domingo, 15 de setembro de 2013

VOLTANDO PARA SÃO VICENTE

 
 

 

Em 28 de março de 2014 completaram 40 anos que saímos de Epitácio para morar na Baixada Santista. Achamos que iríamos morar em Santos, mas na verdade fomos para São Vicente, cidade vizinha e mais modesta. É tão vizinha que o turista comum não percebe quando passa pelas duas divisas entre elas, na praia do José Menino e no Monumento dos Tambores, na zona Noroeste.


Fomos morar num sobradinho na rua Uberaba e depois mudamos para uma casa maior, na Rua Rio de Janeiro, onde ficaríamos nos próximos dez anos, entre 1974 e 1984. Seria uma década revolucionária em nossa família, marcada por experiências incríveis e cheias de transformações. Nossa mãe teve essa intuição bem antes e não perdeu a chance quando surgiu a oportunidade. A vida em Epitácio havia atingido o limite para uma família grande e de poucos recursos: cinco filhos jovens com muitos sonhos, mas sem muitas perspectivas. A ideia inicial era irmos para São Paulo, como acontece com a maioria das famílias que passam pela mesma crise, porém meus pais optaram por uma cidade que não fosse tão grande como a Capital e não tão pequena como Epitácio. Santos, São Vicente, Guarujá, Cubatão e Praia Grande formam uma grande região composta por cidades medianas. Era a escolha certa e o lugar perfeito.


Saímos na madrugada e chegamos ao litoral perto do meio dia. Parte da nossa mudança foi levada numa camionete do amigo Jorge Okada. No dia anterior, no feriado municipal de 27 de março de 1974, ficamos no Jardim da Praça da Matriz até quase meia noite nos despedindo dos amigos. Estávamos todos eufóricos e apreensivos. Esse sentimento permaneceu durante toda aquela semana de novidades.

Bem diferente do que é hoje, São Vicente era pequena e funcionava como cidade dormitório.  Trabalhar, estudar, fazer compras, tudo era feito em Santos – no Gonzaga ou no centro velho, próximo à zona portuária. Nessa época, na esquina da Avenida Ana Costa com a praia, ainda existia o Parque Balneário, antigo e suntuoso hotel, já desativado, comprado pelo Santos Futebol Clube e depois demolido para dar lugar a um shopping Center.

Andar de ônibus de linha era para nós um excelente programa porque todos circulavam a grande Ilha de São Vicente, que abrange os municípios Santos e São Vicente. Cubatão, Bertioga, Praia Grande e cidades do litoral Sul (Mongaguá, Itanhaém e Peruíbe), ficam no continente. O circular 7 seguia de São Vicente pelas praias em direção ao Ferry-Boate, na Ponta da Praia (Santos) e o circular 8 fazia o sentido inverso, pelo centro e área do porto, pelo caminho do antigo Matadouro (hoje espaço cultural do SESI). Alguns deles percorriam os canais principais de Santos (1 e 2) em direção à Vila Belmiro e ao túnel, entre a Santa Casa e a Cadeia Velha. Tudo era muito fascinante. Sempre escolhíamos o percurso mais longo, para aproveitar a paisagem.

O cheiro de mar e da vegetação litorânea era marcante e completamente diferente de tudo que o nosso olfato conhecia. Além dos pontos turísticos, nossa diversão preferida era ver a entrada das embarcações na barra da Ponta da Praia. Navios enormes, de todas as nacionalidades. Também gostávamos muito das visitas aos vasos de guerra e submarinos, nacionais e estrangeiros, atracados no porto. Num deles fomos visitar o jovem marujo epitaciano Salvador Miyazaki, na época servindo no submarino Rio Grande do Sul.

A entrada que dá acesso ao porto de Santos é uma das mais belas e curiosas paisagens do litoral paulista. É um enorme canal entre as ilhas de São Vicente e Santo Amaro, separando Santos e o Itapema-Pouca Farinha, antigos bairros de operários da indústria naval e pescadores do Guarujá. Os habitantes e trabalhadores que moram nessas cidades talvez não tenham um olhar imaginário sobre essa parte da vida urbana, já que, para a maioria deles, trata-se apenas de uma rotina do dia a dia da cidade. 

Entre a ponta da praia santista - que fica na ilha vicentina - e a barra do forte, localizada em Santo Amaro, passam todos os dias centenas de embarcações que atravessam o canal ou que entram e saem do grande porto. Em qualquer hora do dia ou da noite, este é sempre um lugar fascinante e que desperta no observador inúmeras impressões, quase sempre cheias de imaginação seguidas de sensações e lembranças.  Ao ficar por uma ou duas horas no calçadão da barra santista é possível ver e admirar essa deslumbrante rotina do cotidiano portuário. Primeiramente o cheiro de mar, que ali é sempre mais forte por causa da concentração de detritos de frutos mar, somada à poluição química dos líquidos combustíveis que alimentam os motores dos barcos. E depois a movimentação de aves da fauna marítima em busca de alimentos. Elas sempre dão um tom musical da natureza resistente e que recusa desaparecer diante dos avanços humanos sobre esse braço de mar. Muito mais interessante é poder ver o que acontece no entorno do canal vendo pelo outro lado da barra, o que não muito comum para os frequentadores do lado santista. Enquanto isso, em apenas alguns minutos, é possível ver e gravar para sempre na memória as imagens de uma pequena catraia transportando rapidamente passageiros de um lado para outro; a balsa que leva e traz os carros; os rebocadores de apoio de embarque, dezenas de barcos de pesca e as raras lanchas que levam os pilotos práticos até os grandes navios que aguardam na baía a ordem de entrada e atracação no cais.  As pessoas que ali ficam por alguns momentos parecem estar entorpecidas pela memória e pela introspecção, talvez imaginando de onde vieram e para onde vão todos aqueles navios abarrotados de cargas, que antigamente eram cobertas de lona e hoje embaladas em grandes caixas metálicas. 
 
Tudo isso ia se acumulando no baú das nossas emoções e não víamos a hora de retornar para Epitácio e contarmos tudo em detalhes para os colegas. Isso aconteceu pela primeira vez no mês de julho de 1974 – que na época estava bem frio. Uns parentes baianos da minha avó tinham sofrido a perda do filho mais velho (que morava no Morro do São Bento, com dois irmãos) e fizeram essa viagem de volta com a gente. Levei na bagagem um vidro com água do mar, para mostrar para o Gilmar Saraiva. Em pouco tempo já havíamos adotado um sotaque santista (o abusivo e incorreto uso do “Tu” antes das frases “Tu vai, Tu foi, etc.), logo motivo de muito sarro e protesto dos colegas.

Quando chegamos, fomos logo procurar a turma no campinho de futebol, num terreno na Rua Cuiabá, em frente a velha Serraria Lopes. A manhã estava deliciosa, fria e ensolarada; e a maioria da garotada usava aquelas japonas de nylon “dupla face”.

A irmã da minha avó Maria, mãe do rapaz morto em Santos, veio para morar em Epitácio. Elas não se viam há mais de 40 anos. Foram morar na chácara do meu avô, na Estrada Boiadeira Norte, próximo da rodovia marginal.

Terminadas as férias, voltamos para o litoral, agora com outros olhares e outros projetos. Novas experiências, novos vizinhos, novos amigos. Momentos difíceis e coisas maravilhosas, inesquecíveis. De todas elas, a que marcou mais foi a ajuda espiritual – numa reunião de Evangelho - que recebemos de uma entidade feminina desencarnada em Epitácio. Antiga amiga da família, ela nos deus conselhos e consolos preciosos nas horas incertas.

 Estávamos nos preparando para uma segunda etapa de mudanças.

Na década seguinte – entre 1984 e 1990, fomos para São Paulo para complementar essa primeira fase de transformações.


MINHAS HORAS DIVERTIDAS

Tinha acabado ler “Memória de minhas putas tristes”, de Gabriel Garcia Marquez. Sabia que já estava fora de moda, mas ainda era um pequeno e tremendo livro. Havia lido em apenas duas noites, logo após o jantar. O texto realmente é coisa de gênio e também sabia que os narradores medíocres jamais conseguirão chegar próximo. É uma história perturbadora e impressionante. A trajetória do velho jornalista de 90 anos mexeu com as minhas lembranças e, aos 48 anos, também resolvi falar.

Tenho cinco irmãos e somos filhos de uma família de classe média baixa. Meus pais eram funcionários públicos federais, com salários modestos e muitas dificuldades para cobrir nossas despesas, como a maioria das famílias brasileiras.

A nossa mãe sempre se preocupou em nos educar para o trabalho. Dizia que, desde cedo, temos que acostumar o corpo para essa tarefa que iria nos acompanhar pelo resto de nossas vidas. Cinco meninos, quase rapazes, era uma situação muito preocupante e o principal obstáculo era a ociosidade. Quando morávamos no interior ela sonhava em nos levar para São Paulo. Na juventude ela tinha visitado parentes que viviam Capital e guardava boas lembranças das viagens e daquela grande cidade, sempre recordando com admiração o ritmo de vida que a s pessoas levavam numa metrópole. “Lá todo mundo trabalha, todo mundo levanta cedo!”, dizia ela, nos ensinando a afugentar a preguiça e o desânimo. Quando viemos para o litoral a luta dela continuou, pois os riscos de desvio aumentaram. Já éramos todos adolescentes e as tentações e necessidades começaram bater na porta. Não fomos morar em São Paulo, como queria minha mãe, porque meu pai não gostava da ideia e achava perigoso. Então, por um acordo entre eles, viemos para São Vicente. Ela insistia em nos ver fazendo alguma coisa de útil e continuava repetindo suas máximas sobre as virtudes do trabalho. De tanto ouvir aquilo ficava sempre olho em alguma oportunidade para produzir. Nessa época o Nenê e o Mia trabalhavam numa empresa de listas telefônica (LTB), cuja sede era na Rua da Paz, em Santos. Depois foram trabalhar com pesquisadores do IBGE e também na Cosipa. Nessa época estavam sendo iniciadas as obras da rodovia dos Imigrantes, realizadas por grandes empreiteiras e inúmeras prestadoras de serviços conhecidas como “gatos”. Meu pai trabalhou numa dessas firmas que transportava agrimensores que faziam os primeiros levantamentos topográficos na Serra do Mar onde seriam construídos os enormes elevados de concreto e túneis dessa segunda rodovia de acesso ao litoral. Depois de passar esse serviço para o Mia, meu pai foi convidado pelo Seu Lauro Romão, antigo funcionário da Bacia que morava em Santos, para trabalhar numa empresa de hotelaria marítima na região de Campos, no Rio de Janeiro. Essa empresa prestava serviços em navios de contrato de risco e nas plataformas da Petrobrás, localizadas na Bacia de Campos a dezenas de quilômetros da costa atlântica. A base dessa empresa era na cidade de Macaé e o transporte dos funcionários, equipamentos e suprimentos era feitos por rebocadores e helicópteros cargueiros. As jornadas eram quinzenais e a viagem por mar durava cerca de oito horas, enquanto as aeronaves demoravam pouco mesmo de duas horas.

Meu primeiro emprego, aos 12 anos, foi numa quitanda, na rua Amador Bueno da Ribeira, no Gonzaguinha. Fui demitido. Não tinha nada para fazer e ficava comendo as bananas que não vendiam. Dali, por indicação do Gui, fui trabalhar como entregador de remédios numa farmácia na Vila Valença chamada Tutancâmon. O dono, seu Osvaldo, era um prático muito bom e valorizava muito a minha educação. Ensinava como as coisas deveriam ser feitas, como tratar as pessoas e prezava muito a obediência. Também era muito alegre e tirador de sarro. Ficava indignado com as “madames” que vinham comprar fiado. Dizia ele: “Minha senhora, se fosse remédio... Mas, cosmético? Não!!!” Nesse ramo sempre tinha uma atividade curiosa: quando um cliente trazia alguma receita médica cuja letra do médico era incompreensível, era necessário percorrer as outras farmácias para decifrar a mensagem e também receber o desconto para revender o remédio. Nessas andanças a gente conhecia a cidade e muitas pessoas interessantes. Tinha um balconista da Drogaria Calunga, na rua Frei Gaspar, que conseguia decifrar as receitas pelo nome do médico.

Empregos não são eternos e já não eram naquela época. Por falta de experiência e muitas vagas disponíveis a gente mudava de emprego com muita facilidade. Cheguei a trabalhar também na informalidade: entregava folhetos de um curso de inglês em Santos, na porta dos clubes. Também fiz parte de uma equipe de jovens pintores de parede. Uma vez fomos pintar a casa de um delegado de polícia que tinha problemas com um filho ocioso. Ele descobriu que meu irmão era músico e dizia para o filho: “Tá vendo, o rapaz é pianista e tá aqui dando duro... E você aí ao nessa moleza...”.

E assim fui trabalhando num empreguinho aqui, noutro ali. Em 1982 consegui entrar num emprego mais sério. Era um cargo de auxiliar de escritório numa concessionária da Volkswagen. Quem conseguiu esse emprego foi o João Batista (Toni Tornado), primo do Beto eletricista, amigos e vizinhos quando morávamos em Epitácio e que era encarregado do departamento de pessoal. Eu fazia o mapa de serviços da oficina e outros pequenos serviços burocráticos. A firma era infestada de funcionários administrativos, coisa que hoje seria impossível. Naquela época não havia computadores e tudo era feito manualmente. Um fiscal da fábrica de São Bernardo vinha inspecionar mensalmente a revenda e checava todos os mapas de serviços. Era uma folha enorme contendo todos os dados de rotina da oficina. Cada serviço era padronizado por um código e um tempo de execução, marcado num relógio de ponto. Era um sistema alemão interessante, em série, que parecia um pronto-socorro: o carro entrava na loja, era atendido por um mecânico recepcionista que usava um jaleco branco até os joelhos. Com uma prancheta ele fazia a consulta e dava o diagnóstico. Se o cliente concordasse, ele preenchia uma ordem de serviço (OS) e chamava o chefe da oficina para providenciar a internação do veículo. Este escolhia um mecânico disponível ou mais adequado ao serviço, entregava a OS, que era levada até o guichê do nosso escritório para ser codificada. O mecânico tinha um tempo certo para fazer o serviço, incluindo também a solicitação de peças, na sessão ao lado. O sistema era curioso, porém era rígido e recusava quebra de paradigma. A ideia era trocar peças e aumentar a fatura. Conserto era outra coisa e não dava o lucro esperado. Tinha um mecânico japonês, bem baixinho, chamado Kimura que de vez em quando tentava quebrar o esquema e ajudar o cliente. A cena lembrava Charles Chaplin, no filme Tempos Modernos. Ele tirava tudo do lugar e causava uma enorme confusão na ordem das coisas. O Kimura, que o Gabriel, chefe da sessão de peças, chamava de “Menininho”, não durou muito tempo. Para o alívio dos recepcionistas e do chefe da oficina, ele foi transferido para o DU, departamento de usados, que funcionava em outro endereço. Lá ele se deu bem porque tinha tempo de ficar mexendo no motor e fazendo outros reparos. A maior sensação do dia era a chegada do dono da empresa, sempre bem tarde e saindo sempre muito cedo após passar no caixa para pegar alguns trocados. Essa cena diária também era imitada pelo Gabriel, que pegava uma blusa branca do Nego Nelson colocava nos ombros e caminhava pelos corredores cantando uma paródia de uma música do João Nogueira: “Olha lá quem chegou, Fausto o Milionário. Diz que é o bom, que é o tal...” Quando não tinha dinheiro no caixa ele ficava transtornado e seu Jimy, um senhor muito falante e que trabalhava no caixa, ficava desesperado: “Faustinho, querido, entraram dois carros na oficina e logo deve entrar alguma coisa na seção de peças”. E o patrão retrucava: “Preciso desse dinheiro até às onze horas. Ontem você já me deixou na mão.” Meses mais tarde essa função de arrumar dinheiro diariamente para o seu Fausto e para o filho dele passou para mim e eu nunca sabia como ajustar o caixa depois, problema que era logo solucionada pela contabilidade.

Um dia, de manhã, fomos assaltados. Era uma quadrilha profissional, com espingardas de cano curto enfiadas naqueles antigos sacos de supermercado. Eles gritavam com sotaque castelhano: “Pagamento, Pagamento!!!”. Achavam que o dinheiro estava com a gente porque o nosso escritório tinha caixa e guichê de vidro. O Gilson, meu chefe, tinha saído para comprar pão, coisa que nunca tinha feito. Nilcéia, a menina do seguro, ficou pálida e quase desmaiou. Eu, muito nervoso, tinha vontade de rir e pra disfarçar ficava mostrando as mãos vazias para os bandidos. Seu Jimy, querendo agradar os meliantes tomou uma cutucada de espingarda na barriga e quase teve um infarto: “Pagamento, pagamento!!”, insistiam os assaltantes. Depois de muita luta, perceberam que a coisa não estava rendendo nada e foram embora sem dar um tiro. Quando entraram no carro para a fuga, o pessoal da oficina começou a atirar pedra neles, mas não adiantou nada. Meu chefe chegou com o saco de pães e quis saber de tudo. O rapaz que trabalhava no relógio, muito irônico, disse: “Não aconteceu nada... Como diz o Dalmo, todo mundo ficou nervoso, mas isso é isso psicológico...”. O gerente da revenda, o seu Adonias, que era um alagoano bem simpático ficou muito impressionado com a minha atitude e falava pra todo mundo ouvir: “Só tem um cara mais calmo do que eu nessa firma, só um. E então os colegas passaram a me chamar de “Dalmo, o calmo”. Este foi um dos melhores empregos que tive. Durou apenas um ano, ganhava pouco e a gente se divertia muito. Depois desse assalto, o Gabriel, que era chefe da sessão de peças, outro bonachão e palhaço que imitava todo mundo, entrava de surpresa em nosso escritório, com um saco de papel na cabeça, gritando: “La grana, la grana, la grana de La Desorganizacion!!!”. 

Nesse mesmo ano apareceu lá um gerente financeiro formado na FGV que tentou reestruturar toda a empresa. Era um financista paranoico e metido. Tinha atitudes arrogantes e uma frase de efeito seguida de um gesto típico que logo caiu na boca dos humoristas: “Me traga o nome do funcionário relapso e este vai ser punido!!!”, batendo as costas de uma das mãos na palma da outra. Quando, então, aparecia alguém acidentado, com curativos e faixas, os serristas diziam: “Esse aí foi punido".

Como já disse, nunca fui um aluno de excelências disciplinares na escola fundamental e no colégio, mas sempre via o ambiente como um lugar especial, de muitas expectativas e de esperanças. Ao invés de prestar atenção nas aulas, como faziam alguns colegas concentrados nos seus afazeres, eu simplesmente observava atentamente os professores, que no meu olhar era grandes figuras humanas com suas características marcantes: seus discursos, gestos, gostos, cacoetes, as expressões mais constantes, seus pontos fracos, as vaidades, os talentos especiais, os receios. Gostava muito quando eles contavam suas histórias pessoais, impressões sobre as coisas e opiniões sobre o que acontecia. Ficava imaginando como viviam no dia a dia e na intimidade, atento aos seus modos de se vestir, de se pentearem, de andar na sala, enfim, de como eram seres humanos. Nunca vi os professores como pessoas extraordinárias, dotadas de poderes especiais de inteligência. Achava que eram pessoas comuns, nada excepcionais. Isso era ruim porque influía na minha displicência. Fui fazer a faculdade de História certamente influenciado por uma professora linda e muito sexy, Dona Agnes, do Augusto Saint-Hilaire, em São Vicente. Tinha entre 30 e 35 anos, era casada e uma filha de cinco ou seis anos. Ela sabia que eu todos os meninos, principalmente o Ricardo Palhinha e o João Vicente, eram apaixonados por ela e nos dava boas notas pelas nossas observações e comentários sobre as suas explicações. Naquela época ela já usava os seminários como apropriação de conhecimentos. Durante as apresentações, sentava-se no fundo da classe tomando o cuidado de ficar sempre uma fileira à frente dos meninos, para nos torturar com as suas curvas maravilhosas e movimentos enlouquecedores para se acomodar na carteira. Dona Agnes tinha o hábito de profetizar o futuro e a carreira que melhor combinava com a personalidade dos alunos. De mim ele dizia que seria jornalista ou publicitário. Tentei, mas optei, como ela, ser professor de História.

O período em que estudei no Saint-Hilaire foi muito interessante, pois ali aconteceu uma espécie de renascimento das minhas inclinações de existências passadas, boas e más, bem como o despertamento espiritual. Era uma escola longe de casa e tinha que caminhar do Jardim Independência até o Catiapoã, percurso que fazia à pé e sempre com a maior satisfação. Fui para lá porque havia me envolvido numa confusão com uma inspetora da escola anterior (Zulmira Lambert, prédio antigo de madeira no Voturuá) e acabei sendo agredido por alunos “barra pesada” que não gostaram da minha atitude nem da simpatia que algumas garotas tinham por mim. Como se dizia naquele tempo, tomei um pau e tive que sair da escola. Naquela época isso ainda era um acontecimento raro, grave e vergonhoso no universo escolar. Esse fato ou dano moral contribuiu muito para a minha mudança íntima com relação aos estudos. Mudei tanto que minha mãe até hoje relata o acontecido com um ar de surpresa. Tínhamos um vizinho da rua Rio de Janeiro que era Delegado de Ensino - professor Ênio Vilas Boas - e este sugeriu que eu fosse transferido para essa escola.  O Saint-Hilaire era frequentado por alunos dos bairros pobres de São Vicente e ficava próximo da Sociedade Hípica (hoje um hipermercado) e do Golf Clube, áreas nobres rodeadas de favelas. Ganhava de presente muitas bolinhas de golfe dos colegas que moravam nas imediações. Lá também estudavam alunos de classe média que moravam no Itararé, no Gozaguinha e na Vila Valença, pois a escola tinha fama de ser um ambiente calmo e ter bons professores. Chegando lá, fui logo encaminhado para o Centro Cívico, assumindo algum tempo depois a presidência do grêmio. Nessa época fazíamos as aulas de educação física no quartel do Exército – II Batalhão de Caçadores -, bem distante, próximo à divisa com Santos. O prédio da escola estava em péssimas condições e tínhamos como vizinhança um enorme matagal, os trilhos do ramal santista da Sorocabana e a fábrica de vidros. Certa vez, voltando das aulas, encontramos o prefeito na rua Frei Gaspar e pedimos ajuda para reformar a escola. Era o futuro deputado Koyu Iha, que prometeu nos ajudar na medida do possível. Fez uma visita surpresa na escola e não encontrou a diretora, que nunca estava lá. Como a escola era do Estado, suponho, o prefeito solicitou a ajuda do comandante do Exército. Este enviou um grupo e soldados para limpar o matagal, no qual fizemos um campo de futebol; e também fez um pintura nas paredes externas, deixando a escola com uma aparência agradável e renovada. O Centro Cívico ficou em alta e isso mexeu com alguns professores mais idealistas, que passaram a nos apoiar em projetos culturais de teatro, fanfarra, música, coisas que não aconteciam há anos na escola. Foram três anos de ótima convivência. Dali nosso grupo foi fazer o colegial no Martim Afonso. Para contextualizar, foi o período da moda das discotecas, novela Dancin Days e do filme Embalos de Sábado à Noite, com John Travolta. Nossa diversão era praia, passeio noturnos em Santos, no Gonzaga, para assistir nos cinemas às sessões de pré-estreia, à meia noite; e as inesquecíveis quermesses da Igreja de Nossa Senhora das Graças - na Vila Valença – e no E.C. Clube Beira Mar. Este último não existe mais, como relatei recentemente numa crônica publicada no blog São Vicente na Memória:

O espírito demolidor do passado e construtor do futuro continua no seu ritmo impiedoso, deixando em meio a olhares tristes e saudosos, ao mesmo tempo conformados, o rastro de escombros e entulhos na cidade.

 Dessa vez foi a sede esportiva do E.C. Beira Mar, na rua Benjamin Constant, esquina com a XV de Novembro. Em apenas algumas horas uma poderosa máquina botou abaixo o galpão e instalações do clube que durante quatro décadas acolheu a população vicentina para os seus grandes eventos sociais. Dizem que ali vai ser construído um hotel de griffe.

 O "Beira", como era chamado nos anos 70 e 80 e até hoje é conhecido pelo mesmo apelido, era um dos pontos mais frequentados pelos jovens das classes populares nessas duas décadas. O destaque, nesse endereço, era a Festa Junina, tradição brasileira que na região sudeste é marcada pelo inverno e deliciosas noites frias e estreladas. Época de namoros quentes e acasalamentos.

 Nos anos 70, talvez por causa do temor imposto pelo Regime Militar, o momento mais aguardado da festa junina era a batida feita rotineiramente pela PE do Exército, em busca de soldados foragidos do quartel do então 2º BC ou do Forte Itaipu. Os recos, à paisana, com suas extravagantes calças de tergal Boca de Sino e sapatos Cavalo de Aço, eram facilmente reconhecidos entre a maioria black-power, pelo corte de cabelo típico e logo surpreendidos pelos soldados de capacete branco. A PE, aparecia repentinamente com um jipe sem capotas, seguido por um caminhão de carroceria coberta de lona. Geralmente era comanda por um sargento com cara de durão e que, com o tempo, tornou-se atração das noitadas do Beira, que não ia além da onze horas.

 Os jovens mais ousados, de estilo hippie, adoravam usar uniformes militares, combinados com jeans desbotado. Certa vez, meu irmão mais velho, o Mia, juntamente com seu colega Claudio (Mandrix), na época alunos do Grupão, conseguiram duas jaquetas verde-oliva. Deram umas voltas na cidade se exibindo, mas logo foram advertidos sobre o risco que corriam.

Para disfarçar, tiraram as tarjas de identificação do soldado e transformaram a cor das jaquetas em água fervente com Tintol vermelho. Aproveitaram a mesma água para tingir umas camisetas amarradas com barbante, que após o tingimento revelava a conhecida estampa psicodélica. Para disfarçar ainda mais, trocavam os botões originais por botões metálicos dourados; também pregavam fitas coloridas, do tipo peruana, e que de longe pareciam pequenas medalhas coloridas. As jaquetas ficaram cor de vinho e ainda assim faziam um grande sucesso naquelas noites inesquecíveis.

 Bons tempos!

(Noitadas juninas no Beira.  Sábado, 24 de março de 2012)


No final dos anos 70 a educação brasileira estava entrando numa fase de grandes mudanças, para pior. Por ser um sistema estatal controlado por órgãos governamentais, as escolas púbicas e particulares sofreram essa deterioração de estrutura e de valores. Os investimentos do Estado não acompanharam o crescimento da população e não houve outra alternativa senão massificar o ensino por meios quantitativos e o abandono dos processos qualitativos. Coincidência ou não foi nesse período que vida escolar entrou em parafuso, com uma sucessão de reprovações causadas pela minha distração crônica, pelas mudanças de cidade e de ambientes. Vivi esse momento histórico percebendo o declínio social ou proletarização dos professores, bem como a decadência das escolas públicas. A sala de aula era um muro de lamentações intermináveis sobre as questões salariais e as condições de trabalho nas escolas. Já ouvia essas conversas nas primeiras séries do antigo ginásio em Epitácio e depois foram se agravando quando fomos para São Vicente, nas cinco escolas públicas que frequentei: o Dino Bueno, em Santos, em 1974, vizinho de cerca do orfanato Anália Franco, na avenida Ana Costa; e as de São Vicente: a Sorocabana ou Vila Melo, em 1975, (atual Constante Houlmont, que era belga e meu professor de Francês); o Cidades Irmãs (atual Neves Prado), cujo prédio moderníssimo em concreto e tijolos à vista tinha sido inaugurado em 1976; o Augusto Saint-Hilaire, em 1977; e depois o Martim Afonso, em 1980, ano em que fui reprovado no 1º colegial, numa única disciplina: Matemática, por uma professora que não ia com a minha cara. O Martim Afonso foi durante muitos anos considerado um colégio público de elite, porém quando lá cheguei já estava em decadência, com a gradual substituição de professores antigos pela nova geração proletarizada, mesmo com os exames seletivos. Em 1981 fiquei sem estudar, perdido e também despreocupado com relação ao meu futuro. Já tinha 20 anos de idade. Em 1982, trabalhando na São Vicente Veículos, fui estudar no Colégio Ramos Lopes, em Santos, supletivo particular, concluindo o colegial no meio do ano seguinte.  Ali fui motivado a estudar e continuar vendo a escola como meio de transformação. Uma curiosidade: no 3º colegial eu era o único homem numa classe de quase 20 mulheres. Os professores me chamavam de “Bendito e o Fruto”. No segundo semestre de 1983 fui fazer cursinho e sonhava ingressar na USP ou UNICAMP. Ficou só no sonho. Não tinha essa disciplina estudantil competitiva.  Nessa época queria ser jornalista e locutor de rádio. Percorria as rádios e redações de jornais de Santos divulgando o CVV e também buscando informações sobre comunicação. O Fernando Silva, amigo de infância e técnico de eletrônica que trabalhava na Rádio Metropolitana em São Paulo, conseguiu que eu fizesse um estágio no horário noturno, mas era inviável. Adiei o projeto, porém ali surgiu o fascínio por São Paulo.

Nesse cenário passei a sonhar com algo mais além do que aqueles estabelecimentos velhos, mofos e habitados por educadores que apenas aguardavam suas aposentadorias. As faculdades eram, como sempre foram, a promessa do futuro e de mudança de vida. E não eram as faculdades públicas e gratuitas, mas aquela descrita pela canção do Martinho da Vila: “Particular, ela é particular”. Mesmo assim o sonho funcionava como um motor de conquistas. 

Muito antes de sair do colégio já me sentia atraído pela vida acadêmica das faculdades. Gostava de frequentar os eventos universitários em Santos, onde sempre tinha novidades para o meu mundo ainda pequeno e restrito. Nos anos 70 havia o Circuito Universitário, com shows dos grandes nomes da MPB em espetáculos de produção simples e intimista. Foi assim que vi ao vivo, com a plateia sentada ao chão, apresentações de João Bosco, Edu Lobo, Gilberto Gil, Hermeto Pascoal, Rita Lee. Esses shows aconteciam principalmente nas Faculdades Católicas de Direito e de Arquitetura, ambas na avenida Conselheiro Nébias.  Ainda vivíamos nessa época os impulsos da cultura hippie e o controle do regime militar. Nos intervalos das canções os artistas conversavam com o público e mandavam recados indiretos para dedos-duros, sempre presentes nessas ocasiões. Também frequentava as faculdades divulgando o trabalho do CVV, entre 1979 e 1983. Minha primeira apresentação em público aconteceu numa aula de sociologia, numa turma de Direito da Católica, onde falei sobre o suicídio. Alguns esperavam que abordasse as teorias clássicas como a de Durkheim, mas acabava explicando o funcionamento dos plantões de voluntários e contando as histórias de como surgiu a prevenção do suicídio na Inglaterra e no Brasil. A classe ficava completamente em silêncio diante da gravidade do assunto e do atrevimento de um adolescente falando sobre um tabu.  Ali observava também os alunos, adultos de diferentes idades, o ar de autoconfiança de alguns, o sorriso tolerante e respeitoso dos mais velhos, bem como o olhar de admiração dos mais tímidos e a irritação de alguns que logo percebiam minhas limitações. Uma experiência inesquecível foi quando matriculei-me num curso livre dado pelos alunos quase concluintes da Faculdade de Filosofia, na Pompéia santista. Eram supervisionados por alguns professores, que faziam intervenções durante os debates e questionamentos da classe. Nessas 22 aulas nas quais conhecemos os grandes pensadores ocidentais é que provavelmente tomei a decisão do que iria fazer da minha vida nos próximos 30 anos. Somente algum tempo depois, já na década de 1980, faria o vestibular para o curso de História na Católica de Santos, que funcionava no prédio da rua Euclides da Cunha, na Pompéia, entre o José Menino e o Gonzaga. Esse prédio foi demolido para dar lugar a um grande condomínio. Nossa turma tinha uns 70 calouros, que logo nos primeiros meses foi se reduzindo pela metade. Todos achavam que o curso era uma viagem lúdica pelos tempos antigos e pelos museus, imagem fantasiosa que se desfazia durante as explicações metodológicas. Curiosamente as aulas mais interessantes eram das disciplinas não específicas, dadas por professores de outras áreas e dotados de erudição autodidata. Nelas aconteciam os melhores debates e seminários nas quais os alunos demonstravam suas habilidades intelectuais e de comunicação. Num desses seminários fui alertado por um professor (Dr. Bento, advogado) sobre a minha vocação. Dizia ele que eu havia escolhido o curso errado e que deveria seguir a carreira de psicologia ou psiquiatria. O motivo da sua reação foi a apresentação que fiz sobre as personalidades psicopatas. Tinha visto uma palestra do psiquiatra Alankardec Gonzalez para os voluntários do CVV em São Paulo e achei que poderia reproduzir o mesmo conteúdo, adaptado para a classe. Foi um tremendo sucesso e ainda tem a mesma repercussão quando apresento o tema para os meus alunos universitários. Nossa turma era composta por alguns jovens, cujos nomes guardo na memória, pela proximidade de convivência: Marco Antonio, Roberto e Vanja (que se casaram após se formarem. A Vanja tornou-se diretora e supervisora de ensino), Lígia (casada com o professor Jabur, do Curso Objetivo), Francisco, Nero (sobrinho do prefeito Osvaldo Justo) e Euflauzina Chabunas, ambos já desencarnados; e adultos já formados e atuantes em outras áreas como o Pablo (advogado e depois promotor público), Juarez (ex-ator e funcionário na Distribuidora BR) e o Hugo, aposentado da Refinaria Presidente Bernardes, de Cubatão, onde exercia o cargo de relações públicas. Poliglota e muito viajado, o Hugo foi um dos que primeiros a revelar sua decepção com o curso de História. Ele só não desistiu por causa das amizades que fez entre nós e que muito preenchia sua solidão. O mesmo acontecia com o solteirão Juarez, que anos mais tarde voltaria para sua terra natal em Minas, que chamava carinhosamente de Cemitério de Elefantes. Era uma turma muito divertida, cheia de talentos e que certamente marcou época na faculdade e cujo convívio só desfrutei por dois anos. Fiz o curso às minhas próprias custas, pois não queria sobrecarregar meus pais, que custeavam meu vestuário, lazer e outras despesas do dia a dia. Para sobreviver nos primeiros meses da faculdade fazia bicos de pintura (de parede) e ajudava um colega do CVV que tinha um trenzinho turístico em Bertioga nos fins-de-semana. Cheguei a realizar cursos livres de oratória na própria Uni-Santos, incentivado pela professora Isa, então coordenadora do curso.

Naquele mesmo ano, em 1984, comecei a trabalhar em Cubatão, município industrial da Baixada Santista. Fui trabalhar numa empreiteira que atuava na área da Liquid Química, uma pequena, mas muito rica fábrica multinacional de derivados de petróleo: ácido benzoico conservante, plastificante, aldeído de perfumaria, etc. Esse “trampo” era interessante e bem barra pesada, cortesia do amigo Waltrudes, engenheiro químico carioca, companheiro nosso de Aliança e CVV. Chegava em casa quase morto. A fábrica não era muito grande e funcionava em três turnos semanais de oito horas: das 8, das 16 e das 24. Entre esses turnos tínhamos folgas pequenas de 24 e uma grande de 72 horas. Minha função era de servente de operação, peão de área. Cada turno tinha apenas quatro funcionários: o operador-chefe, o auxiliar de operação(caldeireiro) e dois serventes. Essa equipe era responsável por toda a produção, realizada por quatro reatores (que são torres gigantescas, semelhantes a enormes panelas de pressão viradas de cabeça para baixo), três caldeiras, três grandes tanques de mistura, um sublimador (muito parecido com aquela máquina de fazer algodão doce), dois flakers, que são enormes cilindros de resfriamento para fazer flocos de ácido. Tínhamos que cuidar também dos filtros, estoques de produtos de manipulação (permanganato, barrilha, filtros de papel), os equipamentos como bombas de água, compressores de ar, trocadores e separadores de líquidos, piscina de resfriamento, tanques de matéria-prima (soda cáustica, tolueno, óleo diesel). Toda a produção de ácido era embalada em sacos de papel de 60 quilos (flocos), em tambores de papelão de 20 quilos (sublimados), e os líquidos em tambores grandes de latão para os plastificantes e galões de PVC para o aldeído. Dependendo do turno, a jornada podia ser intensa, mediana ou eventualmente de faxina. Podíamos gastar água à vontade, que vinha de uma piscina reciclável. Quando o ralo da piscina entupia com algas, alguém tinha que tirar a roupa e mergulhar... Serviço pesado e também perigoso. Certa vez nosso operador-chefe, sempre muito apressado e descuidado, se atrapalhou ao abrir uma válvula do reator, espalhando ácido líquido e quente por toda a área. Não tinha como estancar aquele esguicho e o ácido ficava sólido quando entrava contado com a temperatura ambiente. Resultado: tumulto e muita sujeira para limpar durante a madrugada inteira. Ele queimou o rosto e o peito; e eu, vendo aquela cena de desespero dele, ao invés de avisar o caldeireiro, corri para o banheiro para lavar os braços, atingido por respingos. Estava tão nervoso que desandei a rir. Alguns segundos depois, ainda abalado, ria mais ainda, pois achava que todos iriam pensar que tinha sido eu quem havia causado o acidente. Voltei para a área e vi o estrago e o grande risco que todos nós corríamos naquele lugar. Esse operador, semi analfabeto, xucro, porém considerado o mais produtivo da fábrica, sempre aprontava algo grave e que colocava a vida dele e dos outros em risco. Numa outra vez ele esqueceu uma linha de combustível aberta e jogou milhares de litros de tolueno no esgoto, erro que foi descoberto pela Cetesb alguns dias depois ao coletar amostras no córrego que passava próximo da fábrica. Por decisão dos diretores da empresa, nos Estados Unidos, ele continuou trabalhando normalmente, mesmo dando aquele enorme prejuízo do combustível perdido e da multa pelo dano ambiental.

Outro problema para mim nesse trabalho em Cubatão era o turno das 24, conhecido como “Cinderela”. Esse nos tirava o cinema, das festas, enfim, do melhor que a gente estava fazendo. Nessa época, estudando na Católica de Santos, no primeiro ano da faculdade e perdia uma semana de aulas no mês. Correndo o risco de ser reprovado e sabendo que aquela carreira não tinha nada a ver comigo, decidi abandonar o emprego e mudar para São Paulo. Entretanto, três coisas ficaram marcadas marcantes nesses dois anos de trabalho em Cubatão: o incêndio da Vila Socó, em 1984, tragédia que tirou a vida de dezenas de favelados que moravam sobre dutos de combustível da Refinaria Presidente Bernardes (da Petrobrás); o nosso encontro com uma névoa tóxica de amônia, proveniente de uma daquelas fábricas de fertilizantes. Naquela tarde ficamos parados na rodovia Piaçaguera e não conseguimos render o turno que sairia às 16 horas. Voltamos para casa para retornar somente no outro dia. O interessante é que houve uma grande movimentação da Defesa Civil para retirar a população dos bairros industriais, com mais de 200 ônibus que transportavam funcionários da Cosipa (Companhia Siderúrgica Paulista). Nada foi noticiado nos jornais. E finalmente o risco de desabamento da encosta da serra. Era uma época de terror: tinha acontecido também aquele acidente na Índia (Bohpal), numa fábrica da Union Carbide, que também tinha uma filial idêntica em Cubatão. A Cetesb estava começando a fiscalizar e multar com mais rigor as indústrias que cometiam abusos ambientais, num tempo em que não se dava nenhuma importância para ecologia. Crianças nasciam sem cérebro na Vila Parisi e operários da coqueria na Cosipa eram contaminados com gás benzeno, altamente cancerígeno. Tudo isso aumentava o nosso medo em trabalhar em Cubatão, apesar dos bons salários.

A transição entre as décadas de 1970 e 80 foi para nós também deliciosos momentos de curtição no qual vivemos, sem exageros, intensamente a nossa juventude. Em 1978 o Mia tinha desistido dos bailes da vida, após uma temporada em Barra do Garças com ex-membros do Grupo Seda e voltou para São Vicente. Decidiu estudar música na Fundação das Artes de São Caetano e, partir disso, passou a nos liderar na vida artística e cultural. A criação de uma banda de MPB ao estilo da época foi rápida e naturalmente estimulada pela explosão de celebridades nacionais do gênero.  Fundamos então o Grupo Manvantara, nome hindu que pouco combinava com a MPB, mas que refletia o estado espiritual da maioria dos participantes.  Esse grupo foi criador do Projeto Gente Nova, reunindo bandas em apresentações no circuito universitário das faculdades de Santos. Nessa época criamos também a Mostra de Arte de Santos, realizada no Centro de Cultura e Teatro Municipal. O evento foi desenvolvido como promoção social do CVV-Centro de Valorização da Vida, recém-fundado na cidade e que reunia praticamente todas as modalidades e expressões artísticas da Baixada Santista.

Nos anos 80 havia também as excursões de lazer para litoral Norte, a região preferida para os acampamentos. Boissucanga, lugar paradisíaco do Município de São Sebastião, era a nossa praia, na época habitada somente por algumas famílias caiçaras. Ao contrário dos mochileiros paulistanos e do interior, íamos acampar nas férias de julho, quando as noites são frias e os dias são de muito sol e céu de brigadeiro. Ficávamos acampados exatamente onde um riacho desembocava na enseada e pelo qual percorríamos, em sentido contrário ao seu fluxo para o mar, em busca de uma cachoeira espetacular, escondida na mata serrana. Para chegar a Boissucanga e Barra do Saí tínhamos que pegar um ônibus em Santos, que atravessava as balsas do Guarujá e Bertioga, passando por Boracéia, São Lourenço (ainda não existia a Riviera), numa época que ainda não se estabelecera a especulação imobiliária, nem o asfalto da rodovia Rio-Santos. O litoral Norte ainda era selvagem, com uma paisagem natural deslumbrante e inesquecível. Quando não estávamos acampados no Litoral Norte ou frequentando os badaladíssimos Festivais de Verão do Guarujá (promovidos pelo governo Maluf), subíamos para São Paulo em busca de eventos diferenciados, geralmente os Festivais Internacionais de Jazz no Anhembi, as Feiras da Vila Madalena e shows de música instrumental das bandas e artistas de vanguarda do Lira Paulistana, no Bairro do Bexiga.

Nessa época as grandes cidades eram forradas de lojas de discos, produto de alto consumo em todas as classes sociais. Em São Paulo a rede de lojas Museu do Disco, assim como as lojinhas de rock e estilos alternativos era de alta frequência. Só havia uma lanchonete MacDonalds, na Avenida Paulista e o grande point pop do consumismo fast-food era a rede Grupo Sérgio, que começou como churrascaria, depois mudou para rodízio de pizza e finalmente pendeu para as variedades árabes, hoje dominadas pelo Habbibs. Ninguém imaginava que os discos de vinil, cujas embalagens de papelão eram verdadeiros álbuns fotográficos, literários e também espaços de criação do design gráfico, pudessem ser retirados do mercado com o advento do disc-laser e do CD. O mercado fonográfico era tão forte, como nas décadas anteriores, que tornou-se o principal responsável pela movimentação das emissoras de rádio, dos grandes eventos e a constante renovação de artistas e estilos musicais. Nessa época, por influência das gravadoras, explodiram para as massas os grandes compositores e intérpretes da MPB (Gonzaguinha, Gal Costa, Ivan Lins, Simone, Elis, Milton Nascimento, Baby Consuelo, Morais Moreira, Ney Matogrosso); os grupos de rock nacional (Ultraje a Rigor, Metrô, Ira, Paralamas do Sucesso, Titãs, Legião Urbana) e também os alternativos (Arrigo Barnabé e a Banda Clara Crocodilo, Itamar Assumpção e a Banda Isca de Polícia, Premeditando o Breque, Rumo, Língua de Trapo).


PASSANDO POR SÃO PAULO

Em 1985 fui para São Paulo acompanhar minha família. Minha mãe finalmente tinha conseguido realizar o sonho dela: morar e trabalhar em São Paulo. Fomos residir na região do Butantã, especificamente no Jardim Bonfiglioli, entre a Avenida Corifeu de Azevedo Marques e a rodovia Raposo Tavares, altura do quilômetro 13, a mesma rodovia que termina em Presidente Epitácio, no quilômetro 640. Nesse período moramos em dois condomínios de apartamentos e depois num sobrado, na rua Embaixador Cavalcante de Lacerda, em frente ao reservatório de água da Vila Gomes. Era um lugar alto e frio, de onde tínhamos uma vista, longe, porém espetacular de Pinheiros, Butantã, Jardins e dos altos e torres da Avenida Paulista. Dali meus pais voltaram para Epitácio e fui morar na Aclimação, na Rua Nicolau de Souza Queirós, num apartamento que dividia com o jovem amigo de São Vicente, o então engenheiro e hoje advogado Frederico Cordeiro Natal. Também voltaria para Epitácio em 1991 e somente retornei para São Paulo em 1999, morando com minha mãe na região Butantã (Jardim Rosa Maria), depois na Vila Buarque, próximo a Higienópolis, num apartamento que pertencia a amiga Tata (filha do Baraúna). De lá minha mãe voltou para São Vicente e fui morar, casado, na Freguesia do Ó, num apartamento na rua Jacaré Copahíba. Nessa mesma rua ficava a segunda escola estadual para a qual fui removido, a E.E. Almirante Tamandaré, trabalhando com professores muito queridos, ótimos profissionais e amigos. No Tamandaré mudei totalmente o conceito negativo (preconceito mesmo) que tinha das escolas públicas e pude entender como as coisas realmente funcionam nesse setor. Adorava frequentar as capacitações na Diretoria de Ensino Norte 2, em Perdizes, sempre cheia de novidades e projetos culturais de visitas aos lugares históricos de São Paulo. Nesse período passei num concurso para diretor de escola do Estado, mas não pude tomar posse por falta de experiência comprovada no cargo. Esta certamente foi uma decisão sábia do substituto do Dirigente Regional de Ensino, apesar da insistência de alguns supervisores que analisaram o meu caso nesse processo em aprovar a minha documentação. Um ano antes havia ingressado na E.E. Narbal Fontes, na Vila Maria, escola na qual também trabalhou, na secretaria, o Renato Duque, que acabou descobrindo que os filhos do Pereira e da epitaciana Vininha Cunha haviam estudado ali.

Em São Paulo, no final de década de 1980, mesmo aposentada, minha mãe se sentia realizada ao sair de casa todos os dias para enfrentar a modernidade paulistana, que ela adora até hoje. Trabalhou como recepcionista no Shopping Iguatemy, na Faria Lima e depois como administradora de uma clínica para idosos na Avenida Rebouças e também como gerente de uma clínica odontológica, na avenida Brasil. Naquela época tinha emprego pra escolher. Um dos hóspedes da clínica de idosos, com quem ela se entendia muito bem, era o Sr. Amador Aguiar, fundador do Bradesco. Meu pai não curtia São Paulo, queria voltar para Epitácio. Adorava São Vicente, por causa do clima e descontração do povo do litoral, mas morar em São Paulo foi, para ele uma péssima ideia; ficava em casa cuidando de uma neta.

Eu já era fascinado pela grandiosidade paulistana, que visitava com frequência desde o final da década de 1970. Durante a semana, trabalhando como voluntário do Centro Espírita Irmão Timóteo e do CVV, sempre subia a Serra para comprar livros para abastecer a livraria do centro (o qual eu era responsável). Além das visitas frequentes à Editora Aliança e Secretaria do CVV, na rua Genebra, percorria os principais pontos de venda de livros e discos no eixo Maria Paula-Praça da Sé. Meu pronto preferido era a Livraria Freitas Bastos.

Um dia, ainda morando sozinho em Santos (Rua Pereira Barreto, no Gonzaga), pois meus pais tinham mudado para São Paulo, fui visitar os irmãos (Mia e Bill) que trabalhavam numa loja de instrumentos musicais na Avenida Rebouças e lá fui aliciado pelo Fernando Biancardi, filho do proprietário, para trabalhar na temporada de festas natalinas. A vó do Fernando era vice-reitora da PUC e conseguiu-me uma vaga noturna para o curso de História. Era dezembro de 1985 e logo estaríamos entrando no Plano Cruzado do governo José Sarney. Foram dez meses de inquietação e ansiedade de prosperar. E ficou só nisso. Nesse período ainda fazia efeito a explosão de grupos musicais do início dos anos 80 e havia muita procura por instrumentos e equipamentos de som para as bandas. Nessa loja da Rebouças recebíamos artistas e candidatos de todos os estilos e graduações de fama e prestígio. Empresários estrangeiros (sobretudo japoneses), de olho no mercado nacional em crescimento, vinham sempre dar uma espiada na loja.  Além dos músicos e artistas de São Paulo, vinha gente de todos os lugares do Brasil para conhecer as novidades, nacionais e importadas, e comprar principalmente acessórios, que se degastavam durante os shows. Tínhamos como vizinhos o escritório e casa de ensaio da famosa banda paulistana Placa Luminosa (ex-conjunto do cantor Jessé), pessoal muito talentoso e divertidíssimo: Ari, Riba, Luizão (fixos na banda), os cantores e tecladistas contratados, bem como o nosso amigo Sato, técnico de som do Placa e também do estúdio de jingles do Mia, Cacho e Rubão, na rua Caiubi. O Cutelo, office-boy do Placa, não se conformava em ver a gente tocando e demonstrando os instrumentos na loja e queria ser nosso empresário para uma futura banda, ideia que também empolgava o Fernando Biancardi. Nessa época o Cacho também trabalhava com o tio do Fernando, numa editora que publicava revistas com músicas cifradas.

No estúdio da rua Caiubi (Coda) eu era o criador das melodias e letras e o Cacho e o Mia faziam os arranjos. Tudo fantasia e tentativa de entrar no mundo da publicidade, um mercado muito fechado e desconhecido por nós.  Esse nome Coda (sinal musical) era também da escola que funcionava no mesmo endereço, em Perdizes. O Mia e o Cacho eram crias musicais do CLAM (escola do Zimbo Trio), de estilo Bossa Nova-Jazz, porém com esse nome que também era titulo de um disco do Led Zeppelin, a escola e o estúdio viviam cheios de alunos e grupos roqueiros.

Em São Paulo as coisas eram bem diferentes. Sempre foram. Realmente uma cidade de muitas faces e oportunidades. Fui estudar História na PUC e lá entrei definitivamente na educação. Como estudante, dava aulas no Colégio e no Curso Objetivo. Também lecionava, como estagiário, num supletivo de funcionários da manutenção do prédio da Secretaria da Fazenda, na Avenida Rangel Pestana, através da FUNDAP. Saía de casa às cinco da manhã e só voltava as onze ou meia noite. Estava mais seduzido ainda pelo ritmo elétrico da cidade e por tudo que estava acontecendo naquela época. Certa vez, não sei por qual motivo, enfiei na cabeça que queria ser redator de propaganda. Tinha pensado em fazer jornalismo, mas esse desejo há muito não me atraia mais. Matriculei-me, então, numa oficina de texto publicitário na Escola Superior de Propaganda e Marketing-ESPM, cuja sede ainda era na Rua Rui Barbosa, no Bexiga, próximo do Teatro Franco Zampari (onde o Faustão gravava o Perdidos na Noite). As aulas eram ministradas pelo escritor Ricardo Ramos (filho do Graciliano e parecidíssimo com o pai). Foi o verão mais deslumbrante (literalmente) que passei em São Paulo ouvindo mil histórias e experiências da propaganda brasileira. Fiquei tão animado que comecei a pesquisar textos publicitários de todas as épocas, para aprender estilos, vocabulário, macetes, intenções, superlativos, adjetivos, slogans, títulos, enfim, tudo sobre essa arte que antigamente era exercida nas agências pelos melhores escritores e jornalistas: Orígenes Lessa, Mário Prata e dezenas de outros, como próprio Ricardo Ramos. Sabia que essa não seria a minha carreira, mas não deixava de sonhar com essa possibilidade. Não foi em vão, pois cultura e tecnologia a gente nunca perde e acaba sempre transformando em algo útil e diferente em situações e diferentes circunstâncias.

Realmente ainda tem gente que pensa que os anos 1980 foi uma década perdida. Pelo contrário, foram os anos nos quais foi inventado o século XXI, a Era da Informação e do Conhecimento. As mudanças importantes foram muitas: o surgimento da informática, a redemocratização no Brasil, a queda do Muro de Berlim, o fim da Guerra Fria, as guerras na Iugoslávia e no Golfo, enfim, mil coisas ao mesmo tempo. Dava aulas de manhã e à noite e estudava no período da tarde, no campus das Perdizes. Época maravilhosa, na qual ocorreu a minha formação intelectual, proporcionada pela intensa vida cultural de São Paulo: o Centro Cultural do Paraíso, a USP, as livrarias e sebos no centro e em torno da PUC, feiras, cinemas alternativos, teatros, shows e grandes espetáculos ao ar livre no Ibirapuera.

Em 1986 a Polícia Federal invadiu a PUC quando assistíamos ao filme "Je Vous salue, Marie", proibido pelo governo Sarney. A PUC tinha uma história de invasões e violências na época do Regime Militar. Nesse dia, para fugir da polícia, os alunos atiravam a fita de vídeo do prédio velho para o prédio novo. Lá tinha uma molecada que adorava provocar e apanhar da polícia. Todos os anos eles levavam "bombas" de chocolate de presente para o Coronel Erasmo Dias (deputado), na Assembleia Legislativa. Erasmo havia invadido o campus em 1977, quando era secretário de segurança. Ele recebia cordialmente os alunos, mas sempre um deles, de propósito, falava um desaforo e ele, muito nervoso, perdia a paciência, começava a xingar e logo chamava a segurança.

Permaneci no Objetivo por seis anos, uma boa escola de docentes. Tinha aprendido a dar aulas ainda na adolescência num centro espírita, com grandes oradores como Jacques e Sueli Conchon, Valentim Lorenzetti, Flávio Focassio e Adolfo Marreiro. Porém, o meu modelo de docência para grandes plateias, com quem praticamente dei os primeiros passos (e substituía eventualmente) foi o professor José Jobson Arruda, que era uma mistura de acadêmico e show-man., com aulas curiosíssimas sobre Grécia e Roma. Depois de assistir a uma aula dele sobre Maomé e a expansão muçulmana, nunca mais fui a mesma pessoa. Na cadeira de História tinha verdadeiros ícones do cursinho paulistano: Heródoto Barbeiro (depois jornalista e apresentador) e o grande Ciro Ramos, que “inexplicavelmente” era admirador do nazismo. Isso acontecia na unidade da Paulista, 900, no prédio da TV Gazeta e Fundação Cásper Líbero. Era registrado em três empresas: Di Gênio & Patti (Cursinho), Colégio Integrado Objetivo e Bricor (franquia). Trabalhei em vários bairros cujas unidades do Objetivo eram um autêntico reflexo social das classes, costumes e etnias da nossa pauliceia desvairada: na Paulista e Aclimação, os japoneses, coreanos, chineses e mestiços de italianos com orientais, de classe média; em Pinheiros, Altos da Lapa e Santo Amaro (região do Brooklin), muitos descendentes de italianos e judeus de classe média alta; no Morumbi e Alfaville, os ricos e novos ricos, filhos de grandes e famosos empresários, que não se adaptavam nos colégios tradicionais e mais rigorosos (Pueri Domus, Miguel de Cervantes, Porto Seguro, Augusto Laranja, etc.). Interessante lembrar que nas unidades onde frequentava a classe alta os professores eram muito bem tratados pelos alunos.  Já nas unidades de classe média tínhamos muitos problemas de disciplina, que obviamente aliviávamos aparentando certa informalidade e irreverência ao expor as aulas, sobretudo os assuntos polêmicos. Os próprios professores da nossa turma e época eram uma complexa e rica diversidade étnica e racial. Ao sentarmos numa mesa para tomar chope e bater papo nas calçadas daqueles barzinhos de Cerqueira César, dava para ter uma ideia das nossas diferenças e semelhanças culturais: Gabriel Bandouk (palestino); James Kobayashi, Issao e Yumiko (japoneses); Wu (chinês); Moré (judeu, irmão do jornalista Gilberto Dimenstein); eu (mulato, neto de negros, nordestinos e húngaros); as irmãs Marisol e Nuricel, e Luizinho “Torquemada”- especialista em Inquisição - (espanhóis); Nogueira e Gomes (portugueses); as também irmãs Eva e Benê Turim, Sidnei Malena (italianos); Eduardo Silva - Dudu – biólogo e ator afro que fazia o Bongô do RA-TIM-BUM – e finalmente o Altino, talvez descendente de alguma família quatrocentona, pois morava numa bela casa em Moema. O Cidão Malena dizia que ele certamente iria ficar famoso porque um dia existiu o Al Johnson, existia o Al Jarreau e ele seria o Al Tino. Nossos coordenadores eram professores antigos ou alguns jovens mais populares que, pela situação de destaque e falta de espaço para crescimento docente, eram deslocados para dirigir as unidades nos bairros. Alguns eram legais, ou mais menos e outros insuportáveis puxa-sacos. Havia aqueles que valorizavam o grupo e faziam de tudo para manter a equipe; e tinha também aqueles que não faziam o mínimo esforço, pois haviam uma rotatividade muito grande de professores, nas unidades mais problemáticas. Na unidade Vergueiro tinha o Renato, secão, mas gente boa, e o primo dele, o Ermínio, caipirão muito divertido de Ourinhos e fã do Roberto Carlos e, na época, do Fernando Collor de Melo. No Morumbi era o Otto, alemão, ex-jogardor de basquete, muito gente boa também; em Pinheiros eram o Domingos e o Glauco.  Essa era apenas a nossa turma mais próxima, pois havia, na unidade da Paulista uma verdadeira legião de professores controlados por uma enorme sala de horário comandada pelo Professor Fazzoli e o Armandinho (japonezinho de Álvares Machado). Nessa época as estrelas e veteranos do cursinho eram Fernando Teixeira, Honda (de Tupã), Kvork, Clézio, Eduardo, Sales (de Piracicaba), Derville, Jobson, Nicola, Moacir, Honda, Fazzoli, Vera e Hernani (ex-vocalista dos Sombras, de Presidente Prudente). Nós éramos apenas seus aprendizes. Alguns professores do Objetivo se tornaram políticos influentes, vereadores e deputados, como os irmãos biólogos Ricardo e Roberto Trípoli; e o geógrafo Paulo Kobaiashy. Alguns alunos também entraram para a política como Aurélio Miguel e Robson Tuma (filho do Romeu Tuma). No mundo artístico, a lista de alunos é interminável. Só para citar alguns: Gretchen (nos anos 70), Luciana Vendramini, Mara Maravilha e Roger (Ultraje à Rigor, que também foi professor de inglês). Outra figura importante do Objetivo foi o Dr. Dráuzio Varela, que conheci quando estava fazendo sua pesquisa no presídio do Carandiru. Desses estudos surgiram as primeiras aulas e materiais didáticos sobre AIDS nas escolas e, anos depois, o famoso livro Estação Carandiru.  Dráuzio Varella foi colega de faculdade do também médico João Carlos Di Gênio e criador do nome “Objetivo”. Apesar de toda essa badalação, o Objetivo era, na verdade uma passarela de uma grande maioria de alunos e professores anônimos, desconhecidos, que por ali passam como meros aprendizes. Histórias como a minha e desses colegas citados são inúmeras e se perdem nessa multidão de trabalhadores e usuários.

Apesar da redemocratização e do ambiente liberal, no Objetivo ainda havia censura e temor político no final dos anos 1980. Lembro que fui encarregado de escrever, juntamente com a amiga e socióloga Eva Turim, a apostila de História do Brasil, especificamente o tema “Regime Militar”. Ao ver, depois de pronto, os conteúdos e as imagens escolhidas para ilustrar os textos, o nosso coordenador de área, Francisco Alves, simplesmente deu uma gargalhada irônica e disse: “Nem pensar. Não vamos ser presos, porém seremos todos demitidos”. Éramos considerados os melhores professores, com as aulas mais atraentes, porém havia uma certa desconfiança com os professores de História, pois a nossa cadeira sempre tinha uns focos de contestação e ligações com as esquerdas. Em 1987 houve uma enorme mobilização de alunos secundaristas na Avenida Paulista e os alunos do Objetivo ocuparam a escadaria do edifício Gazeta, formando também um grande bloqueio no trânsito, queimando apostilas e cadernos. Alguns alunos vestiam moradores de rua com as camisetas do colégio. O protesto foi destaque do Jornal Nacional e resultou em algumas demissões de professores que haviam sido denunciados como “cabeças” do movimento, entre eles o nosso pacato colega Fernando Issao. Este mais tarde tornou-se assessor do MEC no primeiro governo Lula. Já a Eva Turim, que era petista assumida e de carteirinha, ex-secretária de Dom Paulo Evaristo Arns e do Senador Eduardo Suplicy, nunca teve problemas políticos no Objetivo. Aliás, era ela quem arranjava para que o Grupo Tibiriçá paulistano (Dadau, Mia e Bill) se apresentasse nos jantares dos empresários e grã-finos do PT, para arrecadar fundos na campanha da futura prefeita Luiza Erundina. Entre os convidados sempre estavam, além do primeiro escalão petista e de professores da USP (Plínio de Arruda Sampaio, Helio Bicudo, Jair Menegueli), o comentarista esportivo Juarez Soares, o publicitário Carlito Maia (que na chegada e antes de ir embora fazia questão de cumprimentar os músicos), o então casal Marta e Eduardo Suplicy; e o empresário Lawrence Pih, do Moinho Santista. O Lula, que era de outra “tchurma”, nunca ia nesses jantares.

Na PUC aprendi a dar aulas com grandes mestres do estilo acadêmico, para classes pequenas: Antonio Pedro “Tota”, Ilana Blaj, Rosely Coelho, Elias Thomé Saliba, Hilário Franco Jr, Modesto Florenzano, Otaviano De Fiore, Antonio Penhalves Rocha, Zilda Iokoy Antonio Rago, Paulo Sandroni (que mandou que eu refizesse  trabalhos péssimos sobre Mercantilismo e economia da República Velha), Noêmia Lazzareschi, Maria Auxiliadora Guzzo Dedeca, Miguel e Vera Chaia, Maria Antonieta Antonacci e Marina Maluf (esposa do escritor Fernando Morais). Em alguns semestres assistimos às aulas de professores convidados como Celso Lafer, Fernando Novais, Otávio Ianni, Marilena Chaui, Florestam Fernandes, Maurício Trattenberg, Paulo Freire (secretário da prefeita Luiza Erundina), Alcir Lenharo e até do Comandante Luiz Carlos Prestes, falando de tenentismo e do fim do regime militar. Embora muito marxista nos anos 60 e 70, o bacharelado de História (Faculdade de Ciências Sociais) nos anos 80 e 90 era extraordinário, uma vanguarda de temas e tendências da cultura humanista contemporânea e da historiografia das mentalidades. Paralelamente fazíamos a licenciatura na Faculdade de Educação, sendo duas áreas afins e muito politizadas. Na Faculdade de Educação predominava o pensamento freudiano e o libertário pedagógico. Na PUC descobri que realmente gostava de dar aulas e também sonhava um dia ser apenas pesquisador. Até que decidi virar empresário da educação privada. Resolvi montar uma escola. Vários colegas do Objetivo já tinham passado por essa experiência e depois do fracasso voltaram a dar aulas. Segui os passos do Moacir, também professor de História, que tinha aberto uma franquia do Objetivo em Tietê. Ele tinha sido meu professor no cursinho em Santos em 1983. Reencontramos-nos em São Paulo, três anos depois, agora como companheiros de trabalho, sendo ele sempre muito prestativo e dando muitas dicas para os novatos. Soube mais tarde que o projeto dele também não vingou. Éramos bons professores, porém péssimos empreendedores. Lembrei um detalhe importante, que esquecemos de copiar da vida de sucesso do nosso antigo patrão: professor de talento e visionário, João Carlos Di Gênio tinha excelentes ideias, mas sempre usou como suporte e alavanca a parceria com pessoas que ele identificava como peças estratégicas no complexo jogo dos negócios. É por isso que no Objetivo a gente sempre encontrava pelos corredores da administração alguns descendentes de italianos e árabes exercendo cargos importantes, gente que não tinha muito a ver com educação e ensino, porém pessoas pragmáticas, excelentes homens de negócios que o Di Gênio logo transformava em gestores e sócios.
Entre 1988 e 1990 Presidente Epitácio viveu um período de euforia progressista. O município, que já havia sido contemplado pela instalação de bases técnicas da CESP, passou a receber dezenas de famílias da própria empresa estatal de energia, como também das empreiteiras que seriam responsáveis diretamente pelas obras do reservatório da Usina Hidrelétrica de Porto Primavera. Nesse período a cidade também é tomada pela euforia empresarial, estimulada principalmente pela inauguração de um balneário de águas quentes, construído a partir de um antigo poço escavado pela Petrobrás na década de 1950. Empreendimentos idênticos haviam sido desenvolvidos em diversas cidades do interior onde existiam esses poços cavados e depois lacrados pela estatal, em busca de petróleo da na região. Epitácio não vivia tal clima de entusiasmo desde a construção da ponte sobre o rio Paraná, na década de 1960. Ao prefeito Antonio Quirino da Costa, eleito em 1988 e dando continuidade ao ritmo otimista do seu antecessor, coube a tarefa de organizar politicamente a maioria desses eventos de marketing político já estabelecidos desde os anos 1960 e alguns empreendimentos que ainda acenavam como promessa de expansão, como por exemplo o Thermas Epitácio e o Centro de Lazer do Sesi.   A demanda por serviços e equipamentos culturais estava nessa pauta, incluindo a criação de escolas de ensino privado. Muitos acreditavam que a cidade finalmente iria decolar em franco desenvolvimento. Havia uma intensa movimentação especulativa causada pela presença da CESP e das empreiteiras, dando nitidamente essa impressão de progresso.  Foi nesse contexto também que o Mia (Hélvio Duque) e a Adir Murad criaram e desenvolveram o Conservatório Musical Municipal. Também, eu e Mia, criamos o Colégio Tibiriçá, para receber a franquia do Curso e Colégio Objetivo, nos quais eu atuava como professor em São Paulo desde 1986. Fizemos uma parceria com a Escolinha Pinte o Sete e assim fomos acolhidos pelas irmãs Mayra e Nayara Azevedo, com quem trabalhamos o tempo todo compartilhando praticamente todas as experiências, boas e reuins. Na mesma época tentamos implantar uma franquia do Objetivo em Nova Andradina, mas esbarramos na distância e também na falta de professores para o ensino médio. Desistimos. Mais tarde o Mia implantaria o Colégio Ideal em Presidente Venceslau, com a ajuda do professor Zensho Yamamoto e da Professora Dalila, depois incorporado pela FAFI. Conseguimos tocar o negócio durante uns seis anos como pequenos empresários, com empolgação e muitas dificuldades. Tivemos ajuda de muitos amigos e entusiastas da cultura e da educação. O Adalberto, proprietário do Colégio Esqueminha, de Presidente Prudente, nos deu dicas preciosas e até nos doou mobiliário escolar. Professores e pais compartilhavam nossos sonhos com muita energia e expectativa. Educadores da Diretoria de Ensino e diretores de escolas públicas nos apoiavam com conhecimentos legais e recomendações preciosas aos que buscavam melhor qualidade de ensino. As primeiras aulas do cursinho tiveram a força dos professores Hernani (de São Paulo) e Caetano (de Prudente), que se juntaram aos melhores professores de Epitácio para fortalecer a ideia. Mais tarde vieram professores de Venceslau e Santo Anastácio. Todos sentiam que a cidade e a região poderiam melhorar e abrir novas frentes culturais a partir dessa inciativa. Nossos eventos eram considerados criativos e ousados, fomentando o comércio e a vida cultural da cidade: festas juninas, bailes temáticos, jornadas de pais, formaturas, festival esportivo, excursões, desfiles, tudo era motivo de consumo e promoção de outros negócios. Entretanto, esse empreendimento, aparentemente lucrativo, despertou a ambição de outros educadores da cidade e principalmente de alguns políticos que se associariam com grupos educacionais de grande porte e de ensino superior. O que era um pequeno e pouco promissor empreendimento educacional particular construído em cinco anos tornou-se completamente inviável em apenas um ano. A perda crescente e rápida de alunos a partir de 1996 nos forçou a fechar o Colégio Tibiriçá, cuja clientela foi rapidamente transferida para um grupo de pais que se cotizaram para fundar outra escola. De 1990 a 1997, a partir da nossa inciativa, surgiram nessa onda eufórica de prosperidade mais quatro escolas particulares. Quase 20 anos depois a ideia ainda persiste em alguns empreendedores.


Disso tudo, deixando de lado o enterro dos nossos sonhos e a satisfação natural de alguns que se consideravam nossos desafetos culturais ou políticos, sobraram apenas os problemas decorrentes. O Mia permaneceu em Epitácio trabalhando na prefeitura e eu fui tentar a vida em Campo Grande, Mato Grosso do Sul.  Na verdade, o nosso e muitos outros empreendimentos seguiu um modelo de entusiasmo implantado na cidade pelo carismático Edson Jacomossi, cujo espírito sonhador e de viva empolgação envolvia a todos que também idealizavam um futuro altamente promissor para Epitácio. Arrisco dizer que tudo que foi imaginado e sonhado para a cidade nas décadas de 1980 e 1990 partiu dele inicialmente e tomou todas as direções e tendências possíveis. Edson Jacomossi, como Jan Antonin Bata, era uma visionário perdido no sertão. Talvez não possuísse todas as virtudes e grandezas do célebre empresário tcheco, porém tinha a marca inconfundível dos grandes planejadores e suas realizações duvidosas. Tive essa sensação quando tivemos uma conversa reservada entre ele, eu o Hernani Maia, na época editor de uma revista com matérias sobre a vida empresarial no interior. Muito espirituoso, culto, dono das Thermas tinha consciência do lugar onde estava, do momento em que vivia, de quem o rodeava e das limitações que poderia enfrentar. Como todo visionário, tinha os defeitos típicos do sonhador, que se deixa seduzir pelos admiradores imaginários e atrapalha os planos do empreendedor íntimo que tenta reconduzi-lo ao perfeito juízo. Conversamos por algumas horas e, em certo momento, ele quis saber qual seria o título da matéria. O Hernani encheu o peito, abriu um sorriso e revelou aquilo que ele acreditava ser a mais perfeita definição da personalidade, do negócio que dirigia e o tamanho da vaidade que imaginávamos que ele possuía: “O Rei das Águas!!!!”. Ele olhou para nós com uma baita decepção, nos vendo obviamente como bajuladores, iguais aos que estava acostumado a tratar, mas que de certa forma, alimentavam muitos dos seus sonhos. Veio então como reação imediata uma gargalhada e uma resposta não menos irônica: “O que todo mundo vai dizer é que eu sou O Rei da Cana”. Dito isso, mergulhou numa piscina que ficava na parte interna do hotel. O Hernani pensou que ele ia roer a corda, mas ele aceitou tudo com a maior tranquilidade, incluindo o título de Rei da Águas. Quando saímos do hotel, olhei para o Hernani cobrando uma avalição do que havia ocorrido. Para o meu amigo historiador e jornalista estávamos nitidamente diante de um césar decadente, daquele período final do império romano.

Também nesse período de funcionamento do colégio, entre 1991 e 1994, passei a ser colaborador do jornal A Fronteira. Escrevia alguns artigos e depois assinando a coluna Pois É, formato copiado da crônica do Zêgo, publicada no jornal Tribuna, de Santos, cuja abertura sempre utilizava essa frase.  A coluna Pois É passou a ser reproduzida também no jornal Integração, de Presidente Venceslau, dirigido pelo Moacir Bento.

Algum tempo depois, por inciativa do Tião Lima e do filho Juliano, assumi a direção editorial enquanto eles se estruturavam para oxigenar financeiramente o jornal. Este passou a ser impresso em Presidente Prudente na gráfica de O Imparcial, porém diagramado por nós. A antiga Fronteira (linotipo e arquivo) viraram peças de museu, tudo cuidadosamente registrado em fotos pelo Juliano Lima, que era o mais entusiasmado com todas aquelas transformações. Antes disso ele tinha feito um estágio administrativo, ainda na rua Florianópolis, ele e eu, para conhecermos as artimanhas do negócio. Acontecia de tudo, principalmente nos primeiros dias.  O mais interessante era a pressão dos funcionários da oficina. O Henrique Simioni e o cunhado dele vinham até a minha mesa, de cinco em cinco minutos, e perguntavam: “Qual vai ser a chamada da primeira página”? E eu, sem conhecer os macetes, ia simplesmente enrolando. Eles me apertavam e testavam, porém não podia demonstrar indecisão e fraqueza. E respondia, apavorado: “Estou pensando, vamos com calma...”. O problema todo é que a montagem da página (em chumbo) dependia da chamada ou manchete e isso atrasava o serviço deles. Eles, impacientes, e eu estressado. Fazer o quê? Teve um dia que eles me boicotaram com uma chamada policial engraçada e com um erro proposital de grafia: “Rancou a orelha da amásia”. Foi um fiasco e sarro a semana inteira na Oficina da Pizza, do Dinho. O Juliano, também alvo de boicote, ficava possesso e eu, aparentemente tranquilo. Da outra vez foi a situação decisiva, limite, para definir se iríamos romper ou continuar juntos. O Henrique gritou lá da oficina: “Já tem a chamada”? E respondi: “Sim, pode preparar o chumbo. Coloca aí: MATOU A FAMÍLIA E FOI AO CINEMA”. Gargalhada geral e nunca mais brigamos. 

O Roque, ex-guarda-mirim e investigador de polícia, fazia gentilmente as notícias policiais e não queria aparecer, pois era funcionário público, etc. Eu achava um desperdício publicar aquelas ocorrências de forma anônima. Criei então o repórter fictício J.L. Pacheco. Foi uma festa. O pessoal de delegacia se divertia mais do que a gente. Porém, os colegas do Juliano começaram a chamar o nosso repórter de Juliano Lima Pacheco. Muito bem humorado, ele pediu encarecidamente uma solução para o caso. Foi por isso que o Roque passou a assinar somente J. Pacheco. Mudamos da Rua Florianópolis para o escritório do Tião, que ficava na Avenida Presidente Vargas, na altura no Jardim Real: eu como redator, acompanhado do Henrique Simioni, antigo linotipista da região e que se adaptou rapidamente ao computador; e também Emerson Carvalho e Fabrício Simione como diagramadores -funcionários do Bonilha (filho), aliás um grande parceiro em muitos projetos culturais. Os jornalistas responsáveis, uma formalidade sindical, praticamente nem tomavam conhecimento do que estava acontecendo ou do que iria ser publicado. Isso evidentemente incomodava e provocava críticas de algumas pessoas que não sabiam o que estava ocorrendo ou dos que tinham pretensões de assumir a direção do jornal, achando ingenuamente que para isso bastava ter um registro sindical ou ficar bajulando os proprietários. Certa vez fui desagradavelmente questionado sobre isso numa entrevista de rádio e, sem querer, coloquei uma pedra sobre o assunto esclarecendo aos ouvintes que o verdadeiro responsável era alguém com qualidades intelectuais adequadas, visão ampla de comunicação e principalmente da confiança dos donos do jornal. Durante anos outros editores haviam tocado o jornal nessa condição e quem se responsabilizava formalmente eram jornalistas que nem moravam na cidade. Eu estava apenas seguindo um procedimento já existente. Nessa época poucos tinham consciência que já estava em curso uma grave revolução social e tecnológica na área do conhecimento e da informação, e que colocaria essas futricas corporativas – geralmente defendidas por profissionais limitados e pouco competitivos – definitivamente no lixo da obsolescência. O Zé Aparecido contava pra gente que tinha saído da Folha porque a redação começou a ser frequentada por pessoas “esquisitas” (detestava os gays, colunistas sociais e particularmente os patrões) e quando chegaram os computadores. Tinha pavor da nova máquina. Nessa mudança da Fronteira linotipo para offset ele deu um exemplo de humildade e se curou dessa fobia. Comprou um PC e humildemente pediu ajuda para nós, sobretudo o Emerson e o Henrique. Logo estava digitando e dominando a informática. Essa foi uma das causas da sua empolgação ao fundarmos mais tarde o Correio do Porto. Uma vez perguntei a ele se conhecia o Valentim Lorenzetti, jornalista e empresário de RP, meu companheiro do Centro de Valorização da Vida. O Zé, que era ateu, porém humanista, respondeu prontamente: “Claro, foi meu chefe de reportagem e o cara mais honesto que conheci. Era espírita. Quando eu tomava umas cachaças e ia para as farras, tomava o cuidado de deixar com ele, a maior parte do meu dinheiro, para ele guardar e garantir as despesas da minha família”. Uma curiosidade: o Zé sabia que eu era espírita e certa vez me confessou que tinha receio da morte. Disse para ele ficar tranquilo, pois na hora H eu daria uma força. Fui saber da morte dele somente alguns meses depois do ocorrido. Esqueci da promessa, mas tenho certeza que o Valentim, já desencarnado, não esqueceu o velho amigo. No futuro já vejo ele reclamando: “Pô, esperei sentado, hein”!

Morar numa cidade pequena e numa época na qual o acesso à informação era difícil me deixava muito preocupado. Ainda não havia o uso ilimitado da Internet. Por causa do colégio e também para fugir do risco permanente de desatualização, procurava ficar sempre “antenado” no que acontecia nas universidades e no mercado de informação, lendo livros e publicações especializadas que traziam novidades nesses dois setores. O jornal a Fronteira, agora impresso em offset, bem como a rádio FM de Venceslau, eram ótimos laboratórios para experimentar novos produtos de comunicação como propaganda e eventos. Tínhamos como colunistas fixos o Roberto Valverde, João Brilhante (variedades); François Paul e Orinho (social), Gilson Cruz (esportes) e alguns articulistas que não se envolviam muito com o jornal. Uma coluna que fazia muito sucesso era Anos Dourados e Rebeldes, de linha histórica, explorando fotos antigas e os conteúdos do jornal A Vigilância, publicado em Epitácio no final do ano 60 e início dos anos 70. Esse acervo de jornais antigos pertencia ao ex-prefeito José Luiz Tedesco, encadernado num volume único, do qual extraímos trechos curiosos da coluna social e notícias mais interessantes do passado. Também criamos para a coluna do Orinho um destaque chamado 5 Minutos, entrevistando personalidades femininas diferenciadas na cidade. Esse destaque durou pouco, pois apareceu muita gente interessada tentando atropelar a escolha dos entrevistado, provocando uma disputa acirrada que desgostou os donos do jornal. Disso resultou também a uma nova coluna social, exclusiva do jornal. Nela publicávamos as fotos dos eventos sociais contendo as informações básicas que deveriam servir como legenda da imagem, exatamente como fazem os colunistas dessa área. Quem lia tinha nítida impressão de que realmente alguém do jornal estivera presente no evento. Quando fundamos o Correio do Porto essa coluna foi denominada Planeta Epitácio.

A convite do Sérgio Maroto, passei a ajudá-lo no seu negócio de bebidas, promovendo a cerveja Antártica, na época marca fraquíssima na cidade. Em troca ele apoiava as promoções do Colégio Tibiriçá, que precisava se firmar como produto de consumo educacional. Aberto e sempre interessado em novidades culturais, ele também contribuía com o Cine Clube. Uma das ousadias do Sérgio foi a contratação do Mané da Brahma para gerenciar a distribuidora dos produtos Antártica, lance de marketing que provocou um rebuliço no mercado regional de cerveja. Esse é um segmento de consumo muito parecido com religião, futebol, sexo e política, de alto teor imaginário e ideológico, obviamente sem nenhuma consciência, a não ser dos que manipulam. Não conquistamos a liderança, porém, à longo prazo, conseguimos alterar os hábitos de consumo de cerveja em Epitácio, antes praticamente monopolizado pela Brahma.

Nessa nova fase de A Fronteira, a partir de 1995, duas edições semanais davam conta, naquele momento, da pequena demanda local e também dos interesses políticos dos proprietários, de olho nas próximas eleições. Era uma troca de favores muito interessante e gostosa. Fomos tocando o barco, com a ajuda do Seu Armando Andrino, até que reapareceu na cidade o José Aparecido, antigo responsável pelo jornal e conhecido jornalista da Folha de São Paulo.  Sempre desconfiado e também muito esperto, ele aceitou um convite topando trabalhar com a gente, sendo logo alçado como chefe da redação. Essa foi uma ótima fase de aprendizagem para todos, pois o Zé conhecia todos os macetes e manhas que um jornal poderia ter em determinadas situações.  Com a aproximação das eleições, percebemos que não dava mais para continuar, pois o jornal seria o braço político de um dos candidatos e certamente ficaríamos no lado oposto. O sinal de alerta foi ligado quando, na indefinição de candidatos, apareceram na redação, para uma vista cordial, ninguém menos que a dupla Élio Gomes e Roberto Schineidewind, fato que foi devidamente noticiado. Foi a gota d’água.  Saímos, eu e o Zé Aparecido, e fomos fundar o jornal Correio do Porto, nome que criei e ele aprovou prontamente. Em casa, eu e o Emerson, fizemos toda a programação visual: o título em azul, as colunas e marcas do Correio, com a foto de um antigo guindaste do porto em alto contraste; passamos a utilizar também um desses ícones stander (pombinho-correio) como símbolo promocional. Escolhemos como modelo de design o jornal Zero Hora, de Porto Alegre, e passamos a compor as colunas. Para incrementar o projeto, fizemos uma reunião na casa do Zé Aparecido, na qual compareceram, juntamente comigo e os diagramadores Emerson e Henrique, os novos sócios do jornal: Olívia Pires, Sérgio Maroto, Valdenir Pita e Amarildo Cruz. A primeira edição foi impressa na gráfica do jornal Integração, em Venceslau, cujo primeiro número, fresquinho, logo caiu nas mãos do Toninho Moré, que nos convidou (Eu e Zé Aparecido) para uma entrevista na rádio FM 95. A sorte estava lançada e, como era previsto, o jornal foi sendo publicado com subsídios dos sócios, pois havia uma grande dificuldade de conseguirmos anunciantes dispostos a endossar o conteúdo político das matérias. Pouco tempo depois, no final de 1997, mudei para Campo Grande. Em 1998, um ano após a fundação do Correio do Porto, ocorreria a morte do Juliano Lima, num acidente automobilístico na rodovia Raposo Tavares, fato que não me surpreendeu, pois sabia de certa forma, que ele não tinha muito tempo de vida, dadas as características da sua breve existência: muito jovem, uma rápida ascensão social marcada de enorme ansiedade de realização, que muitos confundem como simples ambição pessoal. Ele realmente não tinha muito tempo, pois essa fatalidade aconteceria, cedo ou tarde, durante o período estabelecido para a sua desencarnação, que é normalmente de um ano, salvo raríssimas exceções. Meses antes ele já tivera um sinal de que iria partir em breve, quando sofreu um choque anafilático durante um evento esportivo no estádio Pirangueiro. Nessa ocasião, sua morte foi interrompida pelo diagnóstico do Dr. Tito Lívio, na Santa Casa, ao perceber sua aparência física e uma enorme dificuldade de respiração.


COMPROMISSOS DA ALMA

Já conhecia Campo Grande de viagens que tinha feito na infância e adolescência, quando fui conhecer Corumbá e Porto Suarez, na Bolívia, viajando no famoso Trem do Pantanal. Também visitava frequentemente a cidade, ficando hospedado na casa de alguns amigos: Carlos e Lenir, primos da Lana (minha primeira companheira), antigos moradores de Campo Grande; Eduardo e Marília Lugli, ela professora de educação física e ele comprador de gado do Frigorífico Bordon; e também do Fernando e Beth Otoboni, epitacianos que foram viver em Campo Grande. A Beth faleceu com duas das suas três filhas (Fernanda e Fabiana), por hipotermia, num naufrágio de pescaria em Corumbá, em 1996. Em janeiro de 1998 o amigo Carlos também faleceu, vítima de um aneurisma.

Fiquei em Campo Grande pouco mais de um ano. Nesse período dava aulas em cursinhos, incluindo o curso do Amizo, amigo que gentilmente dizia ser eu “o melhor professor de História do Estado” (ficava em dúvida se ele falava sério ou se não havia realmente muitas opções). Interessante como a gente é atraído para se ajudado e ajudar os semelhantes na mesma situação de dificuldades. O Prof. Amizo tinha uma história muito parecida com a minha. Desiludido com a educação foi tentar ser empresário no comércio quando houve explosão turística de Bonito. Mudou-se com a família e lá montou uma distribuidora de bebidas. Rapidamente foi elevado a presidente da associação comercial, pois era descendente de libaneses e visto como alguém que iria certamente prosperar no novo negócio. Rindo, ele me contou que foi um fiasco. Não conhecia o lado administrativo dos negócios, embarcou no entusiasmo de muitos e logo foi à falência. Sua derrocada começou quando, ele mesmo dirigindo um caminhão cheio de bebidas, resolveu cortar caminho e entrou numa estrada que economizaria uns 15 quilômetros de viagem e algum combustível. Não sabia que estava entrando numa reserva indígena. O caminhou quebrou. Deixou seu ajudante cuidando da carga e foi buscar ajuda numa fazenda próxima. Quando voltou viu seu caminhão rodeado de índios que consumiram em pouco mais de uma hora quase todo o estoque de bebidas. O que não foi consumido foi rapidamente levado para a aldeia. Tentou protestar, mas não teve jeito. Índio não conhece leis civis e nem as regras do capitalismo. Foi o início do fim. Um ano depois da aventura empresarial estava de volta ao magistério. Quando o conheci tinha arrumado um investidor que lhe oferecera sociedade num colégio. Teve a esperteza de recusar e começou a promover cursos por conta própria. Me dizia: “Preciso muito de você e já faz parte da minha equipe. Aconteça o que acontecer, essa cidade vai saber agradecer a sua vinda para cá. Aqui não tem professores como você”. Continuava sonhador e entusiasta. Trabalhamos e até ganhamos um dinheirinho que dava para pagar as despesas.

 Em Campo Grande também lecionei também no colégio da Fundação Lawtons, após passar por uma rigorosa seleção. Mesmo assim, tive que pedir ajuda a amigos para auxiliar na reta final, quando a disputa pela vaga ficou apenas entre dois candidatos e dependia da apresentação de referências pessoais. Quem me deu um empurrão nessa fase foi Seu Carlito Pires, que telefonou para um dos diretores da Fundação, contando a minha história, revelando sua condição de maçom, e os motivos da minha saída de Epitácio.  

Nesse ano de 1998 também participei da campanha para governador do Zeca do PT. Essa última experiência foi uma grande força dada pelo Amarildo Cruz, primo, amigo de infância e sangue de Tibiriçá, que fez carreira política brilhante como sindicalista tributário, administrador público e deputado estadual.  

Apesar das inúmeras dificuldades e colheitas amargas - aquele foi também um ano de dádivas, generosidades, provas de amizade e solidariedade por parte de pessoas conhecidas e de outras que tivemos a “sorte” de encontrar e travar relações de afeto. Vivi dias inesquecíveis numa cidade linda e muito fraterna, com gente de uma brasilidade pura e comovedora.  Morava num bairro simples e muito gostoso – Santa Fé – no final da extensa Rua das Garças, em casa alugada na confiança, propriedade de um empresário, também desiludido, que estava voltando para sua terra natal no Paraná. Uma troca bem curiosa... Fazia caminhadas diárias no lindíssimo Parque das Nações Indígenas, povoado por araras azuis e tamanduás. Fazia bicos em jornais, agências de publicidade, frequentando, por isso, muitos leilões e feiras agropecuárias. Nas noites ociosas ministrava cursos de oratória, atraindo líderes rurais, empresários, vendedores, advogados, médicos e dezenas de futuros candidatos. Esses cursos, que já havia ministrado no Senac de Presidente Prudente, eram muito divertidos, reunindo pessoas de todos os tipos e uma diversidade de ideologias. Todos saíam satisfeitos, cheios de esperança e eu com muitas novas amizades. 

Era fissurado pelas comidas típicas sul-mato-grossenses: churrascos de carne de sol e de sereno; linguiça de Maracaju (feita de carne de vaca) e também as especialidades pantaneiras. Entretanto, todas as minhas tentativas de estabelecer compromissos mais duradouros em Campo Grande foram em vão. Frequentei várias casas espíritas, era bem acolhido, mas logo recebia um sinal de que não podia ir muito além das pequenas colaborações. Mesmo me sentindo derrotado e envergonhado, conseguia fazer palestras de conteúdo doutrinário falando da importância de saber lidar com as próprias dores. Nas escolas pela quais passei os alunos que se apegavam a mim, também davam sinais do meu destino. As crianças me entregavam desenhos nos quais eu era retratado partindo em viagens sem volta, se despedindo; alguns adolescentes perguntavam, com os olhos brilhando, se, quando eu fosse embora, poderia levá-los comigo para “São Paulo”. Trouxe todos, na memória e no coração. Interessante que alguns desses jovem de Campo Grande, quinze anos mais tarde, revolucionariam a música sertaneja dando a ela um ritmo mais pop e acelerado, influência gaúcha e guarani.

Trabalhando no escritório de comunicação da campanha do Zeca, aprendi bastante sobre propaganda ideológica, muito sob a supervisão técnica de militantes idealistas que há muito sonhavam com a chegada dos partidos de esquerda ao poder.  A Era FHC começava a produzir os primeiros efeitos da grande recessão que explodiria em 1999. Lula começava a ser cogitado de forma mais concreta como uma nova promessa para as massas.  Muito “vermelha” para o meu gosto, achava que esse fator e tendência na campanha petista ainda assustava o eleitor comum sul-mato-grossense, muito conservador, de mentalidade reacionária e subserviente (herdada dos empregados de fazendas).  Sugerimos então, com muita sutileza, uma pequena mudança estética e conceitual na campanha, usando crianças e o maravilhoso hino do Estado, composto pelo grande maestro Radamés Gnatalli, com letra ufanista e heroica regional de Jorge Antonio Siufi e Jorge Gonçalves Gomes. Ficava assistindo até tarde a TV Educativa, que encerrava a programação com cenas locais e hino, interpretado magistralmente por um coral da cidade. Achava linda demais essa obra-prima musical para ficar escondida no fim da madrugada ou restrita às comemorações cívicas. Surpreendentemente contrariando, em parte, as recomendações de José Dirceu (que havia visitado nosso escritório) a ideia passou pela cúpula do partido e criamos novas peças gráficas, outdoors, spots de rádio e filmes para TV, colocando muitas crianças (sugestão de alguns amigos não petistas, mas simpatizantes) e também misturando tons vermelho e verde nas peças visuais. Foi um sucesso e, me disseram alguns eleitores neutros, “decisivo” nas duas últimas semanas de uma difícil campanha contra o candidato da máquina estadual, do PMDB. A campanha adversária usava belas e caras imagens aéreas do pantanal com um jingle sofisticado e nós o hino do estado e cenas urbanas de pessoas vindas do interior e que sonhavam com a prosperidade na Capital. O apoio do ex-governador Pedro Pedrossian (eliminado no primeiro turno) também ajudou muito, por meio da intermediação do deputado Ary Rigo. Ali percebemos realmente que em política só existem dois lados: o dentro e o de fora.

Ganhamos a eleição, mas sabia que não permaneceria na cidade, onde tive boas oportunidades, inclusive para trabalhar diretamente com o futuro governador. Agradeci ao Amarildo, mas queria e precisava voltar para São Paulo.  Duas semanas antes de deixar a cidade tive um sonho no qual me via criança atravessando, com muito medo e incerteza, a movimentada Avenida Ceará segurando a mão da minha mãe, que viera me buscar. Meses antes tinha recebido do Zoca (Elizeu Xavier), informações sobre o concurso para professor do Estado. Numa das idas a audiências em Venceslau e Prudente, em companhia no meu anjo jurídico Vanildo “Chinês”, epitaciano e morador de Rio Brilhante (MS), me inscrevi no tal concurso. Fiz as provas em São Paulo em duas longas viagens de ônibus, nas quais lia as apostilas da APEOESP. Passei e esperei a vaga durante um ano quando, por decreto do governador Mário Covas, escolhi um cargo na E.E. Narbal Fontes, na Vila Maria, em São Paulo. Covas morreria exatamente um ano depois.

Voltando para São Paulo, em 1999, enquanto aguardava a nomeação no Estado, imediatamente ingressei num programa de pós-graduação. Queria dar aulas em cursos superiores mas esbarrava na titulação acadêmica. O aluguel da minha casa em Epitácio pagava a mensalidade e as demais despesas eram garantidas pela Dona Jacy. Dizia ela: “É a pensão do seu pai, que ele deixou para essas ocasiões”.  Como sempre, investir em conhecimento dá um retorno diferenciado, não diretamente financeiro e sim o desbloqueio mental, nos libertando dos antigos paradigmas. Queria conhecer outras áreas de pesquisa e tendências. Nesse mestrado tive aulas com professores da Escola de Comunicação e Artes da USP-ECA e Unicamp, contratados pelo programa da Unip. A ideia era estudar o universo das mídias e saber como elas se abasteciam com os conteúdos das artes plásticas e da literatura. Acertei na mosca. Grandes aulas, muitos debates, leituras fascinantes e professores de alto nível nas áreas de cinema, antropologia, jornalismo cultural, marketing e literatura de vanguarda como Ana Maria Balogh, que seria minha orientadora. Era um mundo que eu desconhecia e tive que me adaptar com muitas dificuldades, mesmo tendo certas habilidades intelectuais. Dois anos depois já estava dando aulas no ensino superior, na Baixada Santista. Tive como membros da banca examinadora do mestrado a Professora e Doutora Yolanda Lulier, socióloga da USP e docente da USP; e o Professor Doutor Adilson Ruiz, da UNICAMP especialista em cinema.  Yolanda Lullier me disse ser descendente de socialista utópicos franceses radicados em Santa Catarina (Colônia de Benoit Julles Mure) nas qual tinham muitos membros da futura Sociedade Espírita de Paris.  Essa pós-graduação em strict-sensu também permitiu que fosse promovido duas vezes no Estado: uma pela evolução funcional titulada não acadêmica, em pontuação de aulas, mas alterando minha categoria e nível funcional. Recebi em dinheiro, como diferença salarial enquanto corria o pedido de evolução praticamente tudo que investi no curso; a outra foi uma prova de mérito, que exigiu leituras mais apuradas sobre os conteúdos novos da minha disciplina. As dificuldades superadas no mestrado tornavam essas novas leituras relativamente fáceis. 

  Nesse mesmo período do mestrado voltei a frequentar os programas da Aliança Espírita Evangélica, no CEAE, na rua Genebra, e restabeleci contato com antigos companheiros do CVV, na rua Abolição e também na Comunidade Terapêutica Francisca Júlia, em São José dos Campos. Eram antigos compromissos que precisavam ser realizados. Entretanto, o ponto de referência para esse reencontro estava no litoral. Trabalhava em São Paulo com a cabeça em Santos e São Vicente, pensando em todas as coisas que ali aprendi e realizei na companhia de grandes amigos e companheiros de ideal. Pedi remoção para várias cidades na Baixada Santista e consegui ir para uma pequena escola chamada Lions Clube Centro, em Praia Grande. Na verdade houve um engano, da minha parte. A Escola Lions Clube para qual havia feito a indicação de remoção (e que tinha visto em um dos fins de semana que passei num apartamento da Vila Tupi) era outra escola, da prefeitura.  Já a Escola Lions Clube Centro, para qual fui removido em 2002, era do Estado, localizada na periferia, bem longe da praia e de casa. Morava nessa época em Santos, próximo do Canal 1 e do Orquidário. A decepção da escolha e do resultado do concurso de remoção logo foi compensada por um convite para atuar, ainda em Praia Grande, como vice-diretor na E. Júlio Secco de Carvalho, uma pequena escola no remoto e bucólico bairro do Solemar, quase divisa com Mongaguá. Ali e fiquei por três anos desfrutando do convívio de pessoas com histórias de vida muito interessantes. Recebíamos muitas pessoas que vinham morar nas casas de praia, geralmente motivadas por graves problemas pessoais: doenças, mortes de familiares e graves problemas financeiros. Outros eram mais simples, não menos interessantes, que vinham do nordeste, trabalhar na temporada como ambulantes e nos serviços domésticos para os turistas. Professores e funcionários também se vincularam à escola pelos mesmos motivos.

 Foi nesse período que também iniciei a carreira de professor universitário, a convite da Professora Amarilis Lima, por iniciativa dos colegas Adriana Pagiossi, do Lions e Marcos Ferreira, ambos professores do Lions. Ingressei como docente de História e Filosofia da Educação na Faculdade Integração tendo como colegas nessa área o Padre Castilho e o Marco Aurélio Goes. Em 2007 a faculdade foi vendida para o grupo educacional UNIBR, o que nos obrigou a dar maior versatilidade na carreira, atuando como professor de Humanidades em vários cursos de bachaerelado, tecnológicos e não somente nas licenciaturas. Essa mudança também foi importante para ampliar o círculo de amizades com educadores mais experiente e de diversas áreas, a maioria antigos docentes das universidades de Santos e também alguns de São Paulo.

Nessa época também, entre 2006 e 207, deixei a vice-direção da E.E. Júlio Secco de Carvalho e voltei para a docência de ensino básico, novamente removido, agora para a E.E. Margarida Pinho Rodrigues, em São Vicente. A Vila Margarida é um antigo bairro periférico cortado pela rodovia dos Imigrantes e famoso por abrigar a maior favela da cidade: o México 70, hoje em grande parte reurbanizada. É um dos pontos sociais mais críticos e nevrálgicos da Baixada Santista, composto em sua grande maioria de famílias de retirantes nordestinos. A vila é reduto da marginalidade mas também é celeiro de muitos talentos. Devo dizer que a minha ida para o “Pinho”, bem como de outros colegas, não deve ter sido obra do acaso. Precisava aprender e ensinar coisas importantes, muito mais com os sentimentos e atitudes do que com o intelecto.  O convívio com jovens em permanente situação de risco social e que têm a escola como única fonte de esperança e transformação é uma experiência indescritível para os educadores. É nesse cenário de fortes dualidades entre o determinismo e o livre-arbítrio que podemos avaliar os limites e possibilidade da educação e da transformação social. Ao mesmo que me deparava com jovens revoltados e agressivos (comigo nunca), já comprometidos com o mundo do crime, encontrei ali também um ambiente onde ainda pude constatar os antigos valores de família. 

Voltando às questões espirituais, além das sessões espíritas domésticas na casa do meu avô Carlos dos Santos – e também na minha casa-, frequentávamos as atividades do Centro Espírita Fé, Amor e Caridade, presidido pelo Mestre João (João Batista dos Santos), cujo título de mestre nunca teve nada a ver com as práticas espíritas em sim com a sua profissão de torneiro mecânico. Achava muito interessante essa rotina de ir ao centro, assistir às sessões noturnas, tudo muito discreto, tudo muito simples, porém cheio de promessas que despertavam no meu íntimo algo muito especial para a minha alma.  Frequentávamos também algumas casas de amigos que cultivavam práticas espíritas. As preces da Dona Maria Barbeiro (Mãe da Dona Dorinda e sogra do Dr. Alberto Assad) me causavam forte impressão, pelo acentuado sotaque português e pela sincera expressão dos seus sentimentos. Nunca esqueci o contato com o nosso primo Olívio Xavier Duque, pessoa muito alegre que conheci quando criança de duas formas: visitando minha casa e conversando com meus pais; e já do outro lado, saudando-nos (Madinha Manoela, Vó Maria, Dona Jacy e eu) pela mediunidade simples do Sr. Chiquinho (Jararaca).

Certa ocasião, numa dessas sessões caseiras, minha mãe recebeu um “conselho” de um Espírito dizendo que não deveríamos mudar para Santos, pois tudo indicava que as coisas “não dariam certo” e que, brevemente, estaríamos de volta a Epitácio. Numa reação bem previsível e diria, bem kardecista, minha mãe decidiu não seguir esse conselho, mesmo porque sabia que espíritos sérios e superiores não dão conselhos de forma diretiva, nem interferem dogmaticamente na vida pessoal dos encarnados e das instituições. O que poderia ter acontecido? O médium ou intermediário, que havia passado por uma experiência semelhante e que realmente não havia dado o resultado que esperava, nesse caso, deixou-se influenciar por esse fracasso. Ao transpor a mensagem, interferiu sobre as ideias do suposto Espírito comunicante, num processo típico de ruído de comunicação ou então, como se diz entre os espíritas, “animismo”. Mudamos e deu tudo certo, como era previsto por todos nós, dentro das limitações esperadas.

Em São Vicente fazíamos as nossas sessões domésticas, leitura do Evangelho e, quando necessário, um intercâmbio com o Plano Espiritual. Logo fomos descobertos por uma vizinha, Dona Cleide, que havia se mudado de São Paulo para o litoral, onde também fazia suas buscas por alguma casa ou alguma novidade no movimento espírita. Como nós, ela procurava algo diferente daquelas antigas e tradicionais sessões de penumbra e desobsessão. Nessa época eu estava ingressando na adolescência, porém não perdi o antigo interesse. Minha mãe conta que há muitos anos (na década de 1960), havia lido um artigo numa revista espírita falando sobre a Escola de Aprendizes do Evangelho, existente na Federação Espírita do Estado de São Paulo-FEESP, sob a direção do Comandante Edgard Armond (coronel aposentado da antiga Força Pública). A imagem do Comandante na reportagem, em pé com as mãos para trás da cintura, ficou gravada na mente dela como um sinal de algo que ela já conhecia e do qual precisava se aproximar. O encontro com Escola se daria por meio dessa vizinha, que conduziu minha mãe para cursar uma turma no Centro Espírita Irmão Timóteo, na rua Armando Sales de Oliveira, 53, na Vila Melo. A turma tinha dirigente e expositores vindos de São Paulo, então ligados a um novo movimento cultural: a Aliança Espírita Evangélica, fundada em 1973 por ex-membros da FEESP sob o patrocínio do próprio Armond. Esse grupo que se formou na Baixada Santista fundaria nos próximos anos, entre 1975 e 1985, cinco novas casas espíritas e também o comitê que deu origem aos postos do CVV na região do litoral sul.

O programa e as reuniões da Aliança em São Paulo eram uma grande novidade para todos nós, algo muito diferente e dinâmico e que tinha como princípio capacitar pessoas para andar com as próprias pernas, atuando de forma independente e multiplicadora. O sistema educativo era revolucionário, não apenas conteudista, intelectual e quantitativo, mas um método iniciático gradual, qualitativo, prático e formador de ativistas. Era o que minha mãe procurava há anos e eu acompanhava de perto, mesmo estando na turma da Mocidade, frequentando informalmente todos os cursos para adultos: escola de aprendizes, oratória para expositores, psiquismo, cromoterapia, passes e radiações, formação de médiuns, tudo apostilado e com farto material audiovisual numa época em essas coisas eram novidades tecnológicas raras: slides, vídeo-tape, fono-postal, livros, apostilas impressas padronizadas, etc. Em pouco tempo tinha adquirido o domínio intelectual quase completo desse sistema; só não tinha o principal: a maturidade espiritual necessária para aprender e ensinar pelo exemplo e vivência. Isso levaria muito mais tempo.

Essa foi basicamente a minha iniciação no Espiritismo, atividade da qual nunca me afastei totalmente, mesmo reduzindo minha participação direta em instituições espíritas. Minha afinidade com a comunicação escrita e oral sempre abriu oportunidades de colaboração e isso se intensificou no início da década de 2.000, quando decidi escrever e publicar na internet artigos, ensaios e livros sobre o assunto. Um ano antes, morando em Campo Grande (MS), desenvolvi uma adaptação das obras básicas de Kardec para um formato de bolso denominado “Evangelho do Dia”. O piloto dessa publicação, impressa na gráfica do Bonilha, foi testado numa promoção com um centro espírita local e a tiragem de mil exemplares foi rapidamente esgotada. Esse formato seria concluído em seis volumes.

Em 2001 escrevi simultaneamente dois ensaios, que refletiam ao mesmo tempo a curiosidade pelos temas novos, bem como a crise pessoal e a busca interior decorrente. A Inteligência Espiritual e Você em busca de você mesmo foram vendidos durante uma década e até hoje recebo cartas e e-mails de pessoas questionando conceitos ou agradecendo a utilidade dos textos na compreensão de dificuldades íntimas. Nesse período, quando cursava o mestrado, tomei a decisão de iniciar a Nova História do Espiritismo, trabalho que serviu de base na minha dissertação e também, creio, para preencher uma lacuna deixada por Kardec ao perguntar num artigo da Revue Spirite: Quando ela aparecerá? No Brasil havia a tradução da obra de Sir Arthur Conan Doyle, escrita em 1926, porém a narrativa não ia (quase nada) além do aspecto fenomenal e da história dos médiuns de efeitos físicos. O livro do célebre escritor inglês tratava mais dos fatos do espiritualismo do que propriamente da filosofia do espiritismo.

A Nova História do Espiritismo foi concluída quando voltei a morar no litoral, trabalhando como vice–diretor na Escola Estadual Júlio Secco de Carvalho, em Praia Grande. Em seguida, escrevi o ensaio “Espíritos nas Escolas”, texto voltado para os educadores, indicando que não há necessidade de fazer proselitismo doutrinário para divulgar o espiritismo em ambientes não espíritas. Nesse período, 2006, estava trabalhando como professor em São Vicente. A partir de 2007, ingressei no universo digital dos blogs e das redes sociais. Desde lá venho publicando minhas impressões sobre diversos assuntos, espíritas ou não.

Meu interesse e vocação pelas coisas espirituais nasceu, portanto, das andanças seguindo os passos da minha mãe que, já tinha quatro filhos maiores, mas somente eu tinha interesse mais aguçado pelo assunto. Como todos os brasileiros, nossa família herdou o catolicismo por convenção social, porém ele nunca satisfez as nossas inquietações espirituais mais íntimas, nem a busca de respostas para as dúvidas mais profundas. Entretanto, o conhecimento das coisas espirituais do mais Além sempre foram mais fortes e influentes.

Recentemente perguntei a minha mãe quem foi João Puba e logo sua fisionomia grave transformou-se num sorriso, fruto de uma grata recordação de infância. João Puba era o jardineiro da gerência do Serviço de Navegação da Bacia do Prata e que sempre demonstrou um grande afeto pela minha mãe. Pai de uma grande prole e originário do sertão de Minas Gerais, seu João Puba era cultuador da Festa de Folia de Reis em Tibiriçá e minha mãe e suas amigas eram encarregadas de arregimentar as crianças para abrilhantar a festa e não deixar morrer a tradição que ela tanto presava. Pessoa de aparência e hábitos simples, seu João Puba cumpria à risca as ordens dos superiores para manter a ordem e a beleza da Vila Tibiriçá como se fosse um grande jardim de todos que ali moravam. Conta-se que no dia do falecimento de Armênio Ribeiro, o velho jardineiro estava muito preocupado e logo cedo tratou de cuidar para que o enterro do chefe do Distrito fosse realizado conforme a vontade do morto, que lhe havia solicitado por diversas vezes para que não fosse esquecida sua última vontade ao partir de Tibiriçá. Aproveitando a fartura da época, Seu João Puba logo se apressou, pois não havia muito tempo para que a tarefa fosse realmente cumprida. Os amigos vendo-o quase em estado de aflição, com medo de não conseguir cumprir o que havia prometido, tentavam dissuadi-lo a fazer somente o que fosse possível, mas seu João não concordava. Queria fazer tal qual fora bastante recomendado. Graças a ele, o enterro, que seria realizado no antigo cemitério de Epitácio, teve um momento especial de beleza, gratidão e respeito pelo chefe que partia. O trecho entre a porta da Casa da Gerência até o Mata-Burro, próximo ao aeroporto, não era curto e também não era muito longe, porém, naquele dia triste e inesquecível, o chão, sem falhas no percurso, estava forrado de centenas pétalas de rosa e provavelmente milhares de pétalas de flores de primavera.

Mas o sorriso de minha mãe não foi somente por ter tido essa lembrança da agonia do velho amigo jardineiro e do enterro do Seu Ribeiro. Ao ser questionada por mim, ela respondeu prontamente:

“O Espírito do Seu João Puba foi a minha primeira vidência. Numa noite, logo após o jantar, enquanto o Padrinho Guilherme (Borges) lia na sala, intuitivamente me dirigi para a porta que dava para o quintal e deparei com um forte estrondo seguindo de um enorme e inexplicável clarão. Lá estava o Seu João Puba sob as árvores, com a mesma roupa simples, sorridente e segurando sua boa e velha enxada de trabalho. Era um sinal de que ele me acompanharia na minha tarefa espiritual até que pudesse aprender a lidar sozinha com a minha mediunidade”.

Em nossa família, todos, de alguma forma, tiveram contato com essas informações sobre as verdades espirituais e recebeu essa influência com as respectivas repercussões íntimas para cada um. Nenhum de nós, portanto, poderá alegar ignorância e falta de oportunidades, caso algum dia nossas consciências façam esse tipo de cobrança. Fomos batizados mais por respeito espiritual aos padrinhos católicos, que faziam questão do ritual, do que por convicção religiosa. Minha filha não foi batizada e essa foi uma decisão tomada em conjunto por mim e pela mãe dela, com a certeza de que isso jamais teria algum tipo de implicação de menor ou maior gravidade no seu destino.

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