman a já deficitária Companhia de Viação São Paulo Mato Grosso, então sobrevivendo com a ajuda estatal. Esse dois empresários alemães haviam recebido como parte do acordo algumas empresas do grupo Bata na Tchecoslováquia. Esse negócio, no tocante ao patrimônio dos envolvidos em terras brasileiras, foi intermediado pelo governo Vargas. Nos anos 40 o Brasil entrou na guerra ao lado dos Aliados contra o Eixo o governo Vargas resolveu encampar as atividades empresariais consideradas estratégicas, incluindo a Companhia de Viação São Paulo Mato Grosso. O empresário tcheco também perderia muitos investimentos quando o Leste europeu caiu sob o domínio dos soviéticos. Na época não foram revelados os detalhes dessa estatização, o que aconteceu de verdade nos bastidores, porém, no frigir dos ovos, surgiu uma nova empresa de capital federal, controlada pelo Ministério dos Transportes: o Serviço de Navegação da Bacia do Prata. Simplesmente conhecida como “Bacia”, a empresa era uma verdadeira teta estatal que alimentou muitas bocas em toda aquela região; bocas de todos os tipos, merecedoras e usurpadoras.
Meus pais, como meus avôs, também se tornariam funcionários públicos da Bacia e foi dela que tiramos o nosso sustento. Aliás, nós fomos morar na Baixada Santista porque meus pais estavam em situação funcional de “disponibilidade” do Ministério dos Transportes, o que poderia acontecer na prestação de serviços no Porto de Santos. A Bacia foi fechando suas portas a partir de 1967 e os funcionários que não optaram pelo regime da CLT assim permaneceram, em compasso de espera, até a aposentadoria. No caso dos meus pais essa espera durou quase dez anos.  A construção da ponte sobre o rio Paraná, bem como o esgotamento da exploração de madeira e de muitos negócios da navegação, acelerou a decadência da empresa, que vinha apenas sendo adiada há anos pelos subsídios estatais.
Meu pai trabalhava como tesoureiro e minha mãe como almoxarife e mais tarde secretária da diretoria executiva, cargos imponentes, mas de salários humildes. Ambos ingressaram no serviço público por indicação política e depois se efetivaram em concurso público do DASP. Minha mãe contou que o seu cargo foi conquistado após a realização de uma tarefa curiosa e muito comum na época. Na década de 1950 havia chegado ao Porto Tibiriçá um grande contingente de retirantes do sertão baiano, gente simples, a maioria analfabeta. A missão dela era ensinar os adultos a escrever apenas o nome, para depois obterem o título de eleitor. A tarefa, que certamente tinha um interesse político, foi realizada com êxito e a promessa de emprego foi cumprida. Esse acontecimento, que sempre nos contava oralmente, também foi registrado por ela em relato escrito (2012):
“Eu tinha uns 16 anos quando veio a última grande leva de baianos. O Dr. Álvaro Monteiro descobriu que a empresa do Senador Auro Moura Andrade explorava mão-de-obra de baianos para trabalhar na sua fazenda (Primavera). Quando terminava o serviço de desmatamento, eles deixavam esses migrantes abandonados na região. Era período de eleições em Epitácio e o Dr. Álvaro, na época Superintendente da Bacia, deu ordem para que o rebocador Amambay, com um chatão, buscasse 150 homens, desses trabalhadores dispensados. Chegaram em Tibiriçá e permaneceram alojados em galpões no Figueiral. Eram todos analfabetos e, pra ingressar como funcionários na Bacia precisavam pelo menos saber assinar o nome. O Dr. Álvaro tomava refeições em casa e eu já lia, escrevia e estava aprendendo datilografia. Um dia ele sugeriu para a Madrinha Manoela que eu ensinasse esses 150 homens a escrever. A Madrinha me disse que a Bacia iria me pagar por cabeça. Era na verdade qualificar para assinar o título eleitoral e votar. Trouxeram também uma fichas de admissão para treinar o preenchimento. Para eu não ficar sozinha, fui acompanhada por um funcionário da Bacia, meu primo Olívio Xavier Duque, que gostou muito da ideia, pois não teria que ficar trabalhando no escritório.  Em 90 dias os homens já estavam assinando o nome e fazendo o preenchimento de suas fichas funcionais, nem todos, mas nisso a gente dava um jeito. Nessa eleição Seu Gerônimo Ribeiro e Guilherme Borges tiveram 150 votos dos baianos. Eu com o Olívio ganhamos uma graninha extra e mais 150 amigos e colegas de trabalho”.
 
Meu pai não revelou exatamente como ele obteve o posto dele, porém, sendo filho de antigo funcionário, era previsível que obtivesse uma colocação como aprendiz na autarquia.
Meus avôs eram funcionários da antiga Companhia Viação e depois da Bacia, ambos ex-marinheiros que haviam chegado ao posto de comandante de embarcação. Durante muito tempo o gerente dessa empresa foi seu Guilherme Borges, marido da nossa Madrinha Manoela. Ela, mato-grossense de Três Lagoas, descendente de índios terenos; e ele   fez parte da primeira geração de baianos vindos da região de Malhada para trabalhar nas obras da Estrada de Ferro Sorocabana, atraindo para o Porto Tibiriçá muitos parentes e conhecidos: Reginaldo Bittencourt, Joel Irineu Fialho, Antônio Alfaiate, Rosendo Mendes, Arlindo Fialho, José Barbosa, os irmãos Xavier Duque: Maurício, Francisco (Chiquinho), Genésio, José (Zuza) e Alfredo; Raimundo e Adão Cruz.  
Nessa época, em 1940, minha mãe tinha uns três anos de idade, e foi adotada pelo casal Guilherme Borges e Manoela. Eles haviam perdido uma filha, que morreu aos 17 anos, vítima de tuberculose. Foram morar uma temporada na Fazenda Indiana (da CIMA - Companhia Industrial Mercantil e Agrícola), hoje município, próximo de Presidente Prudente. Depois voltaram para Tibiriçá e anos mais tarde o casal acabou se separando.
Sobre esse seus pais adotivos e esse período, muito marcante para todos, Jacy Xavier Duque fez esse depoimento:
“O Sr. Guilherme foi o primeiro agente do Banco do Brasil em Presidente Epitácio.Ele foi com o revolucionário Juarez Távora até o Paraguai, numa fuga que aconteceu na revolução de 32. Passando vários anos, ele recebeu uma correspondência do Juarez, dizendo que era Ministro da Viação e Obras Públicas e oferecia, ao Sr Guilherme, um cargo na Bacia do Prata, em agradecimento pela sua lealdade. Ele então pediu a vaga de vice chefe do Distrito de Tibiriçá e pediu uma vaga para mim no escritório. Quando ele e a Madrinha perderam a filha - Jovelina Borges, estudante, fazia magistério em Presidente Prudente estava com 17 anos e contraiu uma tuberculose – eu entro na vida deles a partir daí. A minha mãe (Maria Pesqueira Duque) me contou que a Jovelina havia pedido a ela para eu ficar com eles para aliviar a dor da perda. No do enterro dela minha mãe me levou e me deixou em Presidente Prudente. De lá fomos para Indiana. De algumas coisas me lembro. Uma casa muito grande com uma varanda grande. Na frente da casa tinha gado e cabritos. O meu Padrinho era quem cuidava de mim, já que a Madrinha estava prostrada numa cama e só chorava. Eu ainda me lembro do sofrimento deles. Eu devia ter uns três anos, à noite eu chorava, e o Padrinho conversava comigo, me trocava, dava comida que uma senhora fazia. Ele saía muito cedo para o serviço, estava ainda escuro, e ele ia para a Seção de Transportes da CIMA onde ele era chefe. Devido ao estado da Madrinha, e por ser muito difícil médicos ali, ele pediu transferência para Epitácio, onde foi trabalhar na barranca. Só depois que a Madrinha foi se acalmando é que ele começou a viajar nos barcos, como comandante. Fiz várias viagens com ele para Guaíra.
Vivemos em Epitácio alguns anos. Veio o primeiro médico, Dr. João Figueiredo, morava em casa, a casa era grande e até o consultório era ali.  O Hotel Internacional, na esquina, tinha uma casa, a nossa era no fundo e ao lado era a casa do Major Garcia, sogro do seu Dodô, seu Marinho (primeiro farmacêutico) e seu Araújo. Suas três filhas:  Dona Nha-Nha, Moreninha e Carmita. Tinha a Dona Balbina, a mais velha, que foi a primeira professora de Epitácio. O Dr. Figueiredo namorou a Iraí, filha do seu Andrelino Novazzi, mas ele foi embora e daí veio o Dr. Alberto, que também morava em casa e a Madrinha ajudava ele. Lembro, como se hoje fosse, do Dr. Alberto. Eu era ratíquica e ele fazia eu tomar sol uma hora por dia, só de calcinha e deitada numa esteira e um guarda-chuva cobria a minha cabeça.
Quando fomos para Tibiriçá, seu Ribeiro já tinha vindo, trouxe uns carpinteiros alemães, era uma família; foi quando Tibiriçá virou uma vila decente, casas com banheiro dentro para os mais graduados; foi numa dessas que morávamos. O Comandante Guilherme sempre foi muito respeitado; ele tinha um carisma, seus tripulantes eram seus amigos; de alguns eu me lembro; Cuica, Pudim, Zé Maria. Ele não se dava muito bem com o meu pai e o se Jonas; meu pai, eu sabia porque: a bebida, jogo e mulherada e a minha mãe sofria com isso. Seu Jonas, acho que era jogo. Dona Manoela Borges era quem se preocupava com tudo e todos. Visitava os doentes e internava, cuidava; tinha um espírito de liderança que incomodava seu Guilherme. Ele dizia: “Manoela é terrível, se mete em tudo”. Política era com ela. Foi pelas mãos dela que ele entrou na política, vice do Jerônimo Ribeiro. Nossa casa era frequentada pelos políticos e Presidente Venceslau. Onde ela estava, seus afilhados e familiares se acercavam e elegiam que ela quisesse. Sabe aquele ditado que diz ‘Atrás de uma grande está uma grande mulher’, serve também para eles”.
Minha mãe possuía faculdades psíquicas mediúnicas desde os primeiros anos da infância. Dona Manoela era católica marianista e, como não sabia lidar com o problema, pediu ajuda para um amigo da cidade de Santo Anastácio, o Sr. João Machado, comerciante, espírita e grão-mestre da Maçonaria. Ele visitava frequentemente Presidente Epitácio e o Porto Tibiriçá em busca de negócios desde a década de 1920, época da chegada dos trilhos da E.F. Sorocabana. Minha mãe residiu com essa família alguns anos, estudando e aprendendo ali, além das tarefas escolares e domésticas, as primeiras noções de controle da sua mediunidade. Nessa época meu pai foi estudar em Bauru, no Colégio Agrícola, onde conheceu e jogou bola com o Dondinho, pai do Pelé. Dizem que meu pai jogava um bolão. Jogou no Esporte Clube Fluvial, mantido pela Bacia e com um plantel de atletas formado por funcionários da empresa. Jogou também na A.A. Venceslauense.
 
PIONEIROS, GENOCIDAS E CIENTISTAS
Os primeiros habitantes de Tibiriçá e dessa vasta região certamente foram os indígenas, elementos de vida completamente interligada à natureza cuja rusticidade de hábitos, crenças e organização social muito simples os aproximavam daquilo que se convencionou chamar de pré-história. As provas arqueológicas e os testemunhos de pessoas que tiveram contato direto com essas populações confirmam a antiguidade e diversidade de etnias, indicando diferenças de costumes tribais e também uma semelhança genérica nas práticas e técnicas de sobrevivência, bem como nos rituais fúnebres e religiosos. Surgem, então, os conhecidos “picadões”, caminhos desmatados pela força bruta dos precursores da expansão cafeeira. A Serra de Botucatu era o ponto de partida da nova conquista, chamada por Pierre Monbeig (Pioneiros e Fazendeiros de São Paulo) de “franja pioneira”. Celso Prado e Junko Sato Prado (Historiografia para Santa Cruz do Rio Pardo) descrevem a ação organizada e puramente capitalista do conhecido pioneiro José Theodoro de Souza, visto tradicionalmente como um solitário desbravador e empreendedor rural familiar:
“Theodoro chegou a Botucatu, em 1850, à frente de uma tropa de mineiros, em maioria, e de fluminenses e paulistas, para entender-se com o Capitão Tito, "e ambos traçaram o plano da conquista da região habitada pelos índios". O território a ser tomado, adiante da Serra Botucatu, situava-se entre o Tietê e Paranapanema, por este ao desague do paranaense Tibagi, com avanço às contravertentes do córrego paulista Água Boa, alcançando a margem esquerda do Ribeirão das Anhumas, esse todo confinado pelo morro divisor Paranapanema/Peixe, ou seja, em torno de 260 quilômetros de extensão por 198 quilômetros de largueza, inóspito ao homem branco, habitado por indígenas que se movimentavam nos campos, nas matas, nas morrarias e nas furnas. O plano estava em exterminar os índios e recuar os sobreviventes, para a efetiva conquista das terras e o início do desbravamento sertanejo. O cabeça dividiu sua tropa em frentes fortemente armadas, ou colunas, com líderes postos e instruídos para as ações predatórias em territórios indígenas. Os comandos receberiam suas pagas em porções de terras e as fracionariam para os comandados, partes postas a vendas e lotes destinados a povoados. O próprio Theodoro assumiria o controle de um grupo composto por seus parentes, amigos e compadres. A empreitada ocorreu em curto espaço de tempo, menos de dezoito meses, com milhares de índios mortos e os sobreviventes arredados. Entre maio/junho de 1851 já se discutia politicamente a elevação da primeira capela sertaneja aonde Lençóis Paulista, porém a escolha recaiu sobre São Domingos, localidade mais antiga e melhor centralizada.  Não se sabe efetivamente quantos homens incorporados no exército de José Theodoro de Souza, todavia depreende-se cerca de mil deles na tomada do sertão, conforme documento oficial datado de 22 junho de 1851”
 
Na medida em que o elemento humano, invasor ou conquistador, penetrava na vida selvagem ocorria uma dispersão nômade dessas culturas primitivas, que se tornam cada vez mais frágeis e desprotegidas diante dos impulsos dominadores, das regras de ocupação e exploração territorial. Muitos índios atacavam, recuavam ou simplesmente fugiam ao recusarem a submissão. Repetindo a cena das primeiras ocupações do período colonial, os invasores modernos também estavam acompanhados de missionários religiosos que viam o elemento indígena como alvo e objeto especial de salvação, antes que sucumbissem à brutalidade do extermínio e da escravidão, como ocorreu no passado. A presença dos freis capuchinhos tentando organizar um aldeamento no Porto Tibiriçá nos primeiros anos do século XX (1913) é uma prova disso. Vale lembrar que o estabelecimento imediato e a competência da turma do Capitão Francisco Whitaker foram desafiados nos primeiros dias quando sofreram um revés frente ao ataque dos índios, que destruíram a clareira e a terra de cultivo preparadas com antecedência pelo temido Coronel Sanches, como haviam combinado os conquistadores antes da partida da expedição Tietê-Paraná.
 O temor dos civilizados diante da ferocidade dos índios coroados indicava uma constante defensiva diante da selvageria ameaçadora aos projetos de ocupação. Na região de Campos Novos os conquistadores Francisco Sanches de Figueiredo e João Hypólito foram apontados como os principais líderes da “Dadas”, movimentos de dispersão e extermínio que atingiam principalmente as tribos pacíficas de coletores como os Oti e Ofaié. Segundo João Francisco Tidei Lima, citando o antropólogo Egon Shaden (1954), cerca de 500 índios Oti que habitavam a região entre Ourinhos e Marília foram abatidos de uma só vez pela ação dos “bugreiros” contratados pelos conquistadores para “limpar” as terras ocupadas.  Amador Nogueira Cobra (Em um recanto do sertão paulista, 1923) registrou como aconteciam esses massacres:
-"Destarte o chefe dos sertanejos, que pela pratica já conhecia os hábitos dos contrários, aguardava certos dias da semana para chegar ás vizinhanças das moradas destes, precisamente na ocasião de suas danças guerreiras e religiosas, durante as quaes tomam uma bebida por elles mesmos fabricada. Depois de dançarem toda a noite e beberem muito, de fadiga e embriaguez, entregam-se a profundo somno. (...). O chefe distribue seus homens em redor; manda preparar as armas, e esperar até que haja luz. (...). Os [indios] que estão dentro despertam, saem em grupos e à medida que se apresentam, vão caindo, feridos mortalmente, a tiros. (...). Em seguida os sitiantes penetram nas habitações e encontrando-se com as indias, a umas aprisionam, a outras matam, bem como aos indiosinhos, aos quaes, – conta-se – que chegavam a levantar do chão ou da cama, atira-los para o ar e espeta-los em ponta de faca; outras vezes toma-los pelos pés e dar com as suas cabecinhas nos paus, partindo-as. Ás índias grávidas, rasgavam-lhes o ventre e depois de finda a carnificina, amontoavam os cadáveres sobre os quaes lançavam fogo bem como aos ranchos. A estes, variando de tactica, de quando em vez, nem sempre punham fogo; deixavam-nos de pé e deitavam substancias venenosas nos utensílios de cozinha e nos alimentos alli guardados, para que fosse victimado no comer algum que porventura sobrevivesse"
Seguindo uma antiga tradição de dominação e opressão praticada pelos antigos senhores de escravos, por meio de feitores e capitães de mato, muitos desses bugreiros eram as melhores “cuias extraídas da própria madeira do cabo da enxada”, isto é, índios “amansados” que se tornavam guias e intérpretes dos brancos. Essas práticas criminosas foram trazidas a São Paulo na década de 1850 por José Theodoro de Souza e pelo bugreiro fluminense Vicente Lourenço. Alguns desses últimos tornaram-se heróis do pioneirismo e dão nomes a ruas e escolas em algumas cidades do interior paulista. O Coronel Francisco Sanches, “temido e respeitado” chefe territorial, seria morto em 1912 por dois pistoleiros a mando de desafetos políticos.
Essa triste e violenta história se repetiria na região com disputas de terras entre posseiros e lavradores entre as décadas de 1930 e 1960, conforme relata João Maria de Souza (História de Teodoro Sampaio- Enciclopédia Digital Emubra) revelando as raízes mais antigas desses conflitos agrários, iniciados entre 1900 e 1910:
“A colonização da região do Pontal se deu num primeiro momento, expulsando e matando os índios e posteriormente os pequenos posseiros. Para isso, eram contratados bandos de jagunços armados, cujo objetivo era limpar o território e exterminar o "bugre ateu". Havia grupos de extermínio de índios que criaram fama no sertão, chefiadas pelo Coronel Sanches de Figueiredo. Para expulsar os pequenos posseiros, surgiu a partir da década de 1930, a célebre figura do "quebra-milho", capanga contratado por grandes grileiros. O intuito disso era o de expulsar os outros ocupantes e posseiros. O mais famoso "quebra-milho" que atuou entre a década de 40 a 50 foi o pistoleiro Juventino Nunes. Ele sempre era contratado pelos grandes latifundiários para garantir suas posses”.

 Os mesmos métodos de ocupação violenta se estenderiam pelo Mato Grosso, Rondônia, Acre, Amazonas e Pará, conforme consta no famoso Relatório Jáder Figueiredo, feito por determinação do Ministério do Interior em 1968.  Na devastação da fauna e da flora valia tudo para remover os obstáculos para a criação e estabelecimento legal de novas propriedades, inclusive o envenenamento de mananciais de água utilizados pelos índios, doação de açúcar com estricnina, inoculação de vírus de varíola, caçadas humanas com metralhadoras e dinamites. Alguns desses métodos de extermínio humano já eram praticados pelos conquistadores mineiros que ocuparam o Oeste paulista no século XIX. O relatório do procurador Jáder Figueiredo, que percorreu milhares de quilômetros, visitando 160 postos indígenas na região Norte, citava as mais torpes atividades criminosas envolvendo exploradores e funcionários públicos corrompidos: venda de madeira e gado, escravidão, prostituição de índias, assassinatos individuais e genocídios de tribos, roubo e venda de objetos artesanais. Os bugreiros, genericamente falando, nada mais eram do que indivíduos ignorantes e rústicos, sem noção de moralidade ou valores de urbanidade. Não se pode atribuir unicamente a eles a responsabilidade pelos seus atos cruéis e desumanos, já que, muitas vezes ingressavam nessa atividade e nela permaneciam por força das circunstâncias, incentivo e pressões daqueles que realmente comandavam essas ações. Esses, sim, eram os verdadeiros, os esclarecidos, homens de negócio que não sujavam as mãos de sangue, porém elaboravam os contratos e compromissos com esses carrascos sem a menor preocupação com os meios que seriam aplicados para que seus fins fossem atingidos. É o que retrata as conhecidas imagens do massacre dos índios cinta-larga na Amazônia, no qual os bugreiros, como já acontecia em outras épocas, exibem suas crueldades como se fossem troféus de gestos de coragem heroica. Talvez não houvesse maldade intencional em seus corações e sim a completa falta de noção da gravidade criminosa que estavam cometendo em troca de poucos recursos para a sua sobrevivência. Para eles, matar índios era como abater animais da fauna abundante e que representavam apenas um obstáculo ao processo de ocupação legítima do mais forte sobre o mais fraco. Para um bugreiro acostumado a caçar e abater índios como forma de sobrevivência seria inimaginável que esses seres pudessem ser seus semelhantes, ideia que nem de longe passaria pelas suas mentes pequenas e limitadas.  O mesmo não poderíamos afirmar sobre aqueles que os contratavam e que lhes davam as ordem de extermínio.
A historiadora Maria do Carmo Sampaio Di Creddo (Terras e Índios – a propriedade da terra no Vale do Paranapanema), citando um ofício do Diretor Geral de Índios ao presidente da Província (antigo governador), revela as graves contradições e confrontos entre a “barbárie” nativa e a “civilização” que se impunha como necessidade produtiva:
“A situação era difícil para os grandes proprietários e para os povoados, na medida em aumentavam os ‘magotes’. Os índios vagavam pelo sertão realizando saques para sobreviver. Encontravam-se em estado de penúria, constantemente pressionados e ‘caçados’. Eram vistos como ‘indolentes e desocupados’, ‘entregues à embriaguez a à rapinagem’ e ‘habituados apenas ao emprego da ameaça para satisfazerem suas necessidades’. Como os índios não se integravam como assalariados nas fazendas, eram classificados como ‘vagabundos’, ‘desocupados’ e ‘mendigos’. Tornavam-se, assim, ‘inconvenientes’ e, em outros casos, representavam uma ameaça aos habitantes do interior e da Capital”.
Já o relato do sertanista Curt Nimuendaju, sobre embates violentos entre a nossa pré-história e a história colonizadora, cita fatos diretamente ligados à história de Presidente Epitácio. No documento ele revela um outro tipo de atividade usada no trato com os selvagens, bem como a grandeza humanitária de Whitaker e sua preocupação com o futuro dos indígenas:
“Neste mesmo ano chegou o picadão da Companhia de Viação São Paulo-Mato Grosso, na barranca do rio Paraná, perto da barra do rio Santo Anastácio. Logo depois se apresentaram lá alguns Ofaié e repetiram a visita. Foi então que o cidadão Cap. Francisco Whitaker, encarregado da instalação do Porto Tibiriçá pela dita Companhia, escreveu à D. Ramón* pedindo uma entrevista com ele a fim de se consultar sobre estes índios. Dizia ele que a Companhia estava disposta de expor uma certa garantia anualmente para aldear e socorrer os índios, e convidou D. Ramón para vir tratar deste assunto como encarregado da Companhia percebendo um ordenado mensal de 50$000.
D. Ramón aceitou a oferta e no dia 22 de dezembro de 1908, ele chegou com sua família nas margens do rio Paraná, onde ele se estabeleceu na barra do Sto Anastácio. Já no mês seguinte começaram os índios a aparecer em número maior na barra do rio Pardo, pedindo asilo em São Paulo. Cap. Francisco Whitaker, porém, querendo que eles se estabelecessem na margem direita do Paraná, negou-se de receber eles em São Paulo. Mas os Ofaié, sem alguém dar por isto, saltaram o Paraná acima da barra do rio Pardo, rodearam o Porto Tibiriçá dentro da mata e chegaram na casa de seu amigo velho e protetor, na barra do rio Sto. Anastácio.
Uma parte deles se estabeleceu logo na vizinhança do sítio de D. Ramón e já em fevereiro estavam eles trabalhando lá, roçando pasto, etc. Um outro grupo chefiado por um índio de nome Tatý se deslocou e fez uma ranchação nas cabeceiras do Córrego da Aldeia, de onde fizeram excursões até à Esperança. A má vontade de certos elementos quase interrompeu a boa marcha do trabalho de D. Ramón. Mesmo em Porto Tibiriçá, na ausência de Cap. Witacker, prendeu o Administrador Benedito Jatobá 2 índios que vieram pacificamente e repeliu os companheiros deles com descargas. Ele foi imediatamente demitido. Na margem direita do rio Paraná, na barra do rio Pardo e em vista do Porto Tibiriçá atirou um filho de Manoel da Costa Lima num índio, depois de tomar o arco e as flechas dele.
Debaixo dos olhos dos funcionários da Companhia de Viação, porém, os Ofaié foram tratados sempre com a máxima justiça e paciência. Todos serviços lá feitos por eles sempre foram pagos, tanto como os objetos que eles levaram ao armazém para vender. Foi uma grande felicidade para estes índios que a Companhia não consente a entrada de alcoólicas nos seus estabelecimentos. Em vez de tratar os Ofaié com cachaça, conforme o uso geral, Cap. F. Whitaker mandou fazer dois alqueires de roça para eles. Quando estive nesta zona em 1909 a fim de fazer um pequeno estudo sobre estes índios, observei este proceder da Companhia de Viação com a máxima satisfação”.
Relatório de Curt (Nimuendajú) Relativo aos chavantes de Mato Grosso -1913. Porto Alegre, 12 de Fevereiro de 1912. Ao cidadão Luiz Bueno Horta Barbosa. D.D. Inspetor do Serviço de Proteção aos Índios de São Paulo.
*Ramón Coimbra, conhecido e experiente profissional de aldeamento indígena. Nota do autor.
Fundado o Porto, surge então o povoado, que não passava de posto avançado tanto para os projetos da Companhia de Viação São Paulo Mato Grosso, como também para as primeiras investidas ideológicas da Igreja Católica na região.
Quem foram, então, os primeiros habitantes dessa nova ocupação, além dos funcionários da empresa? Quem foram esses pioneiros que se aventuraram a buscar nesse lugar o ponto de partida ou de permanência?
Uma antiga descrição do povoado Porto Tibiriçá feita por Olympio da Fonseca, Adolpho Lutz e Heráclides César de Souza-Araújo (“Viagem científica no rio Paraná e a Asunción, com volta por Buenos Aires, Montevideo e Rio Grande”), já no final da segunda década do século (1918), nos dá uma ideia dessa primeira ocupação urbanizadora.  Primeiramente elas dão uma visão geral de como era essa vasta região poucos explorada:
“Para que se faça uma ideia do quanto eram pouco visitadas essas partes centrais da América do Sul, basta referir que em todo o seu longo percurso, entre o Rebojo de Jupiá e as Sete Quedas, o rio Paraná só era atingido ao lado do Brasil pela Estrada de Ferro Noroeste que o atravessava naquele primeiro ponto e, depois, somente na localidade então chamada Porto Tibiriçá, por uma trilha de boiadas pela qual, vindo de Mato Grosso, passava o gado a pé numa viagem de meses até São Paulo. Quando estávamos em Três Lagoas, dizia-se e nos informavam que nos últimos dez anos o Alto Paraná só em Porto Tibiriçá encontramos qualquer habitação e moradores que não fossem índios em vida tribal falando seus idiomas próprios”.
 Logo a seguir aparece uma descrição do povoado já formado e com algumas dezenas de moradores, a julgar pelo número de habitações identificadas:
“Às 21hs. chegamos a Porto Tibiriçá. O povoado, que tem 15 ou 20 casas, está situado no ponto de travessia das boiadas que de Mato Grosso são encaminhadas para São Paulo. Uma das casas serve de hotel, tendo apenas dois quartos bastante amplos, o piso forrado de tijolos e cobertura de folhas de zinco. Grande número de urubus (Coragyps atratus (BECHT.) = C. foetens (LICHT.) pousa sobre as árvores ou passeia no quintal de mistura com as galinhas. Lá também vive domesticada uma ariranha (Pteronura brasiliensis (ZIMM.) = Lutra brasiliensis = L. solitaria). Sob o nome de sarandi designam-se várias plantas de diferentes famílias: as euforbiáceas do gênero Sebastiania, S. Angustifolia (MULL. ARG.) S. Klotzschiana MULL. ARG., S. Schottiana MULL. ARG., a rubiácea Cephalanthus sarandy (= C.Glabratus (SPRENG.) SCHUM., e outras.
Essa outra descrição da vila, mais detalhada, foi feita em função das atividades de pesquisa e atendimento médico dado aos moradores durante os cinco dias em a expedição permaneceu em Tibiriçá.
Após os trabalhos, nos qual foram atendidos 30 doentes – a maioria portadores de malária-  os pesquisadores fizeram uma série de recomendações sanitárias ao agente da Companhia de Viação, Sr. Ovídio Braga, para reduzir os riscos de doenças entre os funcionários e moradores do Porto:
 
PORTO TIBIRIÇÁ (S. Paulo):
 Este porto que fica na margem esquerda do Paraná, está situado defronte ao Rio Pardo e numa altitude de 270 m acima do nível do mar. Tibiriçá fica 22 léguas de Indiana, última estação da Sorocabana; é a sede da Companhia de Viação S. Paulo-Matto Grosso.
Conta ahi pouco mais de 20 habitações, quase todas casas de madeira, 1 armazem, 1 hotel e 1 uma pequena pharmacia, tudo pertencente a referida empreza.
Tibiriçá tem água encanada em todas as casas ou na proximidade dellas. Essa água é obtida de um poço de nascente na margem do Paraná, de onde é aspirada por meio de bomba a vapor e levada a quatro reservatórios, de 1000 litros de cada um, donde se faz a distribuição à habitações.
A distribuição é contínua e o gasto diário parece não exceder 5000 litros. A água fornecida à população de Tibiriçá é melhor que todas as águas existentes nas povoações que lhe ficam acima.
Em Tibiriçá havia em Fevereiro 98 habitantes, sendo 56 homens, 16 mulheres e 26 creanças. A empreza prohibe o uso do álcool a todos os habitantes desse sympatico reduto. Esta alta medida social e aconomica devia ser adotada em todas as empresa ruraes, porque de todos os vícios, o que maiores produz aos nosso sertanejos é o alcoolismo.
Estado sanitário.
Pelos exames clínicos que e hematológicos que fizemos em Porto Tibiriçá e pelo exame de baço de muitas creanças, verificamos ser bastante elevado o índice endêmico palustre nesse lugar, que calculamos em 40% de toda a população; annos há, conforme informou-nos o pharmauceutico da empreza, que essa porcentagem vai muito além”.
 É dessa época também a construção e uso do mais antigo cemitério de Presidente Epitácio, onde provavelmente foram sepultados os primeiros habitantes do Porto Tibiriçá.  O velho cemitério está localizado no final da rodovia Raposo Tavares, próximo a cabeceira da Ponte Professor Maurício Joppert, distante a quase um quilômetro da vila. Alguns túmulos estão marcados com a cruz romana e outros com a cruz ortodoxa, estando datados das primeiras duas décadas da formação do povoado.  Segundo relatos de moradores antigos (Manoela Borges e Jacy Xavier Duque dos Santos), além dessas sepulturas cristãs esse lugar também foi escolhido para enterrar corpos de soldados da Coluna de Juarez Távora, em 1924, mortos por tifo.
É dessa época também a construção e uso do mais antigo cemitério de Presidente Epitácio, onde provavelmente foram sepultados os primeiros habitantes do Porto Tibiriçá.  O velho cemitério está localizado no final da rodovia Raposo Tavares, próximo a cabeceira da Ponte Professor Maurício Joppert, distante a quase um quilômetro da vila. Alguns túmulos estão marcados com a cruz romana e outros com a cruz ortodoxa, estando datados das primeiras duas décadas da formação do povoado.  Segundo relatos de moradores antigos (Manoela Borges e Jacy Xavier Duque dos Santos), além dessas sepulturas cristãs esse lugar também foi escolhido para enterrar corpos de soldados da Coluna de Juarez Távora, em 1924, mortos por tifo.
 
A ALTA SOROCABA
O geógrafo José Ferrari leite, autor da mais autêntica descrição já feita sobre a transformação histórica dessa região (A Alta Sorocabana e o espaço polarizado de Presidente Prudente, 1972) demonstra como a história do oeste paulista teve profunda influência da extração de madeira e posteriormente da formação das grandes fazendas de invernada. Exemplo disso está na pioneira Fazenda Indiana que, ligada pela Estrada Boiadeira ao Porto Tibiriçá, constitui-se na base principal do desenvolvimento regional.
“Todos os edifícios do pequeno núcleo eram de madeira: a padaria, a farmácia, a igrejinha, a pensão, as residências. Da mesma forma eram de madeira as sedes das fazendas. Dos sítios e as casinhas do colonos. As casas de ‘material’ (alvenaria) só apareceram após sedimentação do povoado”.
Para este geógrafo, também a saída do trem e o apito das serrarias davam o tom o ritmo social de inúmeras cidades, demarcando os horários de início, pausas e finalização diária das jornadas de trabalho. Passada essa fase de intensa atividade predatória e produtiva, tornava muito comum na área rural as infinitas pastagens verdes, com centenas de tocos deixados pelas derrubadas; e na cidade, com o esgotamento da madeira e o fechamento das serrarias e as pequenas pica-paus, surgiam as montanhas de serragem, também utilizadas como forragem para hortas e combustível de fogões domésticos.
Entretanto, a parte mais curiosa da narrativa de José Ferrari está na descrição do elemento humano, separado em suas respectivas categorias sociais, cuja denominação e papéis se encaixam praticamente na história de todos os povoados e cidades da Sorocabana.
Primeiramente os “fazendeiros” que, além de proprietários de grandes extensões de terras, tinham como marcas de status o serviço de um administrador profissional, um jipe, um trator, caminhão de carga, jardineira de passageiros e um avião para quatro ou seis passageiros, com o qual se deslocavam a grandes distâncias para comprar ou arrendar terras e negociar gado para engorda nas invernadas.  Quando não residiam em São Paulo, os fazendeiros moravam em uma cidade grande próxima da fazenda, em residências de luxo, bem diferenciadas das moradias comuns. Também, como investimento futuro, eram proprietários de terras no Paraná, Mato Grosso e Goiás, na época regiões ainda sem desbravamento.
O segundo elemento humano descrito por Ferrari é o “sitiante”, pequeno proprietário e empreendedor nos arredores das cidades, com posses e hábitos mais simples. Ao invés de tratores, possuíam carroças e moravam em casas de madeira bem cuidadas e ornamentadas, rodeadas de pomares, galinheiros, chiqueiros, hortas, lavouras e animais de serviços. Geralmente eram descendentes de imigrantes japoneses, alemães, espanhóis e eslavos. Muitos também, segundo esse autor, eram “paulistas, mineiros, pernambucanos”.  Nessa mesma categoria, existia o sitiante arrendatário, cuja condição instável de usuário da terra alheia dava um outro modo de vida à centenas de famílias que se tornariam um grave problema social no Pontal do Paranapanema: os bóias-frias e mais tarde “sem-terra”. Esses, originários, em sua maioria do nordeste, tinham um maior número de filhos, poucos recursos de sobrevivência, casas mal cuidadas, em espaços que pareciam não ter a vida e a satisfação que tinham os proprietários.  Na mesma época, em faixa social semelhante, haviam os “peões boiadeiros”, conhecidos como gente do Mato Grosso, Paraná, tendo também gaúchos e paraguaios entre eles. Eram diaristas nas fazendas ou condutores de gado em comitivas, levando uma espécie de vida nômade e solitária, longe das famílias, geralmente radicadas no povoados na rota de suas viagens. Entre eles também encontravam-se os peões coletores, gente mais humilde, trabalhadores braçais sem qualificação, não raro em estado de miséria, morando de favor em ranchos de barro e sapê, sempre em busca de alguma renda incerta nas colheitas de amendoim, algodão e pequenos serviços nos sítios e fazendas.
E por último os “profissionais urbanos”. Da classe baixa: pedreiros, feirantes, vendedores ambulantes, empregados das indústrias, balconistas, motoristas, comerciários; da classe média: os funcionários públicos, os técnicos de serviços, os bacharéis liberais e os comerciantes; e na mesma faixa social superior dos fazendeiros invernistas – os comerciantes de grande porte, donos de indústrias e frigoríficos.
Sobre os membros da classe baixa, moradores das periferias e originários das lavouras rurais, Ferrari chama atenção para o seguinte aspecto:
“Ganham salário mínimo ou pouco além disso. São raros os que conseguem manter seus filhos nas escolas, mesmo sendo estaduais. Os livros, cadernos, sapatos são demais para os seus orçamentos”.
 
A TERRA E O CHÃO
O noticiário da TV em horário nobre chama a atenção do telespectador para as ameaças dos líderes do Movimento Sem-Terra em pulverizar o País com invasões de fazendas. A palavra de ordem é “infernizar” o governo durante todo o mês de abril de 2004 e todos os sindicatos alinhados à CUT – Central Única dos Trabalhadores prometeram deflagrar greves nos mais variados setores. As ameaças do sem-terra se realizaram em vários lugares considerados estratégicos e a cidade de Presidente Epitácio é um deles.  Um ano antes o líder do MST, José Rainha, havia organizado em Presidente Epitácio um gigantesco acampamento com mais de mil barracos habitados pelos excluídos do Pontal do Paranapanema. O acampamento tem o nome de Nova Canudos, uma homenagem aos sertanejos comandados pelo beato Antônio Conselheiro e massacrados pelo Exército em 1897 no interior da Bahia.
As imagens da Rede Globo, no Jornal Nacional, mostram em Epitácio uma vasta área rural onde não se enxerga uma única cabeça de gado e sim as centenas de barracos cobertos de lona plástica preta. Nesse enorme acampamento uma multidão aparentemente tensa aguarda as últimas ordens de comando e também a solução definitiva para a situação que vem se arrastando por vários anos.
O presidente da república, Luiz Inácio Lula da Silva – ex-operário e líder sindical-, antes um apaixonado defensor das invasões, agora possui um discurso moderado e às vezes intolerante com os sem-terra. Mudou radicalmente de posição política, pois, segundo a interpretação popular, antes ele era a pedra e agora virou vidraça. Lula é o alvo principal dos protestos e invasões, assim como seu antecessor, o sociólogo e professor Fernando Henrique Cardoso.
A opinião pública sempre se dividiu ideologicamente quando o assunto é invasão de propriedades; afinal, trata-se de coisa sagrada na cultura ocidental e um verdadeiro dogma da doutrina liberal vigente na sociedade capitalista. É, portanto, de uma heresia socialista. Entretanto, atualmente, o problema não se restringe ao mundo rural. Nas grandes metrópoles, onde cresce dia a dia a escassez de moradias, veio crescendo também o Movimento Sem-Teto, um efeito social e histórico do longo êxodo rural que foi desembocar nos corredores urbanos em forma de favelas e cortiços. Essa situação caótica, agravada pela Terceira Onda, a depressão globalizante dos anos 90, contribui ainda mais para a polêmica e o acirramento das opiniões.
Nunca se falou tanto no estabelecimento dos direitos humanos fundamentais como nas duas últimas décadas, período em que a sociedade democrática brasileira veio sendo testada por crises sucessivas na economia, pelo desemprego, pela propagação da criminalidade e da violência. Os direitos de cidadania, de trabalho, de dignidade pessoal e familiar, de moradia, educação e saúde têm sido pautas obrigatórias nas discussões sobre as conquistas sociais do Estado Nacional.
Mas, afinal de contas, o que é e quem faz parte do Estado Nacional. Todos os brasileiros são membros dessa grande instituição da nacionalidade? Todos possuem os mesmos direitos e de todos são exigidos os mesmo deveres? Qual têm sido as mudanças positivas no terreno das igualdades sociais, no exercício da cidadania e na justa distribuição de riquezas?
Todas essas perguntas quase sempre são colocadas de lado quando se discute a questão da propriedade e das invasões. Elas geralmente esfriam os ânimos exaltados e lembram que essa temática é muito mais complexa do que se imagina e que as soluções simplistas somente amenizam o problema. A maioria das pessoas nem se dão contam de que o problema da propriedade é tão antigo quanto a própria humanidade. Nas aulas de história e geografia o tema quase sempre é abordado a partir da referência aos conflitos entre populares e aristocratas nas cidades da Grécia antiga e também entre patrícios e plebeus na Roma clássica. Reformadores como Drácon, Sólon e Clístenes surgiram principalmente por causa de reivindicações dos direitos de cidadania e participação social em Atenas. Em Roma, os irmãos Caio e Tibério Graco, tribunos da plebe, colocaram suas vidas em risco porque exigiram do senado providências urgentes para uma redistribuição social das terras públicas. Quase todas as revoluções sociais, desde a Idade Média até as mais recentes convulsões europeias e americanas contemporâneas, tiveram a terra e seu uso como causas fundamental desses conflitos.
Presidente Epitácio não apareceu em rede nacional de televisão por obra do acaso. A concentração de trabalhadores sem-terra, que nos tempos em que havia trabalho, eram apelidados de “boias-frias”, não é uma coincidência ou simples armação político-partidária. É um problema histórico. Tem causas remotas caídas no descaso e consequências atuais inevitáveis. A história não se repete, jamais. Isso é apenas uma impressão dos que não percebem que os problemas que não são resolvidos no seu devido tempo voltam com uma carga de efeito ainda maior, com as agravantes do próprio tempo. Nas cidades vizinhas de Caiuá e Presidente Venceslau concentram-se lideranças da UDR-União Democrática Ruralista, entidade criada por fazendeiros em 1985 para monitorar os debates agrários da Assembleia Constituinte e também combater as invasões das propriedades, consideradas por eles como legítimas, porém contestadas pelo Movimento Sem-Terra como sendo de domínio público e devolutas ao Estado. A falsificação de títulos agrários no Oeste paulista remonta ao século XIX, quando surgiram os chamados “grileiros”, emissores de escrituras falsas cujo papel era envelhecido artificialmente em recipientes fechados e úmidos, juntamente com insetos (grilos).
O Estado de São Paulo, apesar da sua fama de modernidade e progresso, na verdade sempre foi um barril de pólvora quando o assunto era terra e propriedade.
O Pontal do Paranapanema, região na qual Presidente Epitácio nasceu como pessoa jurídica, sempre reuniu sobre seu solo uma massa de pessoas físicas, formada por retirantes de outros estados e imigrantes europeus e asiáticos praticamente expulsos de suas pátrias por causa de problemas fundiários. Sem falar de outro fator agravante: os habitantes mais antigos da região, os índios, também foram brutalmente expulsos de suas terras para dar espaço aos novos moradores civilizados. Os relatos históricos, incluindo alguns recentes, não se envergonham ao afirmar que os índios “recuaram” ao perceber a presença o homem branco. Na verdade eles foram sempre ameaçados e mortos. Esses relatos feitos por memorialistas desprovidos do conhecimento científico historiográfico não se dão conta importância do registro desses fatos, no mínimo como fonte documental, para as gerações futuras. Para eles os conflitos agrários e a presença do MST nessa região é um tabu político. Simplesmente ignoram o assunto como se jamais tivesse acontecido.
As imagens da TV não mostram senão aspectos parciais da polêmica questão agrária brasileira. Sobre este assunto já foram feitas novelas, diversos documentários, inúmeras teses acadêmicas e incontáveis reportagens. A população culta dos países do hemisfério norte, o chamado primeiro mundo, também conhece, por imagens, a saga dos sem-terra. O fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado documentou o Movimento Sem-terra em branco preto, o que acentuou ainda mais o aspecto dramático das cenas por ele registradas em um belo e luxuoso livro para exportação.  O realismo do fotógrafo chega ser assustador e desperta um misto de temor e piedade. Numa entrevista na TV, Salgado, que é economista, explicou que o seu interesse por esse tema surgiu quando trabalhava na FAO, órgão técnico das Nações Unidas que cuida dos problemas da fome e alimentação nos continentes. De pesquisador Salgado transformou-se num dos mais requisitados profissionais de fotojornalismo da atualidade. Foi também da sua boca que ouvimos a melhor definição sobre o os trabalhadores sem-terra: “É o único movimento organizado do mundo que prega a volta do homem ao campo”.
Em Presidente Epitácio essa volta do homem ao campo vem sendo adiada desde quando os trens da Sorocabana vinham despejando levas e levas de migrantes expulsos de seus lugares de origens e também da Capital paulista e das cidades por onde esses trens passavam. Eles eram empurrados para o interior através de passagens sempre “gratuitas”, concedidas pela generosidade da “assistência social” das cidades onde paravam. Chegando no fim da linha, os razoavelmente qualificados eram encaminhados para fazendas da região; e os indesejáveis despachados para o Mato Grosso ou Paraná. As fazendas bem instaladas possuíam “colônias”, um conjunto de moradias precárias construídas para abrigar provisoriamente essa gente flutuante que pulava de um lado para outro, sem rumo, sem perspectiva, sem destino certo. Poucos foram educados para a vida autônoma e cresceram envolvidos por antigos laços de clientelismo e dependência; não possuíam o espírito empreendedor nem foram adestrados para a iniciativa.
Ao contrário da maioria dos imigrantes europeus, treinados secularmente nas tramas do saber político e profissional, os migrantes brasileiros, ingênuos e despreparados, estacionaram na pobreza. Muitos deles, falidos nas decisões incertas e derrotados na autoestima, mergulharam na mais absoluta miséria.
Para os liberais bem sucedidos os antigos boias-frias e atuais sem-terra são os fracassados incorrigíveis; para os socialistas e humanistas eles representam injustiçados, deserdados da solidariedade humana. Não é à toa que eles sempre foram chamados de “vagabundos”, como de costume se chamavam também os índios e escravos africanos. Eles nunca tiveram motivos justos para acreditar que o trabalho era algo sagrado, prazeroso e promovedor da prosperidade.
Muitos que hoje fazem o discurso de salvação e merecimento pelo trabalho não fizeram a mínima parte do esforço feito pelos seus ancestrais; herdaram o que possuem sem os obstáculos enfrentados pelos pioneiros. Em países mais desenvolvidos pagariam um alto preço pela herança, em forma de impostos, e teriam que provar sua vocação para o negócio agrário.
Humildade e resignação para suportar a fome; fé e esperança para confiar no destino incerto, foram os únicos bens deixados pelos antigos boias-frias aos seus remanescentes sem-terra. Terra para todos eles somente no sentido bíblico e simbólico de Canaã, que fica no horizonte, sempre mais adiante rumo ao sertão infinito.

RAÍZES E DESTINOS
Toda a região Oeste do estado ainda era povoada de índios nas primeiras décadas do século XX, inclusive os coroados (caingangues, bugres ou botocudos), conhecidos pela agressiva hostilidade para com os brancos invasores de suas terras. É desse período de formação do Estado Nacional, a revisão das divisas e fronteiras, a rearticulação de forças e consequentemente as novas demarcações do espaço geopolítico, incluindo a famosa Lei de Terras. Nessa época o atual estado do Paraná pertencia à Província de São Paulo e seria desmembrado somente em 1853. Essa reorganização territorial que afetou São Paulo teve sua origem basicamente na participação dos paulistas na Revolta Liberal de 1842, dando ao governo central motivos para punir, dividir e ao mesmo tempo reduzir os poderes dos grupos políticos regionais resistentes ao centralismo imperial. Ao reordenar esses territórios o governo provocou uma nova ordem geopolítica, estimulando indiretamente a ocupação de terras antes despovoadas, fenômeno logo oportunizado pelos mineiros que vieram para Campos Novos e Norte do Paraná, bem como os europeus que colonizariam a região Oeste paranaense e o Norte de Santa Catarina. Essa foi também uma longa história de violências e expurgos criminosos das populações indígenas.
A denominação “coroados”, dada ao grupo mais temido dos indígenas vem de “cabeças coroadas”, descrição dos antigos colonizadores portugueses do corte de cabelos e ornamentos usados pelos índios dessa etnia e que lembram uma coroa. A visão do homem civilizado sobre essas culturas variava de acordo com o grau de conhecimento e discernimento ético da diversidade e também do perfil cultural dos exploradores e seus auxiliares desbravadores. Genericamente, com raríssimas exceções, o índio era sempre visto como o selvagem despossuído de “alma” e, portanto, tratado como um simples e ingênuo animal da fauna. Qualquer comportamento que insinuasse sua semelhança com a nossa humanidade e que contrariasse a nossa capacidade de pensar e agir era imediatamente revidado com os requintes de uma crueldade que lembra a delinquência dos sociopatas.  O resultado do contato deles com os exploradores foi o brutal desaparecimento dessas tribos. Os relatos sobre esse contatos são chocantes e durante muito tempo foi ocultado pelos memorialistas amadores e também minimizado ou idealizado pelos historiadores românticos.
Ao relembrar essa relação pouco amistosa entre índios e brancos, o fundador de Presidente Epitácio, Capitão Francisco Whitaker, triste e conformado, escreveu sobre a luta desigual entre a pólvora do progresso e a resistência corajosa, embora frágil e natural, das etnias indígenas. Consciente das escolhas que fez e das decisões que tomou, Whitaker justificou o cumprimento de suas promessas de responsabilidade empreendedora:
“Atrahido pelo desconhecido, e lenda dos nossos sertanejos, acolhi com entusiasmo a encumbencia, e vindo a Campos Novos, de onde a estrada devia partir em demanda do Rio Paraná ali contractei a sua abertura com o Cel. Francisco Sanches de Figueiredo, chefe político de real prestígio neste sertão, e grande conhecedor dos hábitos e ardis dos índios coroados, com os quaes já tivera sangrentos reencontros. Foi elle um dos sertanejos que mais concorreram para manter em respeito essa altaneira e aguerrida tribu dos coroados que, por longos annos, heroicamente defenderam a entrada dos nossos sertões, onde, em plena liberdade e felizes, creavam seus filhos, fucturos defensores desse resto da pátria de seus antepassados. Iam ser agora perturbados. Mas...que fazer? A civilização tem exigencias e o progresso não tem coração”.
 
 Apesar de ser vista como uma crença, temos a convicção que essa região tem uma espécie de culpa e “carma”, uma grave dívida espiritual para com os índios que aqui viviam. Esse choque de retorno e resgate de crimes cometidos por antigos fazendeiros e seus serviçais “bugreiros” contra essas populações geralmente ocorre por meio de mortes violentas, seja por confronto ou por acidentes trágicos de pessoas envolvidas direta ou indiretamente com negócios públicos. Basta lembrar que essas tragédias são contínuas e marcantes nessas regiões e também em Epitácio. A lista de mortes trágicas (e isso inclui os acidentes domésticos e suicídios) dos nossos conterrâneos, para alguns, ter a aparência de normalidade causal e frieza estatística, porém, possui para nós um significado muito especial. De todos os acontecimentos trágicos registrados na memória epitaciana o mais lembrado foi o corrido em 27 de março de 1951, data do primeiro aniversário da emancipação do município. Um avião pilotado pelo comerciante Plínio Junqueira foi arremessado violentamente sobre um dos poucos quarteirões da cidade que estava nascendo. O memorialista Adão Virgolino da Cruz (Reminiscências, 2008), nascido em Tibiriçá e testemunha ocular do acidente, relata que, antes de cair, o avião cruzava os ares da cidade já dando sinais do que iria acontecer:
“Em dado momento o avião tomou a direção da barranca –porto—dando continuidade às acrobacias, e quando retornava, ao repetir o voo rasante, bateu a asa nos fios de alta-tensão em frente a Casa Maiat, na quadra 1 da avenida e, desgovernado, bateu em seguida sobre o telhado da mesma, quando a porta se abriu com o choque jogando o senhor Antonio Maia – por ironia do destino- no quintal da sua residência, indo em seguida espatifar-se de encontro com o forno da Padaria Paulista, do senhor Otto Schineidewind, no terreno dos fundo, onde hoje é o escritório da Cia. Elétrica Caiuá”.
Além do piloto, morreram por força do impacto e do fogo provocado pelo vazamento do tanque de gasolina, o dentista Sebastião Nunes e o prefeito da cidade Antonio Marinho Carvalho Filho. Antonio Maia foi milagrosamente encontrado ainda atordoado “com apenas um arranhão na testa”. 
  Numa ocasião estávamos visitando uma exposição de objetos indígenas no salão da A.A. Epitaciana e tivemos uma experiência muito curiosa: uma mulher de uns 25 anos de idade, com fortes traços indígenas percorria o salão falando sozinha, pronunciando frases aparentemente desconexas. A pessoa que estava conosco reclamou que estava sentindo um sono incontrolável e nós mesmos não parávamos de bocejar. Enquanto isso a mulher reclamava em voz alta, na língua tupy, e fazia gestos de indignação. Percebemos, então, que não se tratava de uma pessoa com problemas mentais. Na exposição havia objetos funerários de cemitérios indígenas encontrados durante as obras da CESP na região e recolhidos por pesquisadores. A mulher provavelmente estava mediunizada e, de forma agressiva, protestava contra aquela exposição, para ela uma violação de coisas sagradas do seu povo. Lembramos que alguns anos antes, quando esses objetos foram encontrados e levados pelos pesquisadores da Unesp, escrevemos no jornal local um pequeno artigo sobre o fato reclamando que os objetos deveriam permanecer em Epitácio. Na época fomos repreendidos por algumas pessoas que achavam que não havia necessidade para tanta hostilidade com os pesquisadores. Entendemos, naquela exposição, o que estava acontecendo. O mundo espiritual e mágico dos índios ainda estava bem vivo e fazendo cobranças sobre o desrespeito com as suas tradições. O sono e os bocejos não eram efeitos do acaso. Objetos sagrados e antigos possuem saturações magnéticas poderosas, produto psíquico dos cultos e crenças que ficam impregnados sobre os mesmos. Sempre temos esse tipo de sensação quando entramos em sebos de livros, antiquários e museus. Móveis usados e roupas de brechós também possuem essas cargas magnéticas, sobretudo peças de pessoas que já desencarnaram. Várias pessoas já nos confessaram ter a mesma impressão. Naquele dia tivemos receio de que poderia acontecer algo parecido com o caso dos arqueólogos ingleses que violaram o túmulo de Tutancâmon, no Egito. Eles foram sendo misteriosamente mortos por doenças contagiosas, talvez causadas pelo fato de terem alterado magneticamente suas defesas naturais. Pensamos, para nos tranquilizar: deve ser somente um protesto.
Ainda continuamos convictos que, mais cedo ou mais tarde, toda essa dívida dos colonizadores deverá ser resgatada. Uma enorme legião de espíritos silvícolas que no passado foram violentamente expulsos de suas terras, em todo o Brasil, em diversas épocas, agora faz parte de um grande movimento social de reocupação de seus antigos territórios assaltados pelos antigos posseiros e “bugreiros”.  Os descendentes dos posseiros, hoje também organizados em entidades ruralistas, se reencontram com antigos inimigos para ajustar velhas contas que não foram pagas. No estado de São Paulo essa trama cármica está concentrada principalmente no Pontal do Paranapanema, antigo cenário dos violentos massacres (Dadas) dos posseiros ali introduzidos pelos conquistadores mineiros no século XIX, como foi o caso de José Theodoro de Souza. Antigos contendores como fazendeiros, missionários, bugreiros, funcionários públicos e líderes indígenas hoje estão reencarnados em diferentes papéis e posições como fazendeiros, juízes, promotores, políticos, líderes dos MST, cada qual cobrando o que lhe é devido ou resgatando seus antigos débitos. Recentemente, por meio de notícias mediúnicas dadas por uma guia espiritual, atuante nessa região, fomos informados de que a construção de presídios no Pontal, os conflitos fundiários e jurídicos, a formação de quadrilhas de criminosos para explorar a prostituição, as drogas, extorsão, roubos ao patrimônio público e privado, fazem parte de um grande processo de reajuste cármico de Espíritos, índios, caboclos e aristocratas rurais que ali cometeram graves crimes em outras épocas. O mesmo tem ocorrido no Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul e região Norte e deverá ocorrer com mais ênfase onde se efetivaram os genocídios históricos. Alguns desses compromissos cármicos são mais antigos, com no caso da grande região de Guarapuava (PR). Na época imperial, em 1811, o governador da capitania de São Paulo, António José da Franca e Horta (responsável pela comarca de Paranaguá – o Paraná não havia sido criado) implantou uma política sócio-educativa judicial que incentivava e até impunha o casamento misto entre os condenados e índias, já que havia uma enorme desproporção entre homens e mulheres naquela vasta região. A ideia da medida era povoar o mais rápido possível esse território disseminando as famílias sertanejas. Assim, a cidade recebia degredados brancos (a maioria homens mestiços) e estes, sem opção de parceiras sexuais, contraíam vínculos afetivos e matrimônio com adolescentes indígenas, passando a formar famílias miscigenadas. Muitos desses degradados entravam em confrontos violentos com índios que não aceitavam essa imposição e se tornaram membros de grupos de bugreiros. Chamou particularmente a nossa atenção nessa trama geopolítica o caso de oito desses degredados, relatado pelo historiador Fábio Pontarolo (Homens de Ínfima Plebe). Eram militares que se rebelaram em Santos (SP), em 1821, por causa dos baixos soldos e que haviam promovido uma quebra-quebra na cidade. Condenados, foram obrigados a residir nessa então isolada e distante colônia paulista. Eram em sua maioria analfabetos e tinham em torno de 19 anos de idade. Curioso lembrar que nessa região (Cantanduvas) foi construído recentemente um importante presídio federal, destinado a abrigar criminosos de alta periculosidade, considerados como verdadeiros inimigos públicos. Espiritualmente, pela lei de afinidade, os presídios funcionam como escolas de reajuste tanto para condenados como para os que ali trabalham direta ou indiretamente em função deles.
 É fato que muitos espíritos criminosos (indígenas e brancos) já voltaram e ainda voltarão “reencarnados” nas boas famílias da região, em posições socialmente invertidas, para acertar essas contas com as pessoas e com a sociedade que lhe causaram prejuízos materiais e morais. Esse fenômeno também vem acontecendo nas três Américas, quando muitos indígenas maltratados e corrompidos pelos colonizadores voltam como filhos problemáticos das mesmas famílias que os prejudicaram no passado ou então como imigrantes. Muitos deles se tornam criminosos em ações contra o Estado ou contra as instituições que os humilharam. Geralmente são autores de tragédias terroristas e ações violentas em estabelecimentos públicos. Na América espanhola foi registrado os conhecidos casos dos caudilhos, ditaduras militares, revolucionários marxistas e mais recentemente os célebres guerrilheiros que se tornaram narcotraficantes, com foi o exemplo do grupo indígena Sendero Luminoso, de antiga tradição indígena. Ernesto “Chê” Guevara foi um típico “branco” de alma indígena destinado a lutar até morte pelos seus ideais socialistas, porém intimamente vibrava nele um sentimento de vingança contra as injustiças cometidas nos tempos coloniais.  Os mais célebres criminosos dos EUA eram antigos líderes africanos e indígenas reencarnados entre os imigrantes irlandeses e sicilianos radicados na América do Norte.
 A presença de descendentes diretos dos colonizadores portugueses na ocupação dessa região também não foi uma coincidência. A nossa ligação com São Vicente também não é produto do acaso. Era de lá que partiam as primeiras expedições bandeirantes em busca da riqueza do interior. Como a maioria dos habitantes de Epitácio, sou descendente de migrantes nordestinos (negros e mestiços) e imigrantes europeus. Meus pais casaram-se em 1954. Em 1955 nasceu meu primeiro irmão, Carlos Maurício; em 1957 nasceu o segundo, Hélvio; em 1958 nasceu o terceiro, Guilherme; em 1959 nasceu o quarto, Nilton. E finalmente, pelas mãos da velha parteira espanhola de Santo Anastácio, Dona Dolores, foi a minha vez: em 23 de agosto de 1961, às 5:30 da manhã, há apenas alguns horas antes da famosa renúncia de Jânio Quadros.
Minha mãe teve cinco meninos, em casa, sem frescura e sem cesariana. Nossas parteiras foram Dona dos Anjos, migrante do sertão de Minas; e Dona Dolores, espanhola de Santo Anastácio. Em 1973 nossa família adotou um menino, Natalino, vindo de uma numerosa família de ribeirinhos do antigo Porto XV, do lado sul-mato-grossense do rio Paraná. Coisas do “destino”. Todos esses nascimentos foram supervisionados pela “Madinha Manoela”, bem como os primeiros e melhores anos de nossas existências. O Dr. Alberto José Assad era o médico da família, aliás, de todas as famílias. Era pioneiro na cidade e um excelente clínico geral, de boa memória. Perguntava pra gente quem eram os pais, deduzia quem eram os avós e dava o diagnóstico.
Maurício Xavier Duque e Carlos José dos Santos, meus avôs, eram negros. Maria Pesqueira Duque era descendente de portugueses e índios; e Verônica Szucs imigrante húngara da Colônia Arpad. Próximo a Caiuá, a 16 quilômetros de Epitácio, existiam várias colônias européias. Na colônia Arpad as Igrejas também eram diferentes, uma ortodoxa e a outra romana. Meu bisavô paterno, Marcus Szucs, era comerciante, dono de armazém e de um alambique. Gostava de uma boa cachaça e também era músico. Nessa Colônia húngara aconteciam bailes nas noites de sábado, frequentados pelos meus dois avôs frequentavam. Meu avô Maurício, baiano de Malhada, tinha fama briguento e sempre arrumava muita confusão nesses bailes. O “carioca” Carlos dos Santos (tinha sotaque porque havia vivido no Rio por alguns anos) era um gentleman, sempre vestia ternos de linho branco impecáveis. Era culto, político e sempre atento aos acontecimentos que geravam oportunidades. Foi juiz de paz, vereador, proprietário de um cinema em Tibiriçá e articulista de jornal. Foi ele quem iniciou nossa família no Espiritismo. Na casa dele, onde se faziam reuniões mediúnicas, tinha uma estante com livros de Allan Kardec e muitas outras publicações espíritas, distribuídas na região pelo ativista João Pitta e também por João Machado, de Santo Anastácio.
Presidente Epitácio nasceu politicamente somente na década de 1940. Antes era apenas um distrito de Presidente Venceslau, como quase todas as demais cidades da região um dia foram distritos de Presidente Prudente. Venceslau tinha domínio político sobre Epitácio e a tal rivalidade nasceu da luta pela autonomia contra essa insistência de controle. Foi um doloroso processo de separação no qual Venceslau aparentava impedir que as coisas seguissem seu curso natural e isso deixou alguns traumas e mágoas. A elite social de Venceslau sempre foi muito bem educada, tradicionalista, orgulhosa e conservadora. As duas cidades possuem uma rivalidade histórica, uma relação mal resolvida de amor e ódio, inveja e admiração, repulsa e atração. Os rapazes de Venceslau chamavam as garotas de Epitácio de “biscates” e a cidade de “Porto Putácio”, mas depois alguns deles ou delas, por ironia do destino, se casavam com epitacianas ou vinham morar na cidade. E vice-versa. Esse preconceito realmente não existia entre os adolescentes e até estimulava a nossa curiosidade e contatos. No início da década de 1970, um dos nossos hábitos preferidos era pegar um ônibus e passar as tardes em Venceslau na companhia de garotas que conhecíamos talvez dos jogos esportivos escolares. O Bill e o César Loemiro eram os principais ideólogos dessas viagens, para as quais inventávamos alguma desculpa para o agente da Andorinha como estudar inglês ou fazer uma consulta médica. Ninguém da nossa turma tinha mais de 15 anos. Eu tinha 11 ou 12. A rivalidade também rompia a barreira do município e do Estado. É uma rivalidade idêntica entre Santos e São Vicente e muitas outras cidades, porém sempre muito exaltada pelos “despossuídos”, como mecanismo de compensação, pelo fato de não serem aceitos socialmente pela elite. Quando o Porto Tibiriçá estava no seu apogeu, os novos epitacianos alimentavam esse sentimento de desprezo pelos funcionários da Bacia. Isso apenas, por outro lado, alimentava o sentimento de orgulho dos tibiriçaenses. Entretanto, o recente redescobrimento da história do Porto Tibiriçá e de Presidente Epitácio pela produção memorialista despertou um sentimento de orgulho comum e compartilhador das mesmas origens entre epitacianos e tibiriçaenses, permanecendo apenas as diferenças positivas, de aspecto cultural. Até nisso tivemos sorte.
Epitácio era uma cidade de divisa e ao mesmo tempo portuária, ponto de parada quase obrigatória para embarcações, caminhões e comitivas de gado. Nas décadas de 1940 e 1950 tornou-se alvo de aventureiros de todos os tipos e também de malandros, prostitutas, vigaristas, contrabandistas e profissionais de jogo. Tinha uma zona de meretrício que não era a única, porém famosa em toda região, ponto de encontro e de uma perigosa rivalidade de marinheiros e boiadeiros. Muitas mulheres eram “tiradas” da zona e mantidas como amantes de fazendeiros, administradores de fazenda e outros poderosos das cidades vizinhas. Muitas não eram da zona, mas eram as “outras”, com herdeiros e tudo mais, que precisavam ser mantidas em outra cidade, mas não muito longe dos homens que bancavam as despesas. Epitácio, vulgarmente chamada de “Porto”, era a cidade ideal: era motivo de constantes viagens de negócios e farras, ficando com a fama de cidade libertina.  O lugar sempre foi muito cobiçado e invejado pelas cidades da região, pelo de clima quente, alegre, festivo; pela paisagem bonita, da fartura de peixes, de aventureiros, de mulheres bonitas, muitas delas frutos de uniões socialmente proibidas; no imaginário masculino, mulheres sensuais e sempre disponíveis. A fama também dava a Epitácio outro estereótipo: cidade de pretos, de carnaval, de futebol, enfim, lugar de hábitos populares mal vistos e até mesmo impraticáveis na maioria das comunidades burguesas e moralistas do interior.
Marinheiros ou marujos, não sei se essas palavras são corretas, pois lembram o mar. Deveria ser algo do tipo “fluviários”, para combinar com navegação fluvial. Boiadeiro é uma palavra correta e histórica, até porque hoje é coisa do passado. Não existe mais a atividade de conduzir boiadas, através de comitivas. Ao contrário do marinheiro, que sobrevive até hoje, sobretudo com a promessa da hidrovia, a figura clássica do boiadeiro foi desaparecendo quando as rodovias foram substituindo as estradas boiadeiras. O que existe hoje é o vaqueiro ou o peão de fazenda, também chamado de peão de boiadeiro, ou ainda o americanizado “cowboy” de rodeio. Até hoje existe em Epitácio as duas estradas boiadeiras, que margeiam o perímetro urbano: ao sul, em direção ao asfalto (rodovia Raposo Tavares) e ao norte, de frente para o rio, paralela à antiga Rodovia Marginal. Hoje as boiadeiras são ruas e futuramente poucos lembrarão que elas eram utilizadas para o embarque e desembarque do gado comercializado entre São Paulo e Mato Grosso.
A rivalidade entre navegadores e condutores de boiadas nasceu da disputa de competência profissional na atividade de embarque e desembarque nas balsas que faziam a travessia no rio Paraná. Esse confronto era naturalmente administrado pelos chefes das comitivas e das embarcações, mas quando esses contendores se encontravam na zona do meretrício a coisa pegava fogo, pois as brigas eram aquecidas pelas bebedeiras e disputas pelas mulheres. Os boiadeiros eram valentes, explosivos e barulhentos. Já os marinheiros se impunham pela astúcia e pela força física. Meu avô Maurício foi, na juventude, um típico marinheiro do Paranazão, mistura de bom malandro e operário. Resta saber de qual tipo as mulheres gostavam mais. Conheci figuras históricas das comitivas de boiadeiros: seu Zico Bueno, Zé D’Orácio, Disná. Os boiadeiros andavam a pé ou montados pelas ruas em trajes típicos, com botas e esporas, fazendo um barulhão com todos aqueles apetrechos. Seu Zé D’Orácio (pai da Vera, Luiz “Boiadeiro” e Lilaléia) era muito amigo do meu pai; tinha a voz rouca, adorava cerveja gelada e dar gargalhadas. Essa gente rústica, a maioria de bom coração, foi sumindo com o tempo, mas deixou uma tradição viva nas cidades por onde passaram.
Outra coisa que lembro muito bem eram os estouros de boiadas. Aconteciam na hora do embarque ou do desembarque, quando o gado se afunilava em alguma passagem de piquete. Os meninos ficavam fascinados com as notícias desses estouros, pois eram considerados perigosos para as crianças. Sempre que possível, pois eu morava em Tibiriçá - bem perto do atracadouro das balsas, íamos para a barranca do rio observar a travessia do gado. Era um espetáculo natural ver toda aquela poeira levantada pela movimentação dos cavalos e do gado, sobretudo quando os boiadeiros rodavam e estalavam no ar aqueles chicotes longos para corrigir o fluxo da boiada. O acidente do estouro era sempre um momento de muita tensão e expectativa, de muita gritaria e xingamentos.
 A travessia Porto XV-Porto Tibiriçá entrou em decadência quando foi construída a Ponte Professor Maurício Jopert da Silva (engenheiro e político, ex-ministro dos Transportes), ligando a rodovia Raposo Tavares e a BR 265 – Rodovia Manoel da Costa Lima, no extinto Porto XV de Novembro.
No início dos anos 60 a ponte foi marco e também uma promessa de desenvolvimento, pois muitos acreditavam que ela traria progresso para toda a região. De certa forma trouxe, mas um tipo de progresso diferente do que se imaginava. Próximo da ponte instalaram-se postos de serviço, clubes de campo, chácaras, empresas de exploração de areia e pedra, o distrito industrial e mais tarde a Centro de Lazer do Sesi. É interessante lembrar que o anteprojeto da ponte foi feito pelo engenheiro Gottard Kuzli, que na época residia em Presidente Prudente; a adaptação e finalização da ideia ficou por conta do engenheiro Bruno Contarini, autor entre muitos outros projetos famosos, da ponte Rio-Niterói. Um dos engenheiros que coordenava a construção da ponte tornou-se prefeito de Epitácio, o Dr. José Natal de Carvalho. E por falar em engenheiros, outro que trabalhava nas obras da ponte e DNER, Idalmo Mourão, inspirou o meu nome, no qual ocorreu uma pequena alteração da letra inicial, ficando então apenas Dalmo, nome do então craque do Santos Footbal Clube, jogador muito admirado por meu pai.
Recentemente um movimento político propôs e conseguiu, por decreto da presidente Dilma Roussef, alterar o nome da ponte para homenagear o jornalista e escritor Helio Serejo, considerado o verdadeiro mentor da propaganda e ativista da construção da ponte. Serejo, chamado na época de “Marechal da Ponte”, não teve o reconhecimento do seu esforço na época da inauguração por causa da sua simpatia política por pelo ex-presidente JK, então muito odiado pelos militares e tecnocratas cariocas que não participaram da construção de Brasília. O escritor, que nesse tempo residia em Presidente Venceslau e teve apoio de muitos amigos para que fosse homenageado, talvez nunca tenha esperado esse reconhecimento. Pouco antes da inauguração da ponte foi alertado pelo seu conterrâneo Felinto Muller (ex-chefe do DOPS no Estado Novo e depois senador por Mato Grosso) de que não se surpreendesse caso ocorresse algo desagradável em relação à sua pessoa. E de fato aconteceu: na cerimônia de inauguração da grande obra, o escritor sul-mato-grossense foi proibido de participar dos festejos oficiais. Outro fato que merece registro foi a inauguração informal da ponte, porém marcada por um gesto altamente simbólico e emblemático, finalizando um longo e marcante período histórico e anunciando a nova função e vocação econômica da travessia do rio Paraná. Ela foi feita pela passagem talvez da última boiada e de uma comitiva de boiadeiros, comanda pelo saudoso Zico Bueno.
 

 




 
 
 

4 comentários:

  1. Parabéns pelo dinâmico trabalho e agradecidos pelas referências.
    Celso e Junko Sato Prado

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    1. Celso, tenho 263 ocorrências do apelido PRADO em minha linhagem, logo pretendo publicar minha árvore que ainda está sendo selecionada e elaborada (tem cerca de 10.000 nomes!). Visite nossos blogues análogos a este, conforme endereços do outro comentário, abs. Alan.

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  3. Olá Dalmo, meu muitos parabéns pelo excelente trabalho visual, poético e histórico. Vou aproveitar as referências do restante da minha família guaianá, descendo de Bartira e Terebê, além de Antonia Rodrigues filha de PIquerobi (gostaria de saber o nome indígena dela)e da filha de Caá-ubi de Ibirapuera, Margarida Fernandes, idem. Visite nossos sites https://pauliceias.blogspot.com.br e https://racadegigantes.blogspot.com.br - jornalismo anticonspiratório, http://alancamargo.com.br - Um grande abraço!

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