domingo, 15 de setembro de 2013

NADA SERÁ COMO ANTES








Lembranças funcionam como um filme na cabeça da gente. Parece uma sucessão de quadros, como no cinema. Isso acontece a todo instante, mas de forma mais apurada quando estamos sós, pensando na vida. Muitas vezes esse estímulo vem de pessoas, de situações ou de objetos que nos remetem automaticamente ao passado. Vi numa foto a primeira casa em que morei. Era de madeira, tinha uma varanda enorme, dessas em que as pessoas ficam conversando despreocupadamente. Essa casa ficava na Belo Horizonte, em direção ao cemitério velho. Nessa foto estou no colo da minha “Madinha Manoela” (Manoela Borges), que não era parente do nosso sangue, mas tinha um vínculo espiritual muito forte com todos nós. Ela adotou e criou minha avó, retirante do sertão baiano; adotou e criou minha mãe e praticamente meus quatro irmãos. O meu irmão caçula, adotado de uma família ribeirinha do Porto XV, chegou para passar alguns dias em nossa casa, enquanto a mãe dele se recuperava de uma grave infecção no hospital. Por causa do destino, ficou para sempre, após o falecimento da mesma. Anos depois, uma tia nossa com dons mediúnicos, observando essa criança, identificou nela a figura do pai de dona Manoela Borges, reencarnado. Quando os meus avôs chegaram ao Porto Tibiriçá, vindos ainda jovens do Rio de Janeiro e da Bahia, também receberam de Dona Manoela abrigo e proteção. Dessa casa não lembro quase nada. Minha primeira lembrança vem da casa em Tibiriçá.


Nossa casa em Tibiriçá foi uma espécie de presente de casamento para os meus pais, dado pelo Tenente Gilberto, interventor militar do Distrito de Tibiriçá e que se tornou muito amigo da nossa família. O tenente era do tipo bonachão, sempre muito simpático e dele todos guardam boas lembranças por causa do seu gosto por festas populares, sobretudo as da época junina, quando mandava construir uma grande fogueira próxima ao mastro da bandeira.  Construída a partir de 1954, a nossa casa, na verdade da Bacia, era uma das poucas construídas em alvenaria. Tinha cômodos grandes e um quintal espetacular, sem luxo, mas enorme, cheio de árvores frutíferas e ornamentais e de muitas possibilidades para fantasias de criança. A varanda em “L” revestida de ladrilho ocre, muito usado nos anos 60, servia para refrescar o corpo nos meses de calor.


Em frente de casa tinha um enorme campo de futebol, rodeado de árvores de cedro. Apanhei muito da minha mãe, nas pernas, com uma varinha seca que se acumulava debaixo dessas árvores. Embaixo de alguns desses cedros também tinham bancos feitos de madeira. Na esquina próxima tinha um que era o mais frequentado da vila, até altas horas da madrugada e por isso era chamado de “Banco do Pecado”.


Do outro lado do campo tinha algumas casas e um clube, onde funcionavam o serviço de autofalante, o salão de bailes e o cinema, este último sob a gerência do meu avô Carlos dos Santos.  


Do período em que moramos nessa casa de Tibiriçá lembro de algumas coisas marcantes. Minha mãe chorando na varanda ao receber a notícia de que um tio nosso tinha tentado suicídio com um tiro na cabeça. A bala ficou alojada num dos ouvidos. Quando esse tio vinha em casa me deixava impressionado ao vê-lo, durante as refeições, mastigar vagarosamente para não sofrer a dor causada pelo projétil.  Essa tentativa de suicídio, bem como outros casos consumados, teria uma repercussão ainda maior em nossas vidas, eu e minha mãe, nos deixando muito impressionados, servindo para nos aproximar de um grupo de pessoas que, desde1961, realizava um trabalho voluntário de prevenção do suicídio em São Paulo. Era o CVV-Centro de Valorização da Vida, que a partir de 1977 passava a expandir suas atividades pelo Brasil e América do Sul. Nesse projeto, ajudamos a fundar postos do CVV em Santos, São Vicente, Guarujá e também passamos a colaborar com as obras assistenciais do CVV em São José dos Campos: o Hospital e Comunidade Terapêutica Francisca Júlia, para doentes mentais sem recursos; o Lar Esperança, para crianças órfãs e a Casa Jesus Gonçalves, para crianças com paralisia cerebral grave. Trabalho inspirado no livro Memórias de um Suicida, de Yvone Pereira (pelo Espírito Camilo Castelo Branco), descobrimos, mais tarde, que todas essas atividades era um compromisso que tínhamos com esses doentes, na verdade espíritos que haviam cometido suicídio em outras existências e que agora atuavam no trabalho voluntário e preventivo. A história do CVV, de nossa autoria, está relatada no livro Como Vai Você? – CVV, 50 anos ouvindo pessoas.

Outra cena marcante na época de Tibiriçá, na margem do rio, próximo a Bomba D´água, foi a chegada dos corpos de três funcionários da Bacia (Júlio César, e os irmãos Ênio e Fortunato) que morreram afogados durante um temporal noturno, quando pescavam. Júlio era paraguaio, casado com a tia Ester, irmã do meu pai.

Fui uma criança portadora de sonambulismo, cujas crises de febre emocional eram constantes e me faziam, tarde da noite, sentar na janela e denunciar para minha mãe a presença de “pessoas” andando no campo. Eram também os primeiros sinais da mediunidade. Moramos em Tibiriçá até 1967, período no qual a Bacia do Prata estava encerrando suas atividades e seu patrimônio sendo sucateado. Os moradores da Vila Tibiriçá, que poderiam por direto ter permanecido em seus lares, foram sendo pressionados a deixar as casas. O corte de energia e água, bem como ameaças indiretas foram algumas dessas formas de pressão, certamente estimuladas por alguns políticos e comerciantes de Epitácio interessados na rápida desmontagem do Distrito. O regime militar contribuiu também para que esse processo de desocupação da vila ocorresse de forma criminosa e impune. Os antigos moradores, a maioria gente simples e despolitizada, não tinha meios de reagir e se defender contra esses abusos, pois temiam represálias por parte dos poderosos.

Entre 1968 e 1970, já estávamos residindo em Epitácio, primeiro na Rua Maceió, em frente a um enorme terreno baldio no qual mais tarde seria construído o prédio dos Correios. Os vizinhos eram Seu Quito e Dona Almeri; Lauro e Silvia; Josias, mãe e irmãos; Gabriel e Pedro Benjamin e Rafael Constant; depois na Rua Curitiba, Dona Mercedes, Renato Aranha, Ricardo e Olívia, Dona Maria Barbeiro, e a Escola de Admissão do Professor Waldemar Lourenço.

Depois, na Rua Cuiabá, tivemos como vizinho até 1973 o Sr. Rogério Pelegrini, imigrante italiano e ex-colono da Fazenda Santa Cruzinha, antiga propriedade da família de Rachid Murad. Essa fazenda mais tarde foi dividida entre os arrendatários e antigos funcionários que tornaram-se sitiantes, muitos deles vindos de Cafelândia e foram os primeiros fornecedores da primitiva feira de Epitácio. Com muitos descendentes na cidade, seu Rogério vivia uma velhice simples e era para nós um forte exemplo de persistência e sabedoria.  Viúvo e vivendo em companhia de Dona Olívia e da Cida, filha dela, mantinha-se ocupado cultivando uma horta e mudas de café; fumava curiosos cigarros de palha, cujo cheiro se espalhava por toda a vizinhança. Ele sempre contava para minha mãe que, ao ficar viúvo e com muitos filhos pequenos, recebia a ajuda do espírito da própria esposa para cuidar da casa.

Nosso quintal, com um amplo pomar, plantado pelos meus avós maternos, fazia fundos com várias casas. Abacateiro, jaqueira, dois umbuzeiros, pé de tamarindo, pés de cajá-manga e cajazinho, pé de jenipapo, duas mangueiras, pés de pinha, duas jabuticabeiras e muitas goiabeiras. Do lado oposto ao seu Rogério morava com os netos Beto e João Batista dona Elvira, mãe do Sr. Alcides, administrador da Fazenda Jacutinga (na época do pecuarista José Macário Perez, mexicano radicado em Araçatuba). Eles, mineiros de Tupaciguara, tinham como vizinhos a casa de Dona Maria (mãe do Agenor e Batistinha), antes construída e habitada por José Vespasiano de Aragão Bulcão, conforme estava inscrito num banco de cimento cravado na calçada. Este também era um antigo chefe de comitiva de boiadas, proveniente da Santa Cruzinha. Em frente apenas três vizinhos: Victor Fazinga e Dona Irene; Dona Rosa e Seu Henrique, cuja horta ocupava grande parte da quadra; e o professor Zezão (da carça larga), vizinho da Igreja Metodista. Esse bairro, Santa Rosa e Vila Maria, ainda era pouco habitado e na época considerado distante do centro da cidade, mais próximo das serrarias e das casas de operários.

Em 1968 entrei na primeira série da escola primária, no Grupo Escolar Engenheiro Orlando Drumond Murgel, na esquina das Ruas Curitiba e João Pessoa. Tinha seis anos de idade e completaria sete somente em agosto. Dona Raquel Ribeiro foi minha primeira professora. Era rigorosa e constantemente fingia não me reconhecer para que eu não confundisse as coisas. Eu sabia que ela era de Tibiriçá, na época esposa do seu Marino e nora do Sr. Armênio Macário Ribeiro, antigo chefe do Distrito. A escola de Tibiriçá e o grupo de escoteiros também tinham nome do Sr. Armênio. Gaúcho e tradicionalista, foi ele quem trouxe para Tibiriçá a ideia da procissão de Nossa Senhora dos Navegantes, festejo tradicional no rio Guaíba em Porto Alegre.

Na sequência de séries escolares tive como professoras Dona Maria Batista e depois Dona Filomena, respectivamente esposas de Armando Andrino e Alziro Baltazar, portugueses do ramo madeireiro. Quando retornei para Epitácio e colaborei como redator de A Fronteira, na década de 1990, pude conhecer melhor seu Armando Andrino, com quem tinha longas e gostosas conversas sobre a cultura e os hábitos portugueses. Recebia dele semanalmente um jornal da região de Leiria, onde havia nascido, e do qual tirávamos informações para a coluna “Notícias de Portugal”. Publicava as notas originais, cujo estilo era notícia normal aos portugueses locais, porém soava muito engraçado para os brasileiros.

Minha trajetória escolar pode ser definida como desastrosa e medíocre, protegida por educadoras tradicionais e ao mesmo tempo, talvez muito intuitivas. Não tinha a menor capacidade concentração e era basicamente um aprendente por imagens. Isso explica minha rápida alfabetização pela famosa cartilha Caminho Suave, cujas gravuras das letras e bichos estão até hoje guardadas na memória. Fui sendo generosamente empurrado. Às vezes fico lembrando e pensando muito da vida escolar do Vico, meu grande colega de sala de aula no Murgel e cuja memória fantástica poderia ter sido explorada se não fosse a rigidez do sistema escolar daquela época e que persiste nos tempos atuais. Trinta anos sem que nós víssemos, certa ocasião me aproximei do carrinho de hot-dog do Vico e logo ele disparou seu curioso mecanismo de identificação, rápido, preciso e seguido da mesma gargalhada de sempre:

“Dalmo Duque dos Santos, 23 de agosto de 1961, irmão do Nenê, Mia, Gui e Bill, sobrinho do Felão, Olégas, do Paducha e do Zé Curimba. Zé Curimba...., que nome, heim! rarará...

Como o Vico, eu só me concentrava em coisas do meu exclusivo interesse, informações científicas raras e curiosidades sobre o passado. Era um leitor visual das enciclopédias Conhecer e Livro da Vida. Decorei os nomes de todos os presidentes da república só observando seus retratos na capa da enciclopédia Trópico. Antes começar a aula, Dona Filomena sempre me perguntava: Qual a novidade que você trouxe hoje para conhecermos? Sempre tinha uma, nem que fosse uma história misteriosa e engraçada que tinha ouvido dos vizinhos. De resto, tudo era muito desinteressante e complicado. Uma vez participei de um concurso de desenho e nunca soube que podia desenhar. Fiz uma cópia e releitura da ilustração de um sabiá laranjeira que tinha visto numa revista e ganhei um inesperado primeiro lugar. Nunca mais desenhei nada. Talvez tente na velhice, confiando na genética dos meus tios e primos da família Szucs, excelentes artistas plásticos. Sabia cantar e tocar instrumentos rítmicos, arranhando o violão, modalidade artística que aprendi com os tios, como todos meus irmãos, do ramo familiar Xavier Duque.

Quando entrei no antigo Ginásio, quinta série, as coisas pioraram de vez. Aquela diversidade de disciplinas fragmentadas em horários e dadas por vários professores foi um verdadeiro convite para a dispersão total. As reprovações se sucederam porque não havia aproveitamento racional das aulas. Só tirava notas boas em História, Geografia e Ciências. Observava apenas as coisas que me interessavam – não me interessa por Matemática, pois não havia nada visual e narrativo. Resultado: não conseguia memorizar as regras de sinais e nem a sequência das equações. Só fui entrar nos eixos quando ingressei na mocidade espírita em São Vicente, local de aulas e debates muitos interessantes e que me davam a chance de opinar e mostrar como via o mundo e as coisas. Antes disso havia começado a ler e assistir aos filmes antigos na TV, nas madrugadas. Em casa tinha coleções antigas de Jorge Amado, José Mauro de Vasconcelos, Monteiro Lobato, Machado de Assis e José de Alencar. Lia tudo sem entender muito o que estava lendo, mas lia, do começo ao fim. Os filmes da Sessão Coruja eram fascinantes e muitos me remetiam de volta à Epitácio e Tibiriçá. Sonhava que um dia iria morar sozinho numa casa de esquina (a casa que meu pai comprou quando ganhou na loteria federal e que nunca moramos). Sonhava também que iria ser editor de um jornal e que trabalharia num escritório rodeado de vidros, escrevendo notícias. Na mocidade espírita aprendi a dar aulas e logo me tornei expositor dos temas mais difíceis, sobre antropologia espiritual e as viagens do apóstolo Paulo. Essa foi minha base didático-pedagógica, muito antes da faculdade. No ensino médio não foi diferente, mas foi menos traumático. Só reprovei o primeiro colegial, numa única disciplina e a mudança de escola me fez muito bem para retomar os estudos. Nessa época me meti a ler os filósofos da coleção Os Pensadores. Incrível como havia muita oferta de conhecimento nas bancas de jornal e como os fascículos tiveram uma profunda influência na formação cultural dos brasileiros. Trabalho persistente e visionário do Sr. Victor Civita.

Minha infância em Tibiriçá eram brincadeiras de quintal e, no máximo no campo de futebol que ficava em frente da minha casa. Meu amigo dessa época (e de sempre) foi o Rui Bento Ferreira, filho de Dona Laudelina e do seu Adelson, caríssimos vizinhos de cerca. Seu Adelson, baiano e criador de gado leiteiro nos arredores da vila, também pai do Bido (mais velho que nós e amigo do Mia), das meninas Calú e Teresa, da mocinha Cleusa e do jovem Zé Bento, filho mais velho morto numa briga de baile em Bataguassu. Mesmo com essa grande dor no coração, nunca deixaram de sorrir e de lembrar as boas coisas de Tibiriçá quando nos reencontrávamos. Eles criavam uma sobrinha, a Rosália, que ajudava minha mãe em casa e também na minha educação, que devia ser pouca. Dona Laudelina me tratava como filho e tinha mão especial para cozinhar comidas típicas de sua terra e que eu tanto adorava, incluindo as caças. Eu e o Rui tínhamos quase a mesma idade, cinco ou seis anos. Quando fomos para Epitácio em 1967 eles ainda permaneceram algum tempo em Tibiriçá.

Em Epitácio havia três coisas que atraiam a molecada: o rio Paraná, que sempre foi perigoso e matava muita gente afogada. Só os moleques mais atrevidos iam nadar no rio ou no córrego Caiuazinho, perto do antigo matadouro. Tínhamos medo do seu Zé Damasceno (comissário do Juizado de Menores) e da Guarda Mirim, comandada pelo seu Joaquim Soldado. A Guarda Mirim, foi fundada como base de formação profissional dos “patrulheiros” urbanos, naquela época tinha certa conotação de poder policial repressor, certamente, como os escoteiros, uma influência do regime militar.

A segunda eram os pastos das fazendas - de proprietários portugueses, antigos madeireiros - que cercavam a cidade, onde íamos atrás de forquilhas dos pés de leiteiros para fazer estilingues e caçar passarinhos. Nessa época não havia consciência ecológica; matar passarinhos e derrubar árvores ainda era coisa normal.

E a terceira eram serrarias abandonadas, instaladas em terrenos enormes. A maioria delas também era de proprietários de origem portuguesa. Muitas fecharam no final dos anos 60 e permaneceram como fantasmas de uma época de muitos empregos. Embora perigosas, eram muito atraentes para brincar. Em quase todas havia enormes depósitos de pó-de-serra e lascas de madeira que, para nós, eram verdadeiras montanhas. O maior desses depósitos era próximo da Serraria Lopes, ocupando uma quadra inteira entre as ruas Antonio Marinho de Carvalho e Paraná.

Nessa época também apareciam muitos circos na cidade, alguns muitos bons e outros bem pobrezinhos. O circo funcionava como veículo não só das artes circenses mais também da música popular, onde os artistas do rádio entravam com contato direto com o público. Nos programas de rádio os cantores eram sistematicamente “tocados” somente após o anúncio das datas e circos nos quais iriam se apresentar. No início dos anos 70, talvez por causa da televisão, os circos começaram a entrar em declínio e só apareciam na cidade os mais simples. Num deles vi a dupla Canário e Passarinho fazendo um show completo de música e teatro: uma divertida comédia chamada “O Candidato sem Braço”, satirizando os comícios eleitorais; e o dramalhão brega “Eu, ela e o Garçom”. Vi também num circo instalado na Rua São Paulo, onde hoje é o Fórum, o cantor Paulo Sérgio (rival popular de Roberto Carlos) cantando e tocando guitarra, sendo acompanhado pelo Cacho, ao contrabaixo e pelo Mia, na bateria. Dos meus amigos os que mais gostavam de circo eram o Rubinho Garcia (da peixaria), que ia só pra ver as duplas sertanejas e depois cantava todas as músicas para a turma da classe no Murgel. O outro era o Chico, que adorava os malabaristas, trapezistas, domadores e sempre montava com os irmãos um circo no quintal da deles, ao lado da oficina mecânica do pai. Minha atração preferida do circo era o Globo da Morte, ponto alto e final do espetáculo, quando todas as luzes comuns se apagavam, ficando somente uma forte luz vermelha sobre a grande armação circular e metálica. O barulho das motocicletas era ensurdecedor e apavorante, pois o risco de uma colisão era realmente possível.

O CINE AZENHA


O Cine Azenha talvez tenha sido o maior ponto de sucesso da história social de Presidente Epitácio nos anos 60 e meados dos anos 70. Este talvez tenha sido o maior investimento cultural que a cidade já teve nas suas primeiras décadas, repetindo o êxito tecnológico e o sucesso das capitais e grandes cidades do interior. O cinema era o mais importante veículo de comunicação do século XX e principal difusor da sétima arte. As salas de cinema também exibiam anúncios de publicidade e jornalismo de variedades antes da atração principal.

Dessas notícias de eventos políticos e repetições das colunas sociais, destacava-se o Canal 100, sempre com o resumo de um clássico do futebol, geralmente um Fla-Flu no Maracanã. Tudo em câmera lenta e narração vibrante sob a trila sonora da conhecidíssima canção “Na cadência do samba”, com a orquestra de Severino Araújo.  De vez em quando aparecia uma produção institucional ou trechos de documentários feitos por Jean Manzon. No Cine Azenha aconteciam duas sessões noturnas a semana inteira, porém a frequência mais intensa era aos sábados e domingos, sempre lotadas. As matinês eram realizadas nas tardes de domingo, antecedidas de muita movimentação de crianças e adolescentes para a compra, venda e troca de revistas, gibis e figurinhas de álbuns. Em frente ao cinema concentravam quatro ou cinco pipoqueiros e, nos dias mais quentes uma meia dúzia de sorveteiros, bem como a famosa Raspadinha do seu Pará.

Como em todas as cidades daquele tempo, a empresa cinematográfica era um excelente negócio de diversões e também funcionava como espaço teatral para peças, shows servindo também de auditório para cerimônias e palestras. Esse empreendimento foi uma realização do imigrante português Faustino Azenha e o negócio exigia uma estrutura profissional de funcionamento durante os sete dias da semana, tal era demanda de público. O estabelecimento tinha um gerente fixo, geralmente uma pessoa muito experiente no ramo e que poderia solucionar qualquer problema técnico ou administrativo; uma funcionária de bilheteria; um porteiro e um lanterninha para controlar o fluxo, acomodação e a disciplina da plateia durante a exibição. Havia também uma pequena “bombonière” para a venda de guloseimas típicas do consumo em sala de cinema: pipocas, chocolates, tubos de jujubas coloridas e açucaradas, pastilhas ou drops e principalmente as balas de múltiplos sabores e gostos. Não eram vendidos refrigerantes e outras bebidas, provavelmente pela falta de embalagens adequadas (pois não havia latas, garrafas descartáveis, nem copos lacrados de papel). Ao lado da entrada principal do cinema havia o Cine Bar, estabelecimento externo comum, arrendado, e que atendia o público durante a espera das sessões.  As balas que mais faziam sucesso eram a famosa Chita e a 7 Belo, cujo cheiro forte e artificial exalava por toda a enorme sala, estimulando o consumo contínuo pelos frequentadores. As balas de hortelã e as pílulas de Gintã (produto farmacêutico para correção do hálito) também faziam muito sucesso entre os fumantes e os novos casais de namorados, que buscavam nessas ocasiões uma forma secreta de prazer e sedução nos longos beijos dados durante as sessões. O fumo só era permitido no hall de espera - onde havia alguns sofás, lixeiras, cinzeiros e escarradeiras metálicas cheias de areia – ou então no corredor lateral interno, usado para a saída após as sessões e cuja portas permaneciam abertas, por segurança e ventilação, sempre cobertas por cortinas cor vermelhas ou cor de vinho. Além do pavimento térreo, com maior número de cadeiras (eram todas de madeira e nunca foram estofadas), existia o piso superior ou mezanino, reservado para uso somente nos dias de superlotação. Os filmes exibidos eram anunciados antecipadamente num folder impresso conhecido como “Quinzena”, na qual constava a programação de duas semanas. Os filmes exibidos eram fornecidos e fiscalizados por distribuidoras em São Paulo, embarcados pela Estrada de Ferro Sorocabana e depois pelas empresas rodoviárias com linhas regulares diárias. Essa programação era divulgada sistematicamente nos meios de comunicação de retorno relâmpago como os serviços de autofalantes fixos do Pedro Yaraian e Zé Bolinha; os serviços de circulação em carros (Nildo Macedo) e também na Rádio Presidente Venceslau (só para lançamentos e promoções especiais). Na década de 1980 os cartazes dos filmes passaram a ser reproduzidos em grandes painéis de madeira, para uso externo, nas calçadas do cinema ou em pontos de grande circulação. Esse trabalho artesanal era feito por propagandistas e desenhistas como o Lucelso e o Guidio. 

 Na enorme tela Cine Azenha várias gerações de epitacianos viram muitos clássicos de Hollywood e também do bang-bang spaguetti italiano; shows de Altemar Dutra, Noite Ilustrada (que parecia ligeiramente o Pelé), os Incríveis, Beatles argentinos, dezenas de edições de A Mais Bela Voz Colegial e incontáveis Concursos de Marchinhas e Fantasias de Carnaval. O prédio, feito para funcionar o cinema, tinha também outras funções urbanas como apartamentos e pequenas lojas ocupadas por sapateiros, alfaiates e outros serviços, com acesso pela rua lateral.

Assim, durante muitos anos o Cine Azenha foi o principal ponto de movimento comercial noturno, sobretudo nos fins-de-semana, quando, em frente ao jardim e da Igreja Matriz, se concentrava a multidão de moradores em busca de lazer e contato. De vez em quando a programação regular era alterada para atender uma promoção especial, como as que eram realizadas pelo Rotary Club em caráter beneficente. Lembro que numa delas o filme escolhido e que abrilhantou uma noite de sábado foi a produção de 1966 “Como roubar um milhão de dólares”, estrelado por Peter O’Toole e Audrey Hepburn. Também não faltava nas sextas-feiras santas a esperada exibição de antigas e mudas versões da Paixão de Cristo, que apesar da péssima qualidade da imagem comovia até às lágrimas os expectadores mais simples.

Os funcionários do Cine Azenha que mais são lembrados são Chafic (gerente) e Jeromão (lanterninhas), João Stiaque (gerente), José Vicente (projecionista), Lau (porteiro), Dona Isaura Azenha, que cuidava da bombonière; e a jovem Sônia Lacy, bilheteira e que depois se tornou destacada educadora na cidade.

A moda do Cine Azenha durou quase três décadas e seria impiedosamente vencida pela mudança de hábitos, estimulada pelo o advento da televisão e mais tarde dos vídeos domésticos disponibilizados pelas locadoras de filmes. Esse fenômeno mundial de esvaziamento do cinemas - que ocorreu nos países mais desenvolvidos nos 50 e 60 - e que foi tema do filme Peter Bogdanovich (A Última Sessão de Cinema)- só aconteceria na América latina nas duas décadas seguintes, graças ao atraso da televisão nesses países. O Cine Azenha tentou sobreviver de todas as formas possíveis resistindo também a um longo período de decadência, mudando de nome, apelando para uma programação de baixa qualidade (lutas marciais e pornografia), servindo de espaço alternativo para eventos públicos e também quase foi transformado em templo dessas grandes redes de igrejas evangélicas.

Nos anos 90, com o sucesso cult Cinema Paradiso e de um programa da Secretaria de Cultura do Estado, organizamos (Isabel Alonso, Adrian, eu, Lana, Neide) o Cine Clube de Presidente Epitácio e novamente tentamos dar vida ao velho Cine Azenha. Era uma tentativa nostálgica de quebrar a rotina e o tédio da vida doméstica e trazer para a vida social milhares de pessoas ainda fascinadas pela televisão e pelos home-vídeos. Um dado interessante é que as novas gerações nascidas depois do fechamento do Cine Azenha e do Cine Ramazotti, não conheciam a experiência de assistir a uma sessão cinema. A reestreia aconteceu com a exibição do filme que dava nome ao projeto, porém a grande atração foi o concorrido desenho da Disney  “Rei Leão”, seguido de outros sucessos de ação e aventura.  Como velhos tempos, ao término das sessões, uma pequena multidão subia a avenida Presidente Vargas, exatamente como acontecia nas décadas anteriores, revelando alegria e entusiasmo pelo retorno do cinema. Até a paradinha para comprar pão na padaria do Neto, guardando as devidas proporções, de voltou a acontecer. A alegria até que durou bastante, alguns meses, e logo o entusiasmo saudosista do Cine Clube chegou ao fim.  O prédio do cinema continua no mesmo lugar (em 2014), cada vez mais desgastado e distante do tempo em que foi considerado “o melhor do melhor” das diversões epitacianas. É curioso lembrar que um dos mais famosos cinemas de Porto Alegre (RS) ficava num lugar de destaque na Rua Azenha e o cinema epitaciano foi construído exatamente no melhor ponto da Rua Porto Alegre.  
 
As festas e aniversários eram regadas a Q-suko; refrigerantes, só em ocasiões especiais. As festas de casamento eram as mais atraentes. Dependendo da condição social dos noivos e dos padrinhos, tinha churrascadas com mandioca e muita bebida, gelada em tambores de zinco, geralmente na sede da Filarmônica. Uma das melhores festas de casamento que estive foi a dos meus tios Pedro “Paducha” e Marlene Muller. Festa de arromba preparada com muitos dias de antecedência. O casamento dos tios Déia e Jaime também aconteceu em grande estilo. Os casamentos dos tios Zé Curimba e Creuza, Olégas e Zezé foram mais simples e caseiros, porém inesquecíveis. Teve arrasta-pé na casa da mãe da Creuza e um dos padrinhos foi o casal Dr. Alberto e Dona Dorinda, patrões da noiva, que trabalha como recepcionista no consultório médico. Nessa época fazia sucesso a música “Vendi os bois” (... o filho moço vai casar... Vai ser melhor festa que tem no lugar...), forrozinho-rock cantado pelos Incríveis.
Os carnavais eram nos salões dos clubes: Associação Atlética Epitaciana, para classe média e talvez a elite; e a Sociedade Filarmônica 27 de março, para a classe baixa e média em ascensão. Os mais pobres brincavam no Centro Comunitário. Passar da Filarmônica para a Epitaciana poderia ser um exemplo de mudança de status-quo. Ingressar no Rotary, no Lions ou na Maçonaria sempre foi também uma indicação de prestigio.

Aliás, o grande termômetro dessas mudanças era a Coluna Social, cujo representante clássico foi o José Ramos Júnior, o Zé Bolinha. O colunista, uma espécie de “João do Rio” epitaciano, que sempre usava trajes brancos, atuava no jornal A Vigilância e no serviço de Alto Falante. E anunciava a hora dizendo: “No meu Lanco especial, são tantas horas e tantos minutos”. Oferecimento de “A Requintante”, sua mais nova e melhor loja de cosméticos. Lembro que durante a comemoração da Copa do México, em 1970, o Ivan Noronha arrumou a maior confusão na avenida principal por que deu nele um banho de farinha de trigo. Deve ter achado que o trigo combinava com a roupa branca... Outra figura importante da comunicação epitaciana foi o Nildo Macedo – espécie inesquecível de Professor Pardal (encanador, eletricista, sonorizador de praticamente todos os eventos da cidade e muitas outras especialidades técnicas).

Falando sobre todas essa coisas é praticamente impossível não lembrar dos hábitos culinários e gastronômicos, principalmente das coisas que comíamos e bebíamos durantes as festas e também na vida cotidiana.

Qual seria a comida típica da nossa região, o prato que melhor expressa a nossa cultura, o nosso jeito de ser e de viver?

Apesar da presença do rio, surpreendentemente o peixe não é item principal do cardápio do povo epitaciano. Em Epitácio, e em Tibiriçá já era assim, existe uma mistura de costumes que contraria incorrigivelmente essa ideia que somos pirangueiros e que a pesca e a peixada é o nosso ideal culinário. Peixe é coisa de turista! É um estereótipo. O epitaciano nato, típico, até come um peixezinho de vez em quando, mas no dia-a-dia é um carnívoro inveterado, devorador de cortes bovinos, de porco e frango. E ultimamente a pizza, o hambúrguer e o cachorro-quente vêm destruindo os últimos vestígios das tradições populares.

Respondendo à pergunta inicial, poderíamos dizer que churrasco com mandioca é uma marca bastante forte dessa preferência; carne bovina é costume sertanejo e mandioca é coisa de índio. Isso revela as nossas origens.

Entretanto, um acontecimento importante da nossa história culinária foi o Reviro Paraguaio, comida de origem ibérica (trigo) e bebida indígena guarani (erva mate), típica dos coletores de mate das fazendas mato-grossenses, e que foi adotado como cardápio obrigatório do cotidiano das embarcações fluviais do rio Paraná e que transitavam também pelos ervais do Mato-Grosso do Sul. Provavelmente foi trazido pelos gaúchos e argentinos da Companhia Matte Laranjeiras, herdeiros dos costumes dos minuanos (índios dos pampas), catequizados pelos jesuítas espanhóis.

O reviro é uma mistura simples feita de farinha de trigo, água, ovos e sal, formando uma massa rústica fritada e cozida em panela de ferro. Altamente calórica e servida geralmente em dias de frio e de chuva, é acompanhada de chá mate quente, para aquecer o corpo, ajudar na digestão e dispersão da gordura. A massa é mergulhada em óleo quente, que após algum tempo de fritura é totalmente absorvido. A massa vai secando e, ao ser revirada e socada constantemente com colher de pau, vai adquirindo uma consistência empedrada. Para desfazer esse empedramento, quebra-se e revira até que forme uma farofa bem densa, quase torrada. É de um sabor forte e primitivo, para saciar a fome causada pelo grande esforço físico do trabalhador braçal.

Os barcos que saíam do Porto Tibiriçá para buscar carregamentos de mate no rio Ivinhema trouxeram essa iguaria para o estado de São Paulo. A presença de paraguaios e argentinos em Epitácio, a maioria funcionários da Matte Laranjeiras e, sobretudo, os de origem guarani, teve forte influência em nossa culinária. Com eles os aprendemos, além do reviro e do mate queimado, a fazer a famosa “sopa paraguaia” (bolo salgado de milho) de milho e também a “chipa”, delicioso pão de queijo. Contudo, os cozinheiros dos barcos, a maioria de origem mineira e nordestina, deram um toque criativo nessa saborosa massa guarani acrescentando na receita carne de sol desfiada, socada, junto com o reviro quando este já está no ponto de quebradeira com a colher de pau.

Lembrando algo muito importante, esses cozinheiros de embarcações eram verdadeiros mestres do sabor. Nas conversas que ouvi sobre eles, sempre eram lembrados nomes como Seu Lió e Alagoano, este último pai do amigo Vanildo (China), advogado epitaciano radicado na região de Rio Brilhante.  Sua mãe, Dona Nega, de origem guarani, era conhecedora da especialidade do reviro e da chipa. Outros nomes importantes da cozinha fluvial eram Zé Preto, Luiz de Paula (vindo dos melhores hotéis do Rio de Janeiro para trabalhar nos vapores de luxo da Bacia), Lauro Zinezzi (também comissário de bordo), Seu Martins, Zé Palheta, Pernambuco, Pudim, Ariovaldo (Nego), Juca Monteiro; e o mineiro e compadre dos meus pais, seu Marcelino Puba.

Experimentei essa versão de reviro com carne de sol em 1974, numa viagem de rebocador (Meca VII) que os escoteiros fizeram entre Epitácio e Panorama. Maravilha de viagem e refeições!  Em 2004, numa tarde muito fria, quando trabalhava como vice-diretor numa escola do Solemar, em Praia Grande (SP), ensinei o amigo merendeiro Denilson a fazer reviro. Na primeira vez não acertamos no ponto, mas recebemos uma sugestão interessante de uma professora, que reclamava e comia sem parar: “Nossa, isso aqui é o Fome Zero!”.

O reviro pode ser feito a qualquer hora do dia ou da noite e substitui qualquer refeição: café da manhã, almoço, café da tarde, jantar e o arremate do fim de noite ou da madrugada, sobretudo em dias frios. O consumo deve ser moderado, pois a tendência da massa é inchar no estômago e saciá-lo por muitas horas. É um prato ideal, como o bolinho de chuva, para quem não está disposto a sair de casa para comprar pão. Vai bem, também, com um café bem passado. Na minha família essa tradição foi introduzida pela minha mãe Jacy, que aprendeu com seu Marcelino Puba. Ensinou pra mim e que já me preparo para passar para minha filha Verônica.

É bom lembrar para não confundir o reviro paraguaio com o reviro ou virado do Bar do Espanhol, que é uma mistura de arroz, feijão, carne e temperos. Esse virado de bar foi uma herança da mato-grossense Dona Manoela Borges e começou a ser feito pela minha mãe na época em que o meu pai e o Espanhol (Henrique Prieto) compraram em sociedade o Finanbar, do seu Russo, ao lado do banco Financial de Mato Grosso. As mesas do Finanbar eram feitas de grandes círculos de toras; e os bancos de tocos de madeira. O virado original do Bar do Toco (sentido duplo: Toco meu pai e também os bancos de tocos de madeira) era mais seco e se parecia mais com o arroz carreteiro mato-grossense, acrescido de feijão coado, sem caldo. Mais tarde o Espanhol criou o seu próprio virado, com molho de tomate e feijão com caldo, também aceito com muito sucesso pelos comilões da madrugada. Grande pessoa, Seu Henrique, cujo destino estava traçado para sair da Europa e ser feliz em Epitácio. Poderia ter permanecido nos grandes centros onde certamente teria prosperado com sua inteligência e cultura secular do seu povo. Deixou saudades e bons exemplos de conduta e afetividade. Meu pai, muito brincalhão, contava que o Espanhol chegou em Epitácio numa noite de carnaval, deu uma olhadinha no baile e ficou fascinado com o que via. Colocou a mala no chão, tirou a camisa e caiu na gandaia, gritando: "É aqui que eu vou ficar!"

No verão surgiam as sorvetadas ou as Festas do Guaraná, versão infantil das Festas da Cerveja. Essas festas de refrigerantes eram rápidas e feitas na parte da tarde, ao contrário das cervejadas que entravam pela madrugada.  Os ingressos já incluíam as canecas de cerâmica, grandes para os adultos; e pequenas para as crianças, sem dúvida um treinamento social para as futuras bebedeiras. As famílias tinham seus “barzinhos” na sala e colecionavam essas canecas como troféus, também exibidos nas estantes da sala.

Nessa época, antes do advento da televisão, para equilibrar a luta estética entre o pecado e virtude, era praticamente obrigatório ter uma Bíblia, uma enciclopédia simples (pois a Barsa e a Mirador eram somente para famílias ricas) ou uma coleção de livros de autores consagrados e populares. Os livros proibidos ou “fortes”, como os de Cassandra Rios, eram guardados em gavetas ou escondidos. Os vendedores de livros batiam nas portas e ofereciam leitura para todos os gostos e necessidades. Minha coleção preferida era o Trópico, enciclopédia ilustrada, sucedida pela Conhecer e o Livro da Vida, as duas última da Editora Abril Cultural. A ignorância da juventude não era tão espantosa quanto satirizava um personagem de Jô Soares nos anos 70.  Esse hábito de leitura era muito estimulado pelas pesquisas escolares, gincanas e concursos do tipo “Quem sabe mais”. Atualmente, com o advento da internet, temos uma sociedade com super oferta de informações e uma cultura seletiva e compartimentada, efeito mental dos sites de busca. Mantivemos o aspecto utilitário e superficial do saber, porém sem aquele antigo domínio quantitativo do conhecimento geral. Mudou o acesso, mudou a forma de memorização, porém não ainda mudou a escola e seus métodos, base de aquisição e expressão dessa nova forma de conhecer as coisas.

As festas cívicas também eram especiais, sobretudo o aniversário da cidade - no dia 27 de Março -, e o Sete de Setembro. Nessas ocasiões não faltavam os desfiles de fanfarra e os carros alegóricos. Quando criança, participei de um desfile em carro alegórico, sozinho, no qual representava o futuro, vestindo um calça curta azul marinho, camisa social cor-de-rosa, sapatos pretos, meias brancas. Carregava uma faixa de seda branca sobre o peito com os dizeres “Presidente Epitácio”. Alguém, provavelmente alguma professora do Murgel, achou que eu tinha a cara de Epitácio e poderia ser uma boa representação do presente e também do futuro. Terminado o desfile, caí no mundo e só apareci em casa ao meio dia, morto de fome, todo sujo e encardido daquela poeira vermelha cujos efeitos pegajosos só os habitantes de cidades do interior conhecem.  Quando cresci um pouco mais fui tocar corneta na fanfarra do Colégio ou do Rural (18 de Junho) sob a direção do Mané Kotai. Ele tinha um trompete pessoal e, no auge do desfile de 27 de Março, de frente do palanque das autoridades, ele solava o “Parabéns pra você”. As fanfarras com seus ritmos e toques de marchas militares tiveram um influência na memória auditiva popular, transposta para os bailes de carnaval e para as escolas de samba, de compassos mais rígidos e acelerados. Na década de 1970 o grande sucesso nesse estilo festeiro e carnavalesco era a Banda do Canecão (famoso clube carioca), gravando clássicos e populares, com destaque para os metais e vocal cantando as melodias de sucesso.

Nossa turma de colegas era imensa e geralmente nos reuníamos na rua Cuiabá, especificamente entre as casas do Seu Belmiro Pimenta e do Dr. Antonio (Meca). Nesse trecho do quarteirão havia enormes Flamboyants e muita sombra sobre as calçadas, sob as quais ficávamos por longas horas da tarde, sobretudo no verão. Nossos colegas mais próximos eram filhos de comerciantes e moradores dos arredores do pequeno centro comercial da Avenida Presidente Vargas: Supermercado Neto, Banco Financial, Banco Bandeirantes, Bar do Bernardino, Magazine Celes, Sapataria da Cida, Bar do Seu Matias, Bar do Seu Russo, Bar Cantinho da Feira, Casa Estrela, Bar Haiti, Empório do Mané Lima, Empório do Firmino, Posto Ipiranga, Bar do Seu Almiro Saraiva,  Bar do Jesuino, Casa Caça&Pesca, loja de calçados do Sebastião Hojo, Vidraçaria do Seu Nunes, Bar da Dona Ana Cabrita, Bazar do Kawabuti, Salão da Tia Nair, Bicicletarias do Godô e do Tinho, Refrigeração do Afonso e também do Suzuki e as quitandas dos japoneses (Tamashiro e Kaioko).

Essa molecada de rua que só usava calção e poucos calçavam chinelos ou tênis, mesmo na época do frio. Eles se dividiam em muitas turmas, por afinidade de escola e vizinhança em suas ruas.  Eram tantos e só vou citar aqui a nossa turma e nem sei se vou  lembrar de todos: Lú e Belmirinho Pimenta; Zé do Caixão; Dário e os irmãos Cleyton e Gleyson; Varlô; Amarildo; Gilmar Saraiva; Gilmar Jeguinho (Nantes); Reder; Bill, Gui e Dadau; Júnior e Elder Leitão; Clóvis, Evodinho, Milton Donke, Zé e Mané (irmãos do Netinho, que era pequeno na época); Claudio Fazinga; Cacau; Cido Dalila; Márcio, Dú, Cafuringa, Neirivaldo, Zé Neto, Aguinaldo; Pedrinho, Ferraz; Juninho (sapataria); Zoca e Júnior Zangão; Renatinho Duque; Cuca; Audi e Queico; Segundo e Carlinhos Fiorezzi e o primo deles, o Binga; Julinho César e Ailton; Eder Tanaka; os irmãos Chico, Carlito e Eduardo; Português e irmão (filhos do Bernardino), César Loemiro; Carlinhos e Guico (Brahma), Carlinhos Seif; Mitio e Yoshio.

Tinha um pessoalzinho burguês que não se misturava com a gente e também uns “maloqueiros”, tipo barra pesada e geralmente bons de bola, que não eram da nossa confiança, mas que a gente encontrava de vez em quando, numas quebradas da Vila Martins ou Vila do Jerônimo; e aí a gente fingia que era colega. Algumas vezes eles nos estranhavam e a coisa ficava feia como na inesquecível briga entre o valente Lú Pimenta (defendendo a nossa turma) e o temido Diabo Loiro. Os moleques que gostavam de fumar geralmente debandavam para essas turmas de “maloqueiros”, como a que era chefiada pelo Tio Nildo e aterrorizava no Jardim até as altas horas. Eu e o Eder Tanaka tentamos entrar nessa turma, da qual fazia parte o Abóbora e o irmão dele, mas não fomos muito aceitos, por sermos fracos nas maloqueirices que eles aprontavam. Para ter uma ideia de como eles eram, meus irmãos Bill e Gui os achavam “perigosos” e me denunciaram para a minha mãe. 

Nessa época a venda de bebidas e cigarros era liberada. Ninguém da nossa idade fumava maconha ou usava outras drogas, mas era fácil comprar, em qualquer boteco, cigarros avulsos (picado), com ou sem filtro. Nessa fase as meninas ainda não se misturavam com a gente, a não ser em algumas festas de aniversário ou no cinema. Na adolescência as amizades mudavam, por efeito dos hábitos, das afinidades, transformação sexual e geralmente de acordo com as turmas de escola. Foi exatamente nesse período de transição, entre 12 e 14 anos (1973 e início de 74) que mudaríamos para São Vicente. Com a ajuda preciosa do Bill, Gui e Tita Lopes, lembrei de algumas meninas da nossa época, algumas mais próximas e outras mais distantes, porém todas amigas, como bem observou o Bill. São elas: Elaine Faber, Tita Lopes, Sarinha, Enila, Rita Suzuki, Tuty, Mayra Azevedo, Betinha (Terêncio), Cidinha (Raimundo da Caiuá), Lélia, Ariana Zocanti, Corali, Leila (irmã do Bruca), Rosana Gomes, Roseli Scudelari, Cristina (irmã do Pedro), Norma, Iara e Iraí, Silvinha, Janir Petek, Lúcia Guarnieri, Silvia (Geraldo Maritaca), Márcia (Sucesso) e Meire (irmãs do Marcão), Lia e Lali, Fátima Andrino, Aninha Olivato, Olívia Sato, Maristela Talavera, Teca e Iara (cariocas), Ivonete, Néia e Nei, Regina, Darlene, Sylmara Zanata, Rose (irmã do Galo Branco), Eliane, Tchuca, Lilian Langh e Rita Xavier.

Um acontecimento marcou o final dos anos 60 e início dos 70: a chegada em Epitácio da enorme família do Seu Djalma Albuquerque (funcionário da Marinha Mercante). Vindos do Rio de Janeiro, a família era bem numerosa, com filhos de todas as idades. Os “cariocas”, sempre muito simpáticos e bem humorados, logo se tornaram epitacianos muito queridos: os adultos dos quais não lembro os nomes; os adolescentes Paulinho Carioca, Chonho, Remi e Ricardo Carioca; as quase adolescentes Teca e Iara e o pivete Djalminha, que usava pijama depois do banho da tarde.  

Muitos jovens de fora passavam as férias em Epitácio durante anos seguidos, o que gerava um delicioso vínculo afetivo entre nós. Em casa dois jovens eram visitas certas no meses de janeiro ou julho: o César, filho do seu João Mascate, que morava em Assis e depois mudou-se para São Paulo; e o Serafim, que morava no Rio de Janeiro, filho do Seu Roque, administrador da bacia do Prata.

Meus grandes amigos de infância nas ruas foram o Eder Tanaka Majolo e Elder Leitão. O primeiro foi morar no Mato Grosso e o segundo morreu ainda jovem pilotando um avião.

A gente revirava a cidade e os arredores em busca de novidades. Nossos locais preferidos e proibidos eram a barranca do rio e a zona, esta última, na época, bem longe da área central da cidade. As casas da zona eram na sua maioria feitas de madeira. A mais imponente e importante era a Casa da Gaúcha, um sobradão de madeira, numa esquina. Nessa época as casas tinham varandas cor-de-rosa com variações de tons ao gosto do freguês e competência dos pintores de parede. Havia na zona uma casa de alvenaria (que a gente falava de “material”) com um grande luminoso escrito “Walkiria”. A zona era frequentada principalmente pelos caminhoneiros e as mulheres viviam se exibindo seminuas nas varandas, cobertas por toalhas, num evidente e sempre curioso truque de sedução.

Em outras épocas a zona acolhia não somente boiadeiros e marinheiros, mas também os rústicos peões de lida no facão e enxada, derrubadores de mato, como ficou bem registrado nessa crônica de Adão Cruz (Reminiscências):

“Os peões de empreiteiros, peões de trecho- como eram chamados – tinham jeito diferente, gíria própria, e eram gozadores e brincalhões. Eram alegres, apesar dos infortúnios que a vida lhes impunha (...) Ia para o mato e por lá ficava messes trabalhando, e só vinha à cidade quando terminava a derrubada ou então na época de festas juninas ou Natal, assim como todos os demais que trabalhavam nas margens do Rio Paraná. Nessas épocas - as pensões... - ficavam lotadas, os botecos e bazares tinham suas vendas aumentadas. A mulherada da zona do meretrício tomava porre, o ‘fogo’ era direto, dia e noite, não tinha tempo para ressaca; a peonada era quem mandava; as presenteavam com roupas, sapatos e dava-lhes o que pedissem, até acabar o último centavo (...) Somente quando  quando se via ‘duro’, aí sim, a ficha caía e então se dava em conta de que era hora de voltar pro mato, procurar outro ‘gato’, outra derrubada, voltar ao rancho de pau-a-pique, castigar o corpo na tarimba das varas, e dar o sangue aos pernilongos e mutucas pra ganhar novamente o que gastara em poucos dias na gandaia”

A zona de Epitácio ficava num bairro então despovoado, próximo ao cemitério novo (Horto da Igualdade). O acesso era difícil para quem andava a pé. Os charreteiros eram os taxistas da época e os carroceiros eram os fretistas. As mulheres da zona frequentavam o comércio e os demais serviços da cidade utilizando principalmente charretes, que também atendiam os moradores mais simples em suas necessidades. Elas eram tantas que houve época que recebiam chapa de identificação e seus condutores portavam credencial que os autorizavam a prestar esse importante serviço. Houve época que os ciclistas, também muito numerosos, eram obrigados a colocar chapas de identificação em suas bicicletas.

Hoje sabemos que uma das causas do fim ou da transformação da zona do meretrício em outras formas e territórios de prostituição foi a descoberta da pílula anticoncepcional e a liberalização sexual dos anos 60 e 70, destruindo os mitos da pureza feminina e da virgindade, tornando a mulher dona do próprio corpo e do seu destino. Muitas, senão a maioria, das mulheres da zona eram meninas que perdiam a virgindade, sendo expulsas de casa ou levadas pelos próprios pais para praticar o aborto clandestino ou, em muitos casos, para morar na zona, como punição pelo pecado da desonra causada à família. Muitas não suportavam essa triste realidade se afundando no alcoolismo ou cometiam suicídio. Esse hábito conservador e delituoso, que precipitava as jovens para a fuga e marginalização, durou séculos até ser quebrado pela revolução de costumes dos anos 60. Na década seguinte os casos de rebeldia sexual foram se propagando de tal forma que as famílias tiveram que recuar nos seus métodos punitivos.

Em 1974, já morando em São Vicente, voltei de férias a Epitácio e logo soube que um casal de namorados da nossa turma, em pleno gozo do sexo, havia sido descoberto pelos pais. Diferente dos jovens da geração anterior, que fugiam para casar, esses brincavam de forma aberta e irreverente com a situação. Os pais haviam se reunido para tratar do casamento e salvar as aparências, enquanto eles não estavam nem um pouco preocupados com as consequências do tabu que haviam desafiado. Tornaram-se alvo de provocações dos colegas com piadas sobre enxoval e festas de núpcias. “Quando vai ser o casamento?”, perguntavam todos, em meio a olhares provocativos e gargalhadas. Terminada a aventura íntima, nesse caso sem gravidez, cada um foi para seu lado e seguiram suas vidas.

A grande distância entre a Capital e o interior, especificamente entre o Porto Tibiriçá e São Paulo, podia ser medida pelos negócios que surgiam em função disso e que exploravam a velha lei de oferta procura. Durante muitos anos, mesmo tendo muitas lojas em Presidente Epitácio, havia o serviço dos caixeiros-viajantes para atender esses estabelecimentos e também os famosos mascates, que batiam de porta em porta formando uma vasta freguesia. Eles basicamente vendias roupas e artigos cama, mesa e banho. Nos primeiros contatos os mascates apenas ofereciam as mercadorias disponíveis e de fácil aceitação, que eram parceladas em muitas prestações, cujo preço de custo já era paga na primeira parcela. Porém, com o passar do tempo e estreitamento de relações, as encomendas ultrapassavam a marca das novidades e atingia a esfera dos favores pessoais como o envio de cartas, recados, receitas médicas, enfim tudo que era possível carregar nas malas, sem muito peso e incômodo, mas que já revelava um alto grau de amizade entre as partes.

Um dos primeiros mascates a ter carteira de fregueses na cidade foi o Sr. Côrtes, que era também proprietário de uma pensão na Capital, no número 70 da famosa rua Frei Caneca. Seu Côrtes, que tinha três filhos jornalistas (Júlio, Cortezinho e o fotógrafo Helbert) teve entre seus hóspedes dona Manoela Borges, em viagens casuais a São Paulo; e os jovens pensionistas fixos em busca de estudos e trabalho: os irmãos Amândio e Carlito Pires; e o jovem Hélio Gomes, que moravam em Caiuá. Seu Côrtes atuou como mascate entre 1940 e 1950. A rua Frei Caneca era famosa porque tinha em seu currículo histórico as instalações e embates de entidades e publicações anarquistas e também do Partido Comunista do Brasil, desde 1917.

Nos anos 1950 e 1960, atendendo basicamente o público feminino, fizeram freguesia em Epitácio e Tibiriçá, Dona Olga, que residia em Presidente Venceslau; e o cearense João Mascate (João Palmeira), que entraria nas duas décadas seguintes talvez como o mais popular dos mascates da então promissora praça epitaciana. Das visitas rápidas dos primeiros tempos Seu João foi ganhando confiança de muitos lares e fez estreitos laços de amizade. Radicado com a família em Assis, seus filhos vinham constantemente passar as férias na cidades nas casa dos fregueses que haviam se tornado grandes amigos. Posteriormente mudou-se para São Paulo e finalmente voltou residir em Maranguape, sua terra Natal. João Palmeira pertencia à mesma família do humorista Chico Anísio, do cineasta Zelito Viana, da atriz Cininha de Paula e do ator Marcos Palmeira.


A EDUCAÇÃO EM BUSCA DO FUTURO

Em 1971 minha mãe tomou a decisão de voltar a estudar. Tinha parado na antiga oitava série do primeiro e grau e resolveu dar continuidade ingressando no curso colegial. Ela não foi a única. Vários adultos da sua geração também tomaram esse novo rumo em suas vidas: Guinelina, Zeíto, Odenir, Adão e Oscar eram alguns de seus colegas adultos de classe noturna no Ginásio Estadual. Nessa mesma turma estavam os jovens Salvador Miyazaki, Coxinha, Graça, Leni, Cleonice e muitos outros. Dona Jacy já era mãe de cinco filhos e na mesma classe cursava o meu irmão mais velho, Carlos Maurício (Nenê). Em 1972 nossa Madinha Manoela havia falecido e com minha mãe estudando à noite ficávamos meio que soltos, sob os olhares dos vizinhos mais próximos e dos tios que moravam conosco (Bertinho e Felão). Deu tudo certo. Foram três anos de intensas batalhas em busca de conhecimento. Recordo como essa turma, sobretudo esses mais adultos, se empenhavam nos estudos antes das provas e na construção dos trabalhos escolares, na maioria das vezes aos sábados à tarde na varanda dos fundos da nossa casa na rua Cuiabá. Também nessa época meu pai se envolveu numa atividade curiosa. Dirigia uma Kombi – inicialmente do seu Quito e depois a dele - que levava professores para fazer complementação de estudos na faculdade de Dracena. Na época eu não entendia muito bem o que estava acontecendo com os meus pais e com os seus colegas, percebendo somente uma certa euforia e preocupação com o que poderia acontecer nos próximos anos. Como eles previas, as coisas realmente mudariam e muito.

A expansão territorial nunca age sozinha e isolada nas suas necessidades econômicas de lucros. Ela sempre vem acompanhada de todas as ferramentas possíveis na remoção dos obstáculos naturais e humanos, para que a ocupação ocorra de forma eficiente e segura. Sempre foi assim desde à Antiguidade, na dominação dos grandes impérios orientais e greco-romanos, bem como na colonização mercantil realizada em solo americano.

Na conquista paulista do extremo Oeste não seria diferente. Logo nos primeiros anos do século XX encontramos a ação dos religiosos e sua preocupação com a populações indígenas enquanto, ao mesmo tempo, cuidavam da fundação dos seus estabelecimentos de ensino regular para atender as famílias dos núcleos urbanos que se organizavam.

Na medida que surgem novos patrimônios urbanos e novos municípios, a instalação de escolas é considerada estratégia importante de ocupação, tanto quanto os órgãos de segurança, saúde, transporte, abastecimento e comunicação. Era uma das garantias para que ocorresse a atração e fixação demográfica nos locais escolhidos para o desenvolvimento.  Foi por esse motivo que, nessas primeiras décadas do século XX, já identificamos uma intensa movimentação e deslocamento de empreendimentos de ensino e de muitos educadores, sobretudo mulheres, em direção ao interior paulista para ali se estabelecerem e exercer seus ofícios em escolas regulares.

Merece registro um aspecto cultural muito curioso da vida dessas educadoras, que não era uma regra, porém tornou-se muito comum e também assunto que normalmente era comentado em caráter reservado nos ambientes sociais. O magistério, apesar dos baixos salários, dava à mulher não somente segurança econômica mas também um status quo que lhe garantia certa liberdade e autonomia, evidentemente dentro das limitações sociais e dos padrões morais da época. Era uma garantia muito atraente para as moças que permaneciam solteiras por opção e também na falta de “sorte” no matrimônio. Quando eram concursadas e efetivadas no serviço público, essa autonomia feminina um tanto rara se ampliava ainda mais, o que chamava atenção de alguns pretendentes, na verdade mais inclinados para predadores. Foi assim que muitas professoras passaram a ser alvo do interesse dos famosos “chupins”, como ficaram conhecidos os rapazes solteiros que não tinha vida estável e que, digamos assim, não se adaptavam ao ritmo e à disciplina do trabalho, dando um jeito de se consorciar com uma professora “solteirona”, geralmente um pouco mais velha. Para os “chupins” esse casamento significava prolongar o máximo possível a longa vida de playboy, geralmente mantida com sacrifícios pelos pais, não raro também por uma mãe sozinha e também vítima social de algum aventureiro sentimental. O costume era tão antigo quanto o apelido impagável desses malandros e espertalhões, mas cresceu nas estatísticas secretas e ganhou muita notoriedade nesse período de expansão e interiorização do ensino.

O pioneirismo do magistério atendia simultaneamente as necessidades de novas unidades escolares e também a intensa demanda profissional, sobretudo de moças, nos cursos de formação. Segundo Leonor Tanuri (O Ensino Normal no Estado de São Paulo -1890-1930) o Livro do Jubileu de Prata da Escola Normal”, publicado em 1925, já informava que o “número de alunas matriculadas no curso normal aumenta extraordinariamente todos os anos”. 

Além da urbanização, o fator político estimulava esse crescimento da oferta escolar. O novo regime republicano precisava, por questão constitucional, implementar uma política de criação e expansão de escolas públicas que satisfizessem as necessidades das classes médias e baixas. Em 1913, ainda segundo Leonor Tanuri, o Estado de São Paulo contava na capital com apenas três escolas normais, fundadas respectivamente em 1846, 1895 e 1911, exatamente para atender essas transformações. As demais unidades estavam no interior e abrangiam os grandes munícipios que serviam de polo educacional e que, na época, não ultrapassavam os limites dos trilhos da estrada de ferro. Eram eles: Guaratinguetá (1903), Itapetininga (1893), Campinas (1903), Piracicaba(1897), São Carlos (1911), Piraçununga (1911), Casa Branca (1911) e finalmente Botucatu (1911), que era a região limite da expansão e ocupação pioneira. Esse ritmo de abertura de escolas normais e a migração de educadores teria continuidade até a década de 1970, estimuladas também pela oferta de faculdades de licenciaturas. Esse fenômeno de migração de professores ocorria tanto no Oeste do estado como no litoral Sul, na divisa com o Paraná, lugares que ainda não haviam ocorrido a completa ocupação geográfica.

Presidente Epitácio, como todas as cidades da Alta Sorocabana, tornou-se alvo da escolha de educadores em início de carreira, pela escassez de escolas e cargos efetivos nos grandes centros.  A maioria das pessoas que participaram direta ou indiretamente desse fenômeno social relata que a escolha e o deslocamento de um educador para uma determinada localidade dependia de dois fatores básicos: as vagas oferecidas nas escolas da rede pública e principalmente a facilidade de locomoção pela ferrovia entre a cidade escolhida e a sua cidade de origem. Assim como os primeiros comerciantes e autoridades, os professores também foram testemunhas oculares do nascimento e florescimento de muitas cidades do interior paulista. Os estabelecimentos de ensino onde atuaram esses educadores pioneiros ainda guardam em seus arquivos escolares a memória e a trajetória, não somente da própria escola e dos alunos que por ali passaram, mas sobretudo das mudanças ocorridas nessas localidades e no mundo da época em que viveram. Foi assim que os nossos pioneiros da educação primeiro se estabeleceram na colônia húngara Arpad Falva, na divisa com Caiuá, nos anos 1930; depois no Porto Tibiriçá e finalmente na própria cidade, a partir da década de 1940.


Entre as década de 1930 e 1980 quatro gerações de professores exerceram as funções de magistério, cargos e atividades administrativas e supervisoras, primeiramente na Colônia Árpad Falva, depois no Porto Tibiriçá e posteriormente em Presidente Epitácio e Distrito do Campinal. A maioria desses educadores migraram de outras cidades do interior paulista ou residiam em cidades próximas, principalmente Presidente Venceslau e Santo Anastácio.

Na primeira geração tivemos: Lajos Juházs (húngaro) e Marieta Leal Pereira, ambos da Colônia Árpade. Atendendo ao pedido de Dona Manoela Borges, que lhe havia relatado situação de muitas crianças que estavam sem ensino, veio para Epitácio a professora Carmem Gorgulho, que era de Vencesleu e filha dos proprietários da Fazenda Santa Sofia. O trabalho de Dona Carmem foi de natureza exclusivamente voluntária, sem remuneração e por amizade a Dona Manoela, visando apenas atender provisoriamente essa necessidade urgente. Posteriormente vieram as professoras Cacilda Teixeira Rodrigues (Porto Tibiriçá); Filomena Ribeiro; Dona Lili e Beatriz Monteiro. Nessa época também veio residir em Epitácio e o Professor Amadeu Bueno.

 Na segunda geração: Geraldo César Reis; Balbina Garcia; Hermínia de Oliveira e Mafalda Machini; Prof. Campos, Dona Nenê e Irene Campos (Externato Padre Anchieta); Anair Diniz Costa; Wilson Hudson Pinto; Edy Marinho, Nair Simão; Lair, Helena e Tarsila Gonini; Carmem Fuentes; Anilda Benetti; Terezinha Castro e Lenita Prado.

Terceira geração: Dr. Pedro Benjamin Vieira; Ana Conti Deak; Maria, Ondina e Paulina Deak;  Dr. Lauro; Terezinha Valim; Nilse Olivato; Doraci Bergamasco; Waldir Romeo e Mercedes; Raquel Ribeiro; Antonio Carvalho e Wanda Leitão; Aderbal de Paula Ferreira; Janete Carvalho Noronha; José de Mello e Neusa; Lourdes Miguel; José Vilas Boas, Ítalo Alves Montório; João Pierre; Renato Ferraz Aranha e Maria Inês; Maria Ângela Martins; Nelson e Maria Hercília Amaral; Athos Tizziani; Maria Batista; Filomena Baltazar; Kirma; Maria Amélia; Quito e Almeri; Irma Xavier; Hermes Martins; Selma Macedo, Lourdes Ferreira Omote; Ilda Sedig, Marlene Sabino, Doralice Leme.

E na quarta geração: Adelino Chuba Guímaro; Cecília Zanata; as irmãs Luíza, Margarida e Verônica Szucs; Waldemar e Iracema Lourenço; Ernestinho Coser e Sônia Maluley; Sebastião Turbuck;  Daniel  e Lélia Salomão; Maria Antonia Tedesco,  Fernando Roque; Gerda Weller; Pedro Paducha e Marlene Muller; Eliete Soares; Odilon Brito;  Zezé Azevedo; Marilu Carmona; Dona Lurdinha; Ósea Santana; Ivone Tacca; Maria Angélica; Hélio Azevedo; Marcos Tiziani; Ângela Oliveira; as irmãs Neusa, Meire e Maria Helena Ramos; Zezinha Avalone Pires; Rose Gíglio, Eni; Maria Enoe Mendes; Ana Maria Lima; Antonio Melo; Sarah Macedo; Lourdes Ferraz; Ismael; Adir Murad; Gerson Constant; Valderez Marinho; Shenka Loyolla; Isaura Haymussi; Lourdes Moleiro Phillipp; Donato Pereira; Isabel Alonso; Sônia Lacy; Sônia Ferraz ; Leila Miguel; Maria Helena Xavier, Neusa Moleiro Ribas, Manoel Ziemba e Ismênia Castro, Vitoria, Diva, Natalicia, Jurema, Giselda, Margô, Cida Melo,  Noélia Rodrigues, Ana Rosa Deak, Déa Ribeiro dos Santos, Derci Costa, Dilene Ferreira da Silva, Elenicia Leão Teixeira, Margarida Prat, Maria Aparecida de Mello, Maria José Alencar, Maria José Leal Azevedo, Marisa Ferreira Ribas, Maruska Kubík, Sirlene Bueno, Zuleika Mendes Pinto.

Pelo número de pessoas citadas, e certamente não lembramos de todas elas, podemos ter uma pequena noção de quanto o setor educacional pesa e influi na economia e na organização social das cidades. Isso ocorre por meio dos recursos aplicados nas escolas e da renda dos educadores que, apesar de baixa, funciona como agente aquecedor da indústria, do comércio e dos serviços. A educação também pesa como importante agente cultural e estimulador de mentalidades e costumes, cultivando o que já existe, descobrindo e direcionando as novidades e os novos comportamentos, o que reflete diretamente no consumo.

                     No final da década de 1960 a educação brasileira ainda era um assunto de elite. O acesso aos cursos superiores era raríssimo e a classes médias só conseguiam, no máximo, concluir o “colegial” (atual ensino médio). Terminando o “Ginásio” (da 5ª a 8ª série), os alunos já tinham que optar pelas áreas especializadas: o Ensino Técnico, com ênfase nas habilidades profissionalizantes; o ensino Científico, com ênfase teórica nas ciências exatas, preparatórias para os vestibulares de medicina, engenharia, etc.; e o ensino Clássico, voltado para as ciências humanas ou habilitação para o Magistério das séries “primárias”.

Em pleno regime militar e sofrendo os perigosos conflitos de terras na região do Campinal, Presidente Epitácio estava se preparando para ingressar na sua juventude política. As serrarias ainda lideravam a oferta de trabalho local e a cidade deveria passar nos próximos anos por um dos períodos mais difíceis da sua história como comarca pública. Seria a prova decisiva para o crescimento ou então a decadência urbana.

Era uma época em que o Brasil estava se aproximando da casa dos 90 milhões de habitantes, o ensino particular era restrito e as escolas públicas ainda não haviam sido afetadas pelos problemas da explosão demográfica e da massificação dos costumes. Os alunos pobres abandonavam a escolas para trabalhar na lavoura e os mais problemáticos e rebeldes eram sistematicamente reprovados ou expulsos dos quadros escolares. O modelo industrial de trabalho e organização corporativa reinava e criava os paradigmas burocráticos de controle e produtividade. Quanto maior o número de funcionários, maior o poder de competição das empresas. Expandir negócios significava contratar grande contingente de mão-de-obra qualificada para realizar tarefas intelecto-manuais. As placas de “Precisa-se” ou “Contrata-se” eram peças fixas nos muros e portarias das "firmas". Como sempre, quem estudava e se preparava certamente estaria à frente dessa corrida, não pelas vagas, que eram muitas, mas pelas carreiras de destaque, longas, duradouras e bem remuneradas. Tempos promissores, principalmente para os jovens do interior que sonhavam com o casamento, um bom emprego e uma carreira nas “multinacionais”, instaladas nos grandes centros urbanos. Lembro que havia nas pessoas a consciência de que estudar era o melhor caminho para superar os obstáculos do status quo e conquistar melhores posições sociais. No início dos anos 1970 houve uma intensificação da ideologia educacional desenvolvimentista. As músicas de Dom e Ravel e dos Incríveis, usadas como propaganda do regime militar, abasteciam as mentes e empolgavam esses sonhos de um futuro melhor e seguro.

Se nas seis primeiras décadas do século XX o ensino e a educação ascenderam como como necessidade e destaque da sociedade, o mesmo não podemos dizer da profissão docente, sempre defasada diante da lei de oferta e procura, portanto constante e duramente afetada pelos baixos salários. As crises dos países capitalistas sempre atingem as profissões, mas o magistério sempre foi a que mais sofreu com o processo de proletarização, mesmo porque quando todas as outras profissões passam por momentos difíceis os seus ocupantes se deslocam para o magistério como uma recorrente atividade de sobrevivência. Isso enfraquece e desmoraliza o magistério, que dificilmente se impõe como profissão regular, com espírito de classe e corporação, exatamente pela falta crônica de identidade e perspectiva. Para uns trata-se tradicionalmente de uma profissão típica de mulheres, já que os compromissos mais dispendiosos de manutenção da casa não ficaria por conta delas e sim dos maridos. Para outros, a presença quantitativa feminina na profissão nunca foi uma regra absoluta, por causa da constante instabilidade das profissões tradicionais. Profissões que já foram grandes promessas de prosperidade e mudança do status quo também caíram nas teias proletarização, efeito da super. oferta de bacharelados no mercado de trabalho. Aliás, o único bacharelado que ainda conserva uma certa posição e condição de fazer inveja em termos de renda são os médicos, se mantendo como senhores da vida e da morte e, mesmo assim, já começam a oscilar em direção ao esgotamento.  Quanto ao professor, até hoje não foi encontrada uma solução para o problema da renda, nem mesmo os pisos salariais. São poucos os professores que tem acesso ao real aperfeiçoamento que resulte na mudança nos rendimentos. Por outro lado, o magistério continua sendo alvo de uma multidão de inseguros no mercado de trabalho ou desempregados, geralmente pessoas de meia idade, apavoradas com a redução crescente dos postos de trabalho fixo.


VIVENDO NOS ANOS 70

-Telefonista.

- 288, por favor!

Esse diálogo curto e gentil é o retrato fiel da comunicação entre as décadas de 1930 e 1970 nas pequenas cidades brasileiras. O número identificador das de linhas não passava de três algarismos e, sem sobra de dívida, bem mais fácil para memorizar. Nos centros telefônicos trabalhavam as telefonistas das companhias concessionárias desse serviço, geralmente moças ou senhoras cuja função era completar as chamadas ou ligações solicitadas pelos usuários. Em Epitácio as nossas telefonistas mais antigas pertenceram a uma geração mais antiga, da Dona Terezinha de Souza, mãe do Mandioca e do Nanico; e depois a uma geração mais nova, talvez a última, a qual lembramos da Sandra Zines. Esse centro telefônico funcionava numa casa onde mais tarde seria construído o prédio da antiga Telesp.  Elas ficavam sentadas em frente a uma mesa de onde puxavam os cabos com plugs, que seriam conectados aos números dos assinantes ou proprietários das linhas. Elas também usavam aparelhos telefônicos especiais, colocados sobre a cabeça, não muito diferentes dos que se usam hoje e que são vendidos a preços módicos nos supermercados. Nessas pequenas cidades as telefonistas sabiam de memória os números dos assinantes, tantas vezes eram repetidos diariamente. Tanto sabiam que sempre recorríamos a elas quando era necessário descobrir número de alguma residência ou de um estabelecimento. Elas sabiam, inclusive, quem estava perguntando. Muitas nem respondiam e automaticamente já completavam a ligação, dispensando a consulta da lista telefônica. A privacidade tinha suas limitações, obviamente, como tem hoje. Naquela época os trotes eram uma diversão muito apreciada, pois era muito difícil identificar os praticantes. As ligações interurbanas de longa duração, famosas pelas altas tarifas, eram tecnicamente complicadas: primeiro pedíamos a ligação e depois de um certo tempo de espera a telefonista retornava confirmando ou negando o pedido, que nem sempre era possível. José Ferrari Leite (A Alta Sorocabana e o espaço polarizado de Presidente Prudente) relata que no primeiro semestre ano de 1969 o município de Presidente Epitácio recebeu 7,6% das ligações interurbanas a partir de Presidente Prudente, significando mais de seis mil ligações. Nesse mesmo período Caiuá fez 200 ligações e Venceslau ultrapassou a marca de 10 mil ligações.

Tudo isso durou até o advento da revolução digital, colocando essa parafernália analógica de fios e cabos no lixo da história. As telefonistas, que se revezavam dia e noite nesse serviço, foram substituídas mecanismos de automação. Dessa época restou apenas o verbo “discar” e alguns serviços “disk” (que deveriam ser “dig”).  Até hoje é um verbo muito utilizado para definir uma comunicação telefônica, mesmo por aqueles que desconhecem a origem da palavra, exatamente porque nunca utilizaram o processo de discagem dos antigos aparelhos, acionados por discos cujos buracos numerados eram impulsionados pelo dedo indicador. Poucos poderão entender no futuro títulos de filmes como “Disque M para matar” ou o episódio do Caso Verdade da TV Globo “Disque CVV para viver”, lembrando o famoso suspense de Alfred Hitchcock.

No início dos anos 1970 não existia internet, DVD, nem celular. Mas os jovens eram todos modernos e avançados para a época.

A vida tinha um ritmo muito diferente de hoje e eles, apesar da ousadia e até das loucuras hippies, tinham uma rotina muito estranha aos dias de hoje. Nas cidades do interior esse ritmo era muito mais lento e os dias, as semanas, os meses e os anos demoravam muito para passar. Nas ruas, os carros e caminhões eram raros. As bicicletas circulavam aqui e ali sem causar transtornos no trânsito. O comércio não era agitado e nem dava sinais de desespero com infinitas liquidações. Não havia multidões. As lojas e os bancos eram monótonos e repletos de funcionários.

Os correios eram muito frequentados e as caixas postais estavam sempre cheias de envelopes contendo alguma novidade. As cartas demoravam muito para ir e voltar. Havia também um silêncio típico das localidades distantes dos grandes centros urbanos e a ausência da infinidade de barulhos que existem hoje.

Em Epitácio os dias eram longos para quem trabalhava e interminável para quem não fazia nada. Mesmo depois de ir ao colégio e fazer suas obrigações diárias, como ir ao curso de datilografia ou corte-costura, o jovem tinha muito tempo de sobra para pensar no que iria fazer nas horas vagas. O período livre, geralmente à tarde, era talvez o mais duradouro. Logo após o almoço estabelecia-se um clima de “siesta”, um sol de rachar mamona e ninguém nas ruas. As varandas e as árvores acolhiam toda essa preguiça, sem culpa, em cadeiras de fio de nylon ou em velhas redes, até que alguém tivesse uma ideia do que fazer tarde a dentro. Os canais de TV não eram muitos e a programação também não tinha muitas opções. O rádio AM ainda reinava com uma programação intensa, para todos os gostos. Não havia FMs. Além das emissoras de Presidente Prudente Venceslau, as rádios mais ouvidas, com a ajuda de antenas e engenhocas de sintonia, eram Tupy, Nacional e Bandeirantes. A Rádio Mundial, do Rio, com o programa noturno do Big Boy era uma alternativa “Cult” para os jovens, bem como os jogos da seleção brasileira de basquete. Era ainda uma época em que a leitura de livros, almanaques, enciclopédias e revistas eram a melhor forma de obter informações.

Os telefones não tocavam como hoje e muito menos com tanta frequência. Porém, nas décadas de 1960 e 1970 os jovens já eram fascinados pelo telefone. As poucas residências que possuíam um aparelho tinham os mesmos problemas de relacionamento entre jovens e adultos por causa dos excessos no uso desse serviço. Se ninguém ligasse ou não aparecesse para bater papo a solução era colocar uma bermuda Lee com a barra desfiada, uma camiseta básica, calçar um keds e procurar alguém ou a turma. Se juntassem duas ou três pessoas, logo os outros iam chegando e formavam-se as “patotas”. Uns estavam na Avenida Presidente Vargas, provavelmente em frente ao Haiti, bar e restaurante que marcou época no final dos anos 60 e início dos 70. Poderia ser um sábado, um domingo ou uma daquelas quartas-feiras inconsequentes, sem nada pra fazer. Outros estavam no Figueiral, num Baile da Filarmônica ou na Epitaciana, ou então em alguma divertida excursão para uma cidade próxima. São rostos conhecidos e facilmente reconhecidos. Bom seria se pudéssemos contar a trajetória de cada um deles: quem eram, os que estavam planejando ser, que sonhos tinham em mente, o que aconteceu com cada um deles e por onde andam.

Antes dessa geração 70, viveram em Epitácio e Tibiriçá jovens que ainda tinham muita influência da década anterior. Nesse período de transição eles ainda se divertiam em clubes e se organizavam nos famosos grêmios, que eram treinamentos para as futuras atividades sociais. Um desses grupos, o GREIPE, ficou bastante conhecido exatamente por causa das suas intensas atividades e promoções culturais. A sigla significa Grêmio Recreativo Estudantil de Presidente Epitácio, que ainda tinha como marca a presença dominadora do sexo masculino, tendo as garotas apenas uma participação casual e secundária, apenas como “namoradas” dos membros. Os sócios mais lembrados do GREIPE fora: Mário Ribas, Lindalvo, Neder, Oscar Weller, Aroldo, Robson, Reinaldo Rocha, José Antonio Coli, James (Sandy), Sérgio Sibin, João Grozelha, João Carlos Minatti, José Carlos, Hermes e Nenê (Tim).

Falando especificamente da juventude do anos 70, nela vamos encontrar, já nos primeiros anos da década o efeito da revolução de costumes que marcaria esse período.  É bom lembrar que na periferia da cidade (que em Epitácio era chamada de ponta de rua) residiam muitos jovens, filhos de gente mais simples e que eram mais retraídos, muitos deles, embora não frequentando esse núcleo social central, eram também rostos muitos conhecidos, frequentavam as escolas, começavam a trabalhar mais cedo e frequentavam clubes e eventos mais populares. Muitos deles se tornaram adultos prósperos e influentes como profissionais liberais, homens de negócios e autoridades públicas.

Também com a ajuda de algumas pessoas que viveram intensamente aquela época lembramos de muitos jovens desse período: os irmãos Mia e Nenê; Mingo e Grilo Pacas; Djalma, Dalva e Paulinho Weffort; Mingo e Silvia Tizziani; Sandra e Mariza Zinezzi; Ângela e Caia Pimenta; Quequé e Olga Novazzi; Zé Ivan, Fátima, Gil e Léia Saraiva; Negão, Bá e Nico; Aloi e Dagmar Dunke; Hércules e Vinícius Valim; Joaquim Vicente e Renato Lopes; Zé Martins, Tata, Nando e Boizão Baraúna; Mazé e Gêra; Lau, Ana Maria e Maria Inês Deak; Zé Renato e Portus; Ceminha e Kali Noronha; Felão; Odilon e Maria Ermínia; Wilson Azenha; Nilson e Maria Augusta Olivato;  Paulo  Carioca; Donato; Jorge e Teresa Okada; Miriam Pereira; Homero e  Raquel; Margareth; Silvinho; Cidoca; Waltão; Toyotão e Toyotinha Tardivo; Arizinho Bodão; Leila e Helenice Miguel; Tonico Vanalli; Oscar Weller; Edward; Edmo e Walter, Neder; Ivan Noronha; Vera, Isa e Iara; Clementino e Nadão; Míriam e Cida; Gilberto Nantes; Glauco Nantes; Milton Maciel; Zé Bento, Cleusa, Teresa e Bido; Jane Brites; Claudinho, Neusa e Cleusa; Nanico e Mandioca; Milton Deak; Zé Galinha; João Gil, Carlinhos Gotardi, Mara e Cristina Bergamasco; Antonio Carlos Rolinha; Carlos, Verônica e Soninha Szucs; Salvador e Heide Myazaki; Sussumo Hondo; Padeirinho e Iara; Soldadinho; João e Loirinho Estiaque; Danilo e Carlão; Margô; Mário e Jandira; Reni e Ronaldo; Roberto Susuki; Artur e Isaura Shibayama; Aurea, Alice, Altivo, Roque, Luzia e Assis; Sérgio e Cleusa Sibin; Dalva, Neusa, Marisa e Toninho Moleiro; Vera, Lilaléia e Luiz; Gêmeos do sax, Mateteo e Assembléia; Mauro; Malero; Jair Baguá e Teresinha; João Pavão e Irene; João Saldanha; Hiro e Teresa; Jussara (Geraldo Maritaca); Lindalvo, Laercio, Leni e Lurdinha Nunes; Galo e Toninho Ribeiro; Rita, Zé Rubens, Galo e Rose; Beiroca e Mara Ribeiro; Derão e Célia; Claudio e Cleusa (Pedro Barbeiro); Rose e Velozinho;  Zé, Lurdinha, Regina, Leila e Júnior Pires; Haroldo e Devanice Ferreira; Tadeu e João Antônio; Edmar e Claudio (Lico); Meire e Roque Bueno; Toledo; Deir, Dominguinhos e Dagô; Wilson, Celina Dalva e Fátima; Fátima Canhete; Fátima Bezelga, Leo Zocante; Maria,  Mané, Irene, Mário Rubens e Iolanda Kotai; Maria Helena e José Luiz Ribeiro; Lílian Hoppert; Tânia e Evaldo Martins; Irma, Ilca e Toninho Lozano Deak; Perizinho Gato Preto; Sandra Gomes; Licinho (Ulisses); Lucinha e Caio de Paula; Sônia, Gladiston e Roseli Ferraz; Ricardo Lourenço; Sônia, Zé Luis, Zezé, Zé Carlos e Marli Alencar; Sandra e Shirlei Galeano; Robson Ribeiro; Salete e Sueli (Wilson do Itaú); Marta e Miguel Soler; Marta, Márcia, Mara e Márcio Azevedo; Henrique e Adelaide Martins; Carlos e Maria Teresa Bende; Meu (Cantinho da Feira); João Vitório e Silvio Bergamo; Dulce Sarraipa; Sueli Fazinga; Vanildo e Diana (Alagoano); Tinho, Cida e Nenê Omote; Maruska Kubik; Zelma Martinez; Ulisses Galvan; Lourival Magalhães; Arnaldo Gonini; Guilherme Caravante; Evaristo; Neiva Damaceno; Ogg e Milvio; Adilson, Quidinho, Chico e Paulete Cunha; Maria Ângela e Anita Ribeiro (Pedrão); João Carlos; Ernesto, Roberto e Jorge Debouch; Celsinho Português e Boinha; Lourenço (Evódio); Marina, Claudio e Jair Xavier; Augusto, Graça (Pato Bravo); Luzia e Rosa Lourenço; Ortiz; Ari Tragadinha; Pacú e Quito;  Jussara Rodrigues Vieira; Tereza Correia; Meire e Neusa Ramos; Nice Sarjão; Eduardo Bocão; Eduardo Medeiros, Eduardo (irmão do Veto), Wendy, Ana Maria Primo; Graça, Fátima Seabra; Pinduca; Soninha (Jota Jota); Avelar, Siomar e Aleomar; João Vanalli; Míriam Maluly; Vilma Oliveira; José Ângelo Pereira; Luiz Maria Brites; Paulo César Ramos (Alemão); Olguinha e Emydio; José Armando Salomão e irmão; Oswalda e James Galeano; Alemão do Frango; Bruca,  Vera Lourenço; Selma e Wando Macedo;  Selminha, Aldaci Araújo; Roberto Guarnieri;  Juarez Lampião, Zé Cata Rabo e Ademar Dassiê (funcionários do açougue do João Garganta), Beto e Batista (Tornado).

Numa geração intermediária, entre esses citados e a dos adolescentes, viveram esses jovens: Pi; Ricardo Carioca; Jairão; Chonho e Remi Carioca; Romualdo Suzuki; Beth; Herminho; Dário Amaral; Samuca (Samuel de Paula); Zé Lourenço; Marcão; Renato Rolinha; Neide e Donizete; Eliana Duque e Álvaro; Ivete, Almir, Ademir (João Mendes); Angelo Omote; George Saito; Scudelari; Lincon e Olivia; Renê; Wander; Celso Dunke; Ravashiro Nantes; Rogério Zinezi; Marivete Lopes; Cido Canela Duque; Mamoro; Carlos Bonilha; Daniel e Carlinhos Gil; Tamashiro; Paulinho Yoshitake; Cido Pelegrini; Nascimento; Natalício Tolentino; Alfredo e Ciro Costa; Sinval Galeano; Francisco Andrino; Tata, Tica e Tina (Terêncio).

Na medida que a década de 70 caminhava para o fim, muitos desses jovens citados tiveram suas vidas transformadas não só pelo tempo mas também pelo inexorável efeito das suas escolhas, tomando rumos e construindo destinos. A maioria deles foi viver nas grandes cidades, principalmente em São Paulo, a eterna metrópole de sonhos e oportunidades. Alguns foram viver no exterior e uma outra parte, diga-se de passagem, em quantidade muito significativa, migrou rumo ao centro-oeste, acentuadamente para Campo Grande e Cuiabá, seguindo a vocação aventureira e bandeirante do seus antepassados.

Na medida também que a madeira se tornava escassa e a serrarias iam fechando as portas, ocorria uma debandada de famílias que viviam desse negócio, bem como no ramo da navegação fluvial e do transporte ferroviário. Segundo Adão Cruz (Ventos de Tibiriçá), nas décadas de 1950 e 1960 chegaram a funcionar em Epitácio 16 serrarias de grande porte, sem contar as pequenas, chamadas de pica-pau, que eram muitas e espalhadas pelos arredores do perímetro urbano.

A juventude epitaciana sofreria nesse período de declínio duas diásporas marcantes na sua história, em função dessas mudanças na pequena economia da cidade e também pelas limitações culturais para os que buscavam formação superior e ingresso em empregos e carreiras mais promissoras. Entre os meados das décadas de 1970 e 1980, ocorrem duas grandes migrações e simultaneamente surge uma outra geração de adolescentes e jovens quase adultos que também teria uma vivência marcante na história de Epitácio. Eles presenciaram regionalmente a chegada dos primeiros funcionários da CESP, o assentamento rural da Lagoa São Paulo e a euforia turística da construção do balneário Thermas e do Centro de Lazer do SESI. Seus olhos foram testemunhas de muitos eventos que também marcariam essa época que foi chamada assustadoramente de “o fim da civilização ocidental” e moralmente de “o declínio do império americano”: a eclosão da AIDS e da cocaína; a ascensão e queda rápida do estilo yuppie ou mauricinho; a série de TV Dallas e a novela Roque Santeiro; a retomada da cultura punk, perdida no final do anos 70; a explosão das bandas de rock nacional, fortemente simbolizada pelos grupos de Brasília e pela canção Faroeste Caboclo; o primeiro Rock in Rio; os discos do Dire Straits e U-2; os shows de Michael Jackson, Queen e Madona; os filmes Top Gun e Ghost; viram também o filme e o projeto Guerra nas Estrelas, o fim da Guerra Fria, a queda do Muro de Berlim, a propagação do PC,  da nova música sertaneja; e a  massificação do hambúrguer e da pizza. Era também o   começo do fim do regime militar no Brasil e o início da Nova República. Sabíamos que estávamos entrando no futuro, porém nenhuma imaginação poderia traduzir o que seria de fato esse mundo avançado da globalização, da internet e das redes, das gerações Y e Z e da explosão empresarial do Vale do Silício. Ninguém pôde ou quis prever o terrorismo na sua forma mais assustadora e imprevisível como a que o ocorreria no 11 de Setembro.

Dos jovens que viveram nessa época, a maioria era criança quando saímos de Epitácio. Eram os irmãos mais novos dos meus amigos de infância e rapidamente avançaram para os seus anos dourados. Eles também se dividiram em duas turmas sucessivas, entre 16 e 18 anos, e provavelmente conviveram também com um grupo menor intermediário, na faixa etária entre os 13 e 15 anos.

Numa primeira fase, do final dos anos 70 e início dos anos 80:

Espedito Rocha; Caio de Paula; Marisa Bergamasco; Beto Noronha; Miguel Soler; Linconl Saito;  Eliane Batista; Alfredo Benitez; Dilma; Laura Langh; Zé Gomes Rocha Neto; Plinio Weller; Marcia e Maristela Talavera; Hamilton Cândido (Mito); Fernando Perin; Angela Narezzi; Amarildo Cruz; Camilinho; Dalva (Jordão); Denise Perin; Enila Galvan; Olívia Avalone Pires; Rose Murad;  Denise e Marcia Toledo Xavier; Sylmara Zanatta; Ione Deak; Cigano, Elena Brites; Norma Belotti; Rita Suzuki; Amarilis e Valéria Amaral; Alfredo Natalício; Nilena Weller; Alencar Carvalho; Remy  e Fernando Albuquerque; Valéria e Luis Carlos Olimpio; Brigu (Wellington Souza Silva); Eder; Zé Luiz; Vico; Pedrinho Ribeiro; Sandra Bustamante; Marcos Luiz Gonçalves; Rita de Cassia; Fernando Ribeiro(Peninha); Lísia Giglio; Perez; Mailde Rocha; Ivânia; Luciano José; Rosilda Suzuki; Mara e Marcia Azevedo; Ivan Oliveira; Fernando Giglio; Dulce Menezes; Hamilton Lombardi; Caio Batata; Ana Paula Mikhail; Zé Rodrigues, Lucinda Resende; Jurema Santos; Lenir Sanches; Ítalo Júnior; Mão e Mimo Holpert; Eda e Ena Amaral; Soraia do Amaral; Sullyvan Ribeiro; Edela Nicoletti; Eddy Martins; Simone Garcia Castro; Ricardo Corat; Kátia Lopes; Flávio Rocha; Elis Samuel; Marcia Molina; Renato Rodrigues; Adriana Rodrigues; Rosana Gomes; Lélia. 
  


Numa segunda fase, de meados dos anos 80 e início dos anos 90.
Mônica Ferraz Donke; Anita Fernanda; Marcelo Martins; Vania Benício; Roberta Alessio; Vera Lucia Pereira; Alex Santana; Walter Silva; Juliana Castor; Vander e Willian Murad; Jeferson Silva, Júlio César Olimpio; Aguinaldo Silva (Nanau); Rafel Bordin; Maxwell (Ribeiro da Silva); Alexandra Dussilek; Augusto Ribeiro Marinho; Ralpho Minatti; Fabrício; Cristiane Néspoli; Claudia Melo; Rita Marchetti; Goda (Tereza Cristina); Adriane Cunha;  Glaucia Bonilha;  Mônica Marques; Mônica Ortiz; Luciana Guinossi; Sérgio Nova; Renata Muller dos Santos; Paulo Zorbal, Andrei da Silva; Joaquim Ribeiro; Claudio Perin; Ronaldo Bezerra; Mitô (Hamilton Mendes); Marcelo Talavera; Djalminha Carioca (Albuquerque); Zé, Mané e Netinho; Jamil e Khalil; Tatiana e Luciano Narezzi Brito; Emil Mikhail Jr; Adriana Miguel; Claudio Moreira; Helinho Bergamasco; André Sabrina; Nilton José; Claudinei e Edneia; Sergio Nova; Marcílio Rolin; Soraia Nasro; Tânia Szucs; Eleni Maciel; Tânia Martins; Picucha (Sidnei Caio); Ronaldo Corat;  Cleide Barbosa; Daniel Salomão; Ana Elisa Loyola;  Tato e Carla Lopes; Juliano Lima; Roberto Bergamo; Wilsinho Melado; Guta (Washington Souza Silva), Simone (Miruca); Cuca; Marlan Melo; Alemão Tedesco; Adrian Silva; Keila Kotai; Denise Monteiro; Joelma Amaro; Cintia Nascimento; Neusa Klebis; Sabrina Castor; Grasiele Liberato; Amarilis Santana; Mariucha Gorre; Daniela Magalhães; Adriana Araújo; Luciane Robert; Fernando Xavier.

A gerações seguintes, dos anos 90, viveriam uma década não tão diferente da anterior nos seus valores, porém com intensas mudanças de costumes e modismos como a explosão da música sertaneja, dos rodeios e da moda country. A mais revolucionária das transformações desse período foi a Internet e o advento das redes sociais, cuja tecnologia de comunicação permitiu o contato informal de pessoas com afinidades culturais e históricas formando inúmeras comunidades temáticas na rede mundial de computadores.  Nesses dez anos que antecederam o século XXI, os jovens dos anos 70 e 80 realmente envelheceram e passaram a cultivar suas memórias, agora por meio de encontros virtuais e presenciais para relembrar seus melhores e marcantes momentos de amizades e conflitos. Seguindo uma tendência que acontecia praticamente no mundo inteiro, antigos jovens epitacianos dos anos 70 idealizaram e organizaram em 2010 o “Mega Encontro” de turmas daquele período, logo seguidos por outras iniciativas das gerações mais novas. O nome “Mega” certamente era um exagero tanto dos idealizadores quantos dos que receberam o convite de participação, imaginando naturalmente - como aconteceu comigo – que reencontraríamos todos os nossos amigos e conhecidos e que reviveríamos com todos os sons, cores e aromas as grandes cenas do Cine Azenha, do jardim, dos carnavais e principalmente das Festas da Praia no antigo Figueiral. A grandiosidade era puramente simbólica e os encontros foram reduzidos, aconchegantes, com muitas e sentidas ausências, porém com intensas emoções dos que compareceram, sobretudo as mulheres, cuja vivacidade emocional espontânea sempre dão maior brilho a esses eventos. Nas próximas décadas muitos outros “Megas” virão, tão grandes e significativos como os primeiros.
OS ANOS DA DITADURA

As gerações pós-JK viveram seu auge ou nasceram durante o regime militar, aprendendo a ignorar as liberdades civis, os valores e a amplitude da democracia. Nesses anos todos havia algo de muito esquisito e podre em nosso reino; e pairava no ar um estranho silêncio, bem como um imposto toque de recolher da cidadania.

Epitácio também sofreria os duros tempos da ditadura militar, instalada em 1964, com o golpe de Estado e deposição do presidente João Goulart. A cidade nova e institucionalmente primitiva era um campo fértil para o reacionarismo, bem como para alguns focos de contestação. Nos primeiros anos todos achavam que tinha sido apenas uma “revolução” para conter as reformas de base, de conotação popular e nacionalista. Quase ninguém imaginava que o regime duraria mais de duas décadas. Um destacamento do Exército permaneceu durante anos instalado junto ao posto fiscal do Porto XV, controlando o fluxo da Ponte Professor Maurício Joppert. Esse controle foi maior no período dos conflitos de terras no Campinal. Os carros eram revistados sistematicamente durante o dia e só Deus sabe o que acontecia durante a noite. Nas idas e vindas ao sítio da Reta A-1, o jipe do meu avô Maurício era rotineiramente interceptado como suspeito, pois sempre carregava um bando de moleques em meio a frangos, ovos, latões de leite, queijos, limões e laranjas (proibida por causa do cancro cítrico). Os soldados se aproximavam e logo um oficial tomava a frente da revista. O silêncio era quebrado apenas quando meu avô se identificava e passava a tentar explicar aquela situação, que jamais poderia ser de algum risco para o Regime Militar, com tanta gente e tantas coisas naquele jipe todo sujo de barro branco e forte cheiro de varjão. Nessas revistas o Felão tremia de medo e nunca tinha documentos para mostrar. Certa vez um sargento encrespou porque ele tinha sacado do bolso uma certidão de nascimento toda rasgada. Todos se seguravam para não rir da situação. Desesperado ao ver o sargento soltar o botão da capa da pistola automática, o Felão finalmente confessou e se entregou para o Exército: “Eu sou irmão dele! Eu sou irmão dele!”, apontando para o Zé Curimba, que nesse dia estava dirigindo o jipe. Fomos imediatamente liberados.

  Meu pai contava que, numa ocasião, quando os militares tomaram o poder em 1964, nosso sossego noturno foi incomodado pelos membros militares de uma Comissão de Inquérito. Ele foi interrogado durante a madrugada, um tipo de tortura psicológica. Queriam saber de umas irregularidades administrativas cometidas pelos “comunistas infiltrados” durante o governo do Jango, na verdade alguns funcionários corruptos na Bacia associados a alguns homens de negócios sujos de Epitácio e que fizeram uma triste história de abusos e desmandos até hoje lembrados com muita indignação pelos que eram honestos e justos. Minha mãe se lembrou de queimar no quintal alguns livros suspeitos, presentes do Dr. Álvaro Monteiro, importante funcionário da Bacia e ligado ao Partido Comunista. Meu pai não sofreu nenhum tipo punição, pois não tinha vínculos com o alvo preferido dos militares.

Essa nuvem negra passou e logo a Bacia, usada durante anos como cabide de empregos políticos, seria desmantelada, para a alegria de alguns invejosos e abutres e um insensatos que não percebia que estavam atirando no próprio pé. Quando isso aconteceu, mudamos para Epitácio. A Vila Tibiriçá foi sendo forçosamente abandonada pelos funcionários até ser vendida para um frigorífico que se instalou na cidade. Passou a ser chamada de Vila União e depois Vila Bordon.

 Com o passar dos anos e a morte do Marechal Castelo Branco, o regime mostrou a sua verdadeira face e intenção, tornando-se veículo de ascensão política e econômica de setores sociais antidemocráticos. O clima de insegurança e medo foi crescendo aos poucos, principalmente quando grupos de esquerda decidiram enfrentar os militares por meio da luta armada. São períodos em que os cínicos também alastram suas práticas criminosas, acobertadas pela censura e repressão policial. A gente só escutava rumores. Evidentemente havia “subversivos” e também “dedos-duros” na cidade.

 Eu vi uma cena espantosa no início dos anos 70, quando tinha uns seis ou sete anos: demonstração de fé e também de fanatismo. Foi organizada em Epitácio uma grande ação missionária católica, com a presença massiva de sacerdotes e jovens para evangelizar os epitacianos. Esse projeto de evangelização tinha algo mais do que simples religiosidade e não foi uma escolha casual de conotação apenas mística ou de ação normal da Igreja.  O regime militar estava de olho no movimento católico na região, então tomada por conflitos agrários históricos, com envolvimento de padres católicos simpatizantes dos oprimidos e contra os seus opressores. Para o regime isso não era cristianismo e sim comunismo infiltrado nas igrejas. Todos os líderes, incluindo os protestantes, eram espionados e tinham suas atividades anotadas e registradas no Departamento de Polícia Social de São Paulo – DOPS. O serviço provavelmente era feito pela polícia civil, especificamente de uma delegacia de Presidente Venceslau com informações de alguns cidadão epitacianos. Foi então que, em 1972, na finalização dessas Missões, organizou-se um grande marcha religiosa para cravar na então entrada da cidade um enorme cruzeiro de madeira. Isso marcaria não somente a fidelidade dos católicos epitacianos, mas também a posição política de alguns membros da Igreja naquela região. O gigantesco cruzeiro de madeira simbolizava o sacrifício de trabalhadores da terra pelo poder de fazendeiros e madeireiros. A massa participante e expectadora não tinha menor noção do que estava acontecendo por trás desse evento. Um certo cabo da PM (Florestal), indignado, abandonou a procissão xingando quando um padre subiu no Cruzeiro para conduzir os carregadores e o povo, por meio de um alto-falante. Teve também cenas engraçadas. Um senhor japonês, bem baixinho, largava a madeira de apoio e cruzava os braços quando todos erguiam o Cruzeiro para gritar “Viva Jesus Cristo”! Da primeira vez, ele tinha sido erguido junto com o Cruzeiro. O padre Olívio Reato, que aparece numa famosa e provavelmente única fotografia que registrou a procissão, aparece no canto direito da foto, embaixo, de óculos escuros. Nessa época ele era o principal pivô do conflito entre a ditadura e a facção mais libertária da Igreja, erroneamente rotulada de comunista. Tudo indicava e aparentava que eram somente padres esclarecidos e politizados. O padre Olívio estava sofrendo pressões da polícia civil por ter ajudado os agricultores pobres do Campinal contra os abusos dos latifundiários.

Na região do Pontal do Paranapanema ressurgiram nesse período as antigas disputas de terras entre grileiros e posseiros. Em Epitácio o fazendeiro Zé Dico, em confronto com posseiros, foi morto por um grupo comandado pelo militante esquerdista Edmur Péricles, apelidado Gaúcho ou Gauchão, membro de uma dessas organizações de luta armada. Meses antes da morte de Zé Dico, dois posseiros da família Kuriac, pai e filho, tinham sido mortos por pistoleiros. As terras disputadas eram devolutas pertencentes ao Estado e, anos mais tarde, seriam utilizadas no projeto de reforma agrária da Lagoa São Paulo, próximo ao bairro do Campinal. Na época tudo isso era visto como coisa de comunistas e terroristas. Essa era imagem que foi passada para a população através da imprensa sob censura ou conivente com o regime militar. O caso repercutiu tanto que foi motivo de reportagens em grandes jornais, teses acadêmicas e até um livro do famoso escritor Antonio Callado. A história é uma roda de existências dentro do ciclo eterno da vida. Lendo o livro “Chão Bruto”, de Hernani Donato, dá para entender porque o Pontal continuou sendo palco de violência e desmandos por causa da terra. Posseiros e grileiros se reencontram em papéis invertidos para ajustar velhas contas. Os que ontem eram vítimas hoje se tornam algozes no círculo vicioso do ódio e da vingança.

O início da década de 1970 foi talvez uma das mais curiosas da nossa história recente. A América Latina, dependente dos EUA, vivia a febre dos regimes militares, implantados para combater a ameaça comunista iniciada pela Revolução Cubana. Chê Guevara havia tombado na Bolívia, porém, em diversos lugares, surgiam grupos armados desafiando os antigos e poderosos interesses políticos. Nesses anos as ditaduras se tornariam cada vez mais ferozes: no Chile, no Uruguai e principalmente na Argentina, onde houve matança sistemática dos opositores do regime.

No Brasil estávamos sob o comando do General Emílio Garrastazu Médici, o terceiro e mais “linha dura” dos governos militares. Era o tempo da seleção Canarinho, tricampeã no México, e das vitórias de Emerson Fittipaldi na Fórmula 1. Os brasileiros analfabetos estudavam no Mobral e os jovens mais humildes admiravam as canções ufanistas de Dom e Ravel. As camadas populares não tinham ideia do que estava acontecendo no país e somente uma minoria consumia arte e comunicação contestadora do regime.  Mesmo assim, o presidente Médici conduzia o país com a rédea curta e mão de ferro. A censura era de um rigor implacável em todos os setores e os informantes se alastravam como pragas em todos os cantos do país. Grupos de oposição mais radical, formados por antigos membros do Partido Comunista e inúmeros jovens universitários influenciados pelos movimentos estudantis na Europa e EUA passaram a acreditar que a luta armada era a única forma de mudar a situação política. A ideia seguia a doutrina de guerrilhas desenvolvidas na China, Indochina e Cuba, na qual o poder deveria ser tomado a partir de células plantadas entre os camponês.

Em Epitácio o antigo foco de conflitos de terras entre posseiros e camponeses atraiu a atenção tanto das chamadas forças de segurança quanto dos grupos guerrilheiros que se opunham ao regime. O famoso caso dos Kuriac no Campinal em 1967 chamou atenção da grande imprensa e a Folha de São Paulo mandou como enviados especiais os repórteres José Aparecido e Edvaldo Silva para cobrir os acontecimentos. A matéria com o sugestivo título “Morte nas barrancas do rio Paraná” teve grande repercussão e se tornou referência histórica nos arquivos do jornal. 

Aparecido ficava mais famoso e também mais epitaciano do que nunca. Só sossegou o facho quando – alguns anos depois da aposentaria em São Paulo - se mudou definitivamente para as barrancas do rio. Ainda assim, continuou inquieto, até que assumisse já no final dos anos 1990 a direção do jornal A Fronteira e depois fundasse, com outros inquietos, o pequeno e então atrevido Correio do Porto.  O caso Kuriak teria outros desdobramentos de violência quando, em 1969, o guerrilheiro Edmur Péricles Camargo (Gaúcho), militante maoísta da Aliança Nacional Libertadora (ANL), veio ao Campinal para acertar as contas com o fazendeiro Zé Dico (José Gonçalves da Conceição), na época apontado como principal inimigo dos agricultores assassinados. Gaúcho já havia atuado como aliciador político no Paraná entre os canavieiros de Porecatu.  O guerrilheiro também teria o mesmo destino da maioria dos seus pares na oposição e luta contra o regime.  

Segundo documentos revelados recentemente pela Comissão Verdade, ele desapareceu numa escala de voo em Bueno Aires, durante a viagem que fazia do Chile ao Uruguai. Edmur foi capturado por agentes argentinos da Operação Condor. Uma das suas missões era levar uma carta do Almirante Cândido Aragão, dissidente do regime, para o ex-presidente João Goulart, na época exilado no Uruguai:

“Santiago, 16 de junho de 1971

 Prezado amigo Presidente Goulart

Meu cordial abraço. Preliminarmente congratulo-me com o prezado amigo pelo feliz desfecho do lutuoso desastre que o atingiu e do qual felizmente o Sr. saiu ileso mas que, por desgraça vitimou um nosso compatriota.

   Espero que o Sr. já se encontre em pleno gozo de sua melhor saúde juntamente com Sra. e filhos para satisfação de todos seus amigos. Continuo com muito ânimo resignação e espírito de luta resistindo o desgaste do exílio certo de que voltaremos muito em breve para a nossa querida Pátria.

Tenho a satisfação de apresentar-lhe o nosso valoroso companheiro Edmur Perez de Camargo para quem peço sua valiosa ajuda para tratamento de vista a que o mesmo vai se submeter aí, em Montevidéu com o Dr. Rodrigues Barrios. Certo de que o nosso companheiro terá do Senhor o necessário apoio para sua pretensão, subscreve-se o Amigo certo.

Cândido Aragão”


Apesar do medo e da incerteza, a vida corria simples e conformada nas famílias epitacianas. O cotidiano, os desfiles cívicos, a vida política e as eleições municipais, tudo tinha um clima de apreensão e dúvida sobre o que era certo ou errado. Na dúvida, o melhor era ficar em silêncio. Arquivos do DOPS recentemente abertos atestam que éramos sistematicamente vigiados pelos órgãos policiais sediados em Presidente Venceslau, dando conta de tudo que acontecia nos municípios da região. O principal foco eram os líderes sindicais, o s líderes religioso e membros dos dois partidos políticos permitidos pela ditadura.

Desse período lembro também das campanhas políticas. Era tudo muito folclórico e engraçado. Nunca esqueci de um comício no qual fui com meu pai, no Campinal. No palanque um candidato japonês era muito aplaudido porque tinha um discurso rápido e objetivo. Colocava o dedo indicador na cabeça e dizia somente duas palavras, seguida de uma longa pausa e repetia: “Campinaro, conschiência!”

Consciência e política são duas coisas difíceis de combinar. No interior a política é levada para o lado pessoal. É como religião e time de futebol. Faz parte de um espetáculo de jogo e comunicação social. Tem candidato, geralmente figuras populares, puxadores de votos, que não sabem fazer discursos e que esquecem completamente as falas combinadas. Meu pai chegou a ser vereador sem nunca ter dito uma só palavra num comício. Ele se elegeu como suplente e tomou posse quando o dono da cadeira mudou de cidade. Nessa época vereador era voluntário, não ganhava salário.

Os políticos tradicionais de Epitácio eram Reginaldo Bitencourt (Régis), Joel Irineu Fialho, Jerônimo Ribeiro, Temístocles Maia, Domingos Marinho, Valdir Loyola, Natálio Abib Salomão, dos anos 40 a 60; na década seguinte foram José Luiz Tedesco, Vivaldo Lauro Langhi, Acir Murad, Velozão. Meu avô paterno foi vereador na segunda legislatura, em 1953. Todos eram de fora e a maioria dos seus eleitores também.

Mas o que me lembro com muita clareza foi uma campanha polarizada entre o Velozão e o Roberto Schneidwind. “Filho da Terra ama a terra...”, dizia a música de comício denunciando que Epitácio era quase sempre governada por forasteiros. ARENA versus MDB – Panela versus Minhoca. Celebridades populares como o professor Hermes Martins e o poeta João Brilhante animavam os comícios da Minhoca e da Panela. Quem governava o estado era o Laudo Natel e o General Médici comandava o regime militar. Foi dessa campanha que surgiu mais tarde o fenômeno eleitoral Élio Gomes. O ideólogo da campanha do MDB foi o Valim, militante de esquerda, marido da dona Berta do bazar. O organizador da campanha da ARENA era o Seu Paulo Lopes. O povo ficou fascinado pela candidatura do MDB. Aconteceu uma passeata na avenida principal, na qual uma grande minhoca feita de palha foi sendo carregada nas costas pelos simpatizantes, parecendo os desfiles de dragões chineses. Fiquei muito impressionado com aquela cena na qual as pessoas, revoltadas, desfilavam em estado de delírio e histeria coletiva. Muitos sonhavam que iriam acontecer mudanças profundas na vida deles e história da cidade. Lembro que um colega de escola me desprezava com certo ódio e inveja porque meu pai era partidário da Panela. O garoto, filho de gente simples, dizia empolgado e iludido, que todos aqueles prédios antigos da região da Rua São Paulo seriam transformados em indústrias para o povo trabalhar...

Recentemente, com os governos de Lula e Dilma Rousseff, ele ex-sindicalista e ela universitária e ex-guerilheira, surgiram as Comissões da Verdade, para resgatar parte da história do país, escondida nos porões dos órgão de segurança e na memória de pessoas que se envolveram em confrontos com o regime militar. Em todas as cidades ressurgem arquivos de atividades espiãs e delatoras dos suspeitos de fazer oposição ao subversão aos militares. Esse conceito de “subversão” tornou-se um dogma político, quase sagrado, para definir tudo que significa heresia política contra a ditadura. Essa era uma época em que o cidadão não era bem visto pelo governo; todos eram suspeitos, menos o próprio governo, que se considerava acima de qualquer suspeita e acima das leis. O regime militar se passava por Estado de Direito. Esse tipo de crime, violação da privacidade e das demais liberdades, civis eram praticadas sobretudo com as pessoas que lideravam os grupos que poderiam contestar esses abusos. Outro crime era utilizar a polícia e outros funcionários públicos para exercer essas atividades criminosas com se fosse trabalho legal, legítimo, cívico e oficial. Qualquer desafeto (de qualquer natureza) poderia ser delatado como "suspeito" e perseguido pelo regime. Evidentemente perseguidos e perseguidores vão ser revelados nesses documentos, mais cedo ou mais tarde, causando admiração ou vergonha entre seus familiares. Muitos deles acreditavam estar fazendo o que achavam que era mais justo, pois tinham a convicção de que estavam salvando o país da influência comunista. Por trás desses crimes políticos também estavam outros tipos de ações criminosos, geralmente casos de corrupção e extorsões encobertos pelo medo e pela censura.


TRAGÉDIAS

As mortes trágicas são talvez as marcas mais profundas dos seres e do meio nos quais eles convivem. Fomos ensinados a lidar com a morte como fato biológico e social, entretanto não fomos educados para a aceitá-la como algo que está fora do nosso controle e muito menos para suportar as consequências psicológicas que ela provoca. O desaparecimento súbito e a ausência permanente de alguém próximo ou que conhecemos não tem explicação lógica capaz de preencher e satisfazer plenamente as dúvidas e vazios deixados pelos que se foram. Desenvolvemos mecanismos de defesa e adaptação como os rituais de luto, despedida ou recordação saudosa, porém eles não são capazes de eliminar as cicatrizes abertas pelas dores da perda ou o impacto dos acontecimentos que levaram essas pessoas para longe do nosso convívio. Até bem pouco tempo nossas famílias velavam seus mortos nas nossas próprias casas, nas salas de visitas, abrindo e expondo a privacidade dos lares para que parentes, amigos e também alguns estranhos curiosos vissem os nossos defuntos, prontos para serem conduzidos para suas novas “moradas”. Isso mostra que, apesar da explosão racionalista e científica, ainda não aprendemos a conviver nem aceitar a morte. Seria bom se isso fosse verdade. Nessas horas, admiramos os animais e os humanos insensíveis que reagem como se nada de tão importante tivesse acontecido. Mas nos importamos. E muito. Até hoje nenhuma crença, nenhuma doutrina religiosa ou filosófica foi capaz de apagar das mentes supersticiosas e inseguras o temor e a incerteza sobre a morte, hábito que surgiu num determinado momento da nossa experiência histórica, para o qual, durante milênios, inventamos complexas formas de adaptação e que ainda não conseguimos superar. Tirar nossos mortos de casa, dos velórios e sepulturas domésticas e levá-los para espaços sagrados e científicos como os cemitérios, hospitais ou moderníssimos crematórios não resolveu o velho e incômodo problema filosófico do “por quê” morremos.

 Nas cidades pequenas as tragédias acontecem como em qualquer outro lugar, com a diferença que as vítimas, agentes causais, sobreviventes e expectadores, estão muito próximos entre si, aumentando ainda mais o efeito emotivo provocado pelos acontecimentos. Impossível e até imprudente falar, por exemplo, dos assassinatos e suicídios sem que haja uma reação, pequena que seja, de escândalo, indignação ou mágoa por parte dos entes queridos ou pessoas que tiveram um relacionamento mais estreito com os protagonistas de fatos, vítimas ou assassinos. Réus confessos, ainda tenham cumprido suas penas e quitados seus débitos com a sociedade, não conseguem se desvencilhar dos olhares curiosos e comentários indiscretos; sem falar nos dilemas secretos e íntimos da consciência, que os atormentam no dia-a-dia. Que dizer então daqueles casos que permanecem na obscuridade, impunes e não solucionados pela justiça aparente, mas que ficam no eco permanente das lembranças de todos, como se fossem testemunhas eternas desses delitos anônimos. Tudo isso se instala e se esconde nas nossas memórias durante toda a existência, de forma próxima ou distante, direta ou indiretamente, como registros invulneráveis, que não podemos apagar.

O mesmo já não acontece com as tragédias acidentais, atribuídas ao acaso. Elas se tornam eventos públicos, logo apropriados como acontecimentos de interesse coletivo, causando comoção e também compromisso ritual de todos. Os grandes vilões dessas tragédias em Epitácio e Tibiriçá, bem como nos seus arredores, sempre foi a força natural do gigantesco rio Paraná, com os chocantes afogamentos; das rodovias asfaltadas, velozes e perigosíssimas, com seus sinistros espetaculares e impressionantes; e as matas misteriosas, com seus riscos naturais, bem como os raros, porém infalíveis acidentes de caçadas e pescas.

 De quantas mortes, fora da esfera familiar, me lembro e que causaram forte impressões e comoções populares?

Na década de 1970 foi o Euclides - que era escoteiro; o irmão mais velho do Jêra e da Mazé; Ernesto Coser e Amândio Pires. Recentemente aconteceram os acidentes dos filhos do Roberto Bergamo, do Quirino e do Tião Lima; e também dos filhos do Tião da Farmácia; Nelson Weller e a esposa; a família do professor Juquinha e tantos outros. Tudo sempre encarado de forma muito dramática. Quando eu era moleque, durante o dia ficava nos velórios, acompanhava os enterros e depois passava a noite em claro, com medo dos defuntos. Esse medo é muito maior quando se tem sensibilidade mediúnica e entramos, pela forte impressão dos acontecimentos, em sintonia com o sofrimento mental dos “mortos”. Morando ainda Rua Curitiba, lembro de uma madrugada na qual vieram acordar meu pai para identificar os corpos de três jovens mortos em um acidente na rodovia Raposo Tavares, próximo ao Posto do Arlei. Um dos jovens era o meu primo, Aloísio Dunke; os outros eram Paulinho Vanti e Noboyuki. Meu avô, que havia desencarnado dois anos antes, em 1966, nos disse numa reunião mediúnica de família que tinha sido avisado dessa passagem do primo, não dos detalhes, que seria um acidente, nem da data, mas que haveria o desencarne e que ele deveria preparar-se para receber parente em sua nova morada. Ele nos relatou esse fato com certo humor porque, segundo ele, como Espírito recém-liberto das dúvidas de além-túmulo, ainda não conseguia esconder sua preocupação, como se ainda estivesse na Terra, ao receber essa “notícia antecipada” de morte. Na mensagem ele dizia que fora “alertado” apenas para que se preparasse para algo extraordinário, mas não sabia exatamente com quem e como seria o acontecimento. Entre os encarnados a notícia do acidente foi dada alguns dias após acidente pela Gazeta Epitaciana, do professor e na época correspondente do Estadão, Waldemar Lourenço. Uma foto do enterro dos três rapazes mostrava em primeiro plano umas garotas trajadas de bandeirantes - escoteiros femininos- acompanhando o enterro. A foto era em preto e branco, mas recordo que o uniforme delas era feito de brim azul marinho. A que mais se destacava, em primeiro plano, era a Margarete, filha da Nair Cabeleireira e do Orlando da Cantina. No início dos anos 70, Margarete se casou com o Homero, um jovem artista plástico muito alegre e fraterno. O casamento aconteceu na cantina, numa cerimônia inesquecível, em ambiente hippie místico, tipo Hair, com muitos jovens cantando músicas alegres e cantos religiosos de paz e amor (Shalon, Shalon...). Fui ao casamento em companhia do meu amigo Gilmar Saraiva, cujos irmãos e irmãs mais velhos tinham sido realmente convidados. Éramos dois meninos curiosos observando tudo ao redor. Gilmar era um pouco mais velho, tinha também irmãs mais velhas, me informava dos detalhes que a maioria dos convidados desconhecia. O fato de uma a noiva casar grávida e com vestido lilás era o destaque. Não recordo se teve padre fazendo a celebração e, se teve, deve ter sido o padre Olívio Reato, sacerdote muito liberal, admirador da caipirinha do Finanbar. Padre Olívio, foi posteriormente transferido para a cidade de Limeira, provavelmente por causa do seu envolvimento na questão agrária do Campinal, obviamente defendo os lavradores.

Margareth e Homero desencarnaram em 1986 num trágico acidente de carro quando saíram de São Paulo para passar um fim-de-semana em Lins. Com eles também se foram os dois filhos e uma irmã do Homero. Nunca esqueço que, numa tarde de sexta-feira, ao sair da agência de publicidade que ele dirigia em São Paulo, no centro da cidade, depois de uma rápida visita, pois era muito ocupado, ele fez questão de nos acompanhar para tomar um café. Nessa tarde estavam conosco ele, o Mia, talvez o Ferraz. Estava alegre, como sempre, satisfeito com a prosperidade e o sucesso da agência, cheio de projetos. Estava também se despedindo de nós. Mantivemos uma ligação psíquica e espiritual durante muitos meses após o acidente. Sempre que passo pelos calçadões centro de São Paulo lembro do Homero em pé, pensativo, admirando e prestigiando com alguns trocados os artistas populares que ali se apresentavam.

Na Era da Informação o acesso fácil ao conhecimento não diminuiu o interesse pelas tragédias, pelo contrário, a circulação de informações desse tipo aumenta o sentimento de solidariedade e compartilhamento do luto. As mensagens de condolências se propagam numa velocidade espantosa levando consigo a notícia do óbito para aqueles que ainda desconhecem o fato. Recentemente foi informado numa rede social o desaparecimento do amigo Zé do Caixão, cuja ausência por mais de 72 horas provocou expectativa, muita inquietação e também a desconfiança de que algo mais grave ou trágico havia acontecido com ele. Desaparecer sem deixar pistas é o mesmo que morrer durante esse período de sumiço e falta de explicações sobre o que realmente aconteceu. Não foi dessa vez. Zé do Caixão reapareceu são e salvo, para o alívio de dezenas de amigos, antigos e novos, principalmente os virtuais. Aliás, é bom lembrar que o Zé sempre aprontava esses desaparecimentos misteriosos e aparições súbitas em nossas brincadeiras de esconde-esconde (nas quais ele se sumia na loja de esquifes do pai e ninguém tinha coragem de procurá-lo); ou então quando ficávamos acampados na frente da Capitania dos Portos e, tarde da noite, ele entrava sozinho no cemitério velho e desaparecia por alguns minutos. Certa vez acampamos no sítio do meu avô, em Mato Grosso. Noite de lua cheia e, pra variar, Zé do Caixão dava um dos seus sumiços e de longe começa a uivar. Voltando para a barraca, surpreendia a todos com o seu inimitável e estrondoso arroto, provocando, para o nosso alívio, gargalhadas de todos. Era o Zé do Caixão, o sinistro.


NOITES NO JARDIM

O jardim da Igreja Matriz foi durante as décadas de 1960 e 1970 o principal ponto de passeio e encontro de Presidente Epitácio. Ao redor dele estavam localizados os pontos comerciais mais estratégicos da cidade. As calçadas internas e externas eram uma verdadeira passarela popular, principalmente nas noites sábado e domingos, sempre ocupadas por famílias, casais de namorados, pequenas turmas de jovens amigos e muitas crianças em franca correria.

Nos finais de semana que coincidiam com o pagamento de salários, para a alegria dos pipoqueiros, o jardim atraía um multidão que ficava dando voltas e mais voltas, até que desocupasse um dos bancos. Os momentos mais disputados eram quando acabava a missa e a primeira sessão de cinema.

Nas noites verão, que eram as mais concorridas, fazia grande sucesso a fonte luminosa com seu inesquecível espetáculo aquático multicolorido, animado pelos discos de música orquestrada. Às vezes o disco furado ficava pulando, mas todos prestavam mais atenção nos desenhos de jatos de água lançados no ar. A mudança de vento era o momento mais aguardado pela garotada, que corria ao encontro da gostosa garoa que molhava e refrescava seus rostos.

Entre as dez e à meia noite era hora de ir para casa.

Muitos frequentadores do Jardim, antes de se recolherem, aguardavam as primeiras fornadas da padaria do Supermercado Neto, chefiada pelo seu Assis (filho do Seu Domingos Guarda, da Vila Tibiriçá), pai do Padeirinho e da Sarinha, cujo destaque era o pão sovado quentinho, vendidos em deliciosos gomos. A saída da sessão das dez do Cine Azenha, sobretudo aos domingos, era o sinal de que a noite estava entrando da fase alta e que era hora de tomar o rumo de casa.

Mas o jardim era também fascinante para os notívagos, principalmente aos sábados, os que permaneciam ali até as altas horas da madrugada. Era um desafio inconsciente à disciplina do horário ou à lei do silêncio. E numa época em que não havia tanta violência, era possível até mesmo esperar o pôr-do-sol das gostosas manhãs de domingo.

Aliás, no jardim acontecia de tudo. Era o principal centro de referência urbana. Era próximo da estação de trem e no seu entorno próximo ou mais distante localizava-se o comércio forte: Correios, Coletoria Estadual, Capitania da Marinha de Guerra e escritório da Marinha Mercante, Banco Cabeça de Boi, Casas Pernambucanas, Casas Buri, Casas Karazawa, Brasimac, as principais farmácias (do seu Marinho, do seu Antônio, do Paulo Hondo), Armazém do Velozo, Oficina Yoshitake, Bazar XV, Alfaiataria Garrido, Consultório do Dr. Alberto e dos dentistas mais requisitados, dos advogados, escolas de datilografia, hotéis (Central, Tropical, Brasil) gráficas do seu Bonilha e do Tedesco, açougues do João Garganta, da Dona Maria e da Dona Pina, Bazar da Dona Berta, Loja e Serviço de Alto-falante do Pedro Yaraian, Fórum (depois Câmara Municipal), Padaria e Supermercado do Neto, Postinho, Bar do Ponto, Pipocaria do seu Bides e tantos outros.

Figuras de todos os tipos circulavam no jardim. Epitácio era cidade “fim-de-linha” da estrada de ferro e recebia no último trem noturno, das 22 horas, as levas de marginalizados da Capital e outras cidades do estado. Também apareciam muito índios, vindos de Mato Grosso, derrotados e completamente perdidos. Certa vez conversamos com um deles, pois veio reclamar das nossas provocações dizendo que não era bugre e sim kaiowá. Pedia ajuda para voltar para Campo Grande. O apito do trem era o sinal de que as casas que ficavam no trajeto entre a Estação e o Centro Social São Pedro seriam visitadas pelos retirantes da Alta Sorocabana. Batiam palmas, tarde da noite, para contar sempre as mesmas histórias, pedir um prato de comida, cigarros e, quem sabe, um olhar de esperança. Depois atendidos no Centro Social eram encaminhados para as fazendas, como mão-de-obra barata. Os mais problemáticos, os alcoólatras e doentes mentais, permaneciam mendigando pelas ruas. Alguns deles marcaram época como andarilhos incorrigíveis: Perobinha, que andava com penduricalhos pelo corpo; o Índio, que era negro, e morava no cemitério velho (atual Abrigo de Velhos) e o famoso Bragadá, que tinha delírios de grandeza, exibindo uma grande ferida na perna dizendo que tinha sido um acidente aéreo. Certa vez apareceu em casa um que pronunciava frases desconexas e dizia ser professor de inglês. Pouca gente desconfia que por trás dessas personalidades perdidas e marginais se escondem grandes mentes que no passado de outras existências abusaram das riquezas, do poder, da inteligência e que muitos deles foram suicidas, em fuga de graves provas. Uma figura também inesquecível que circulava pelo jardim, após a sessão de cinema era uma jovem paranoico que fantasiava ser agente secreto – duplo e triplo – da CIA, KGB, e até da SS nazista. Ele fazia revelações interessantes e engraçadas sobre as ligações secretas de pessoas importantes de Epitácio com celebridades e órgãos internacionais de espionagem. Aproximava-se e sussurrava: “O Fulano é informante dos tupamaros; o Cicrano é perigoso, pois é agente infiltrado na prefeitura, a serviço do general Pinochet; o Beltrano trabalha para a Gola Meir. Na minha primeira viagem de retorno e férias em Epitácio, em 1974, fiquei surpreso ao saber que ele era um dos guardas de segurança de um banco, trabalhando armado.

Nos anos 1980 o jardim e a Praça da Matriz entrariam em decadência, como aconteceria com praticamente todas as praças centrais das cidades brasileiras onde se localizavam os cinemas, igrejas, hotéis e rodoviárias, grandes pontos de concentração urbana. O advento da televisão, com suas novelas, séries e filmes, esvaziariam os cinemas atingindo também os demais negócios de alimentação e entretenimento que dependiam desse movimento do público noturno. Próximo do jardim da Igreja Matriz de Epitácio ficavam também, na mesma rua, as agências rodoviárias da Andorinha e da Viação Mota. Na décadas de 1970 e 1980 elas substituiriam gradualmente o velho guichê da estação da E.F. Sorocabana para funcionar como principais pontos de ligação com as cidades mais próximas e sobretudo com a nossa sempre requisitadíssima Capital.

A antiga Rodoviária de São Paulo, próximo da Estação da Luz, sempre foi um lugar especial para quem deixou o interior para fazer a vida na Capital.  O prédio foi construído em 1962, no governo Ademar de Barros e custou na época 200 milhões de cruzeiros aos cofres públicos. Durante longos anos ela foi a modernidade que ocupou o lugar das velhas estações da Luz e Júlio Prestes.

Porém, com a explosão populacional na metrópole nas décadas de 1970 e 80, a rodoviária também seria substituída por uma nova onda modernizadora, nos vários terminais no Metrô, tendo a estação Tietê como o principal ponto de partida e chegada. Hoje, quem quer viajar para a região de Presidente Prudente tem que se locomover até a estação Barra Funda.

 Local de encontros e desencontros, alegrias e tristezas, surpresas e decepções, a antiga rodoviária paulistana já era nos anos 60 um lugar de trânsito para inúmeros regiões do Brasil. Uma das suas atrações nos anos 70 eram as dezenas de televisões a cores, instaladas para distrair, literalmente, os passageiros que aguardavam seus horários. Ali, diariamente eram vendidas milhares passagens nos guichês, nos quais as pessoas se inclinavam com muita expectativa para fazer aquelas perguntas comuns, porém carregadas de muita emoção e ansiedade:

- Tem passagem????

- A que hora chega o ônibus???

Fins-de-semana, feriados prolongados, férias, período de festas de final de ano. Rodoviária cheia e milhares de pessoas estranhas num vai e vem de malas e bagagens de compras. Quem passava por ali sempre se perguntava: de onde vem e para onde vai tanta gente? Quem são todas essas pessoas cujos rostos desconhecidos não dizem nada sobre os meus amigos, vizinhos ou companheiros de trabalho?

Na plataforma de embarque da Andorinha ou da Viação Motta, concessionárias das linhas de tráfego nas rodovias Castelo Branco e Raposo Tavares, essa sensação podia ser desfeita para os viajantes interioranos. Na medida em que se aproximava o horário de saída ou chegada dos ônibus, apareciam também alguns rostos que não eram mais estranhos. Eram os que vinham trazer alguém que ia embarcar ou então esperar por alguém que estava chegando. Nesses instantes as fisionomias sérias mudavam com pequenos sorrisos ou curiosidade, sinais que surgem no rosto de quem reconhece alguém que não via há muito tempo. Troca de olhares, depois um aceno e, dependendo do grau de intimidade, um cumprimento mais efusivo com apertos de mãos, abraço, seguido de um bate-papo sobre tantas coisas. Algumas conversas terminavam logo na porta do ônibus. Outras eram tão compridas que duravam toda a viagem de oito horas, entre São Paulo e o Porto Epitácio, a última cidade da rodovia Raposo Tavares. Era uma forma de matar o tempo e a saudade, de saber das últimas notícias e principalmente das pessoas. E também de ouvir muitas histórias.

Quem nunca passou pela antiga Rodoviária de Sampa, pelo Terminal do Tietê ou da Barra Funda? Quem nunca encontrou ali, no embarque ou no próprio corredor do ônibus, um velho amigo ou simplesmente alguém conhecido do interior?

- Quer sentar no corredor ou na janela?


Morando em São Vicente, nas férias escolares sempre dava um pulinho em Epitácio. É muito bom você voltar para a cidade de onde você saiu. Quem mora no interior desenvolve naturalmente um “complexo de Jeca”, mas quando você sai do interior esse complexo muda para uma espécie de “orgulho de raiz”. E tem outra vantagem: você se torna foco de interesse de quem ficou e fica sendo paparicado. Quem sai alimenta para sempre uma visão romântica do lugar e das pessoas. A gente sempre fica pensando nas madrugadas calmas e silenciosas, sente no vento o cheiro do mato e do rio. Era interessante voltar porque a gente imaginava que, por estar fora, o tempo ali não passava. Ficava surpreso quando descobria que as coisas que aconteciam fora também repercutiam por lá, do tipo moda, eventos políticos, novidades tecnológicas.  Falando nisso, a primeira vez que vi uma TV em cores foi na vitrine da Brasimac, que ficava bem em frente da Igreja Matriz. Foi em 1973. Fiquei tão espantado que corri para contar a novidade para os amigos. Lembro que o Varlô me esnobou com muitas risadas dizendo que na rodoviária de São Paulo tinha muitas delas. No interior a TV tinha um significado muito mais fantasioso e mágico. No interior a TV tinha um significado muito mais mágico. No final dos anos 60, foi feita em Epitácio uma gravação da novela “A Cabana do Pai Tomás”, da TV Globo. O rio Paraná fez o papel do rio Mississipi. As cenas foram feitas no Parque Figueiral. Alguns epitacianos foram convidados, de improviso, para atuar como figurantes como, por exemplo, o Padre Olívio Reato, que trabalhou como comandante de uma embarcação a vapor do século XIX. A escolha do Figueiral como cenário da novela foi até compreensível, pela paisagem natural e selvagem do lugar, porém deve ter sido um transtorno deslocar elenco e equipe técnica a 640 quilômetros da Capital apenas para filmar algumas cenas que talvez não tenham sido nem citadas na grande imprensa, assim como não está registrado até hoje nos arquivo da TV Globo.

Apesar de ser um tema consagrado da literatura norte-americana, a novela não teve a repercussão e audiência esperadas e logo foi tirada do ar. Outro fator que pesou no fracasso e na mudança de planos da emissora foram as críticas, pesadas e bem difundidas, feitas pelo dramaturgo Plínio Marcos (coluna Navalha na Carne, do jornal Última Hora) indignado com a concessão do papel de um personagem negro para o ator branco Sérgio Cardoso, que pintava a cara com tinta negra para interpretar o personagem, semelhante ao que fazia o cantor de jazz Al Johnson nos anos 20. O papel estava reservado para ator Milton Gonçalves, mas foi vetado pelo patrocinador.

Quando compramos uma TV, ingressamos na modernidade dos anos 70. As antenas eram altíssimas e as novelas eram incríveis: a Fábrica, o Hospital, Selva de Pedra, Beto Rockfeller, o Bofe, o Espigão e Gabriela, as duas últimas coloridas. A TV a côres dos pobres era um enorme prancha transparente de acetato com três tons: azul, magenta e verde, dando uma falsa impressão pigmentação dos pontos e chuviscos. O rádio estava um pouco em baixa. Só escutávamos quando íamos passar uns dias no sítio do meu avô, ouvindo a programação rural e sertaneja e também a Hora do Brasil, na hora do jantar. Minha vó fritando bifes sob a luz de um lampião, cachorros famintos rodeando a mesa e nós observando seu Maurício de pijama aguardando o locutor pronunciar o texto e a famosa vinheta da abertura com um trecho de O Guarani: “Em Brasília, 19 horas...”

  Nessa mesma época a prefeitura instalou uma TV no jardim da Matriz. Era uma grande atração popular, principalmente nas noites de domingo, quando também funcionava a fonte luminosa. Bem próximo, o Cine Azenha, triste e abandonado, já se preparava para realizar suas últimas sessões.


NOS BARES DA VIDA

 “Bar é cultura”, diria o alcoolista erudito. “E cultura e fundamental”, concordaria o bêbado inveterado.

A finalidade do bar em todos os lugares onde eles existem é somente uma: beber. Todos o restante funciona como pretexto para continuar bebendo. Nas cidades do interior, como nas cidades grandes, os bares funcionam como clubes de fraternidade alcóolica, onde as pessoas de todas raças, profissões, classes, credos (ou discretos) se tornam iguais, do mesmo nível, “cachorrada da mesma laia”, diria a minha vó Maria, irritada com as lembranças dos porres do meu avô.

Uma coisa é certa nos ambientes dos bares: todos os frequentadores são grandes filósofos e sociólogos, intérpretes acuradíssimos da realidade objetiva, do que passa pelas calçadas e principalmente pela vida dos outros. Não existe assunto ou especialidade que não seja alvo de especulação ou objeto de análise dos frequentadores de botecos.

Analisando pela ótica sociológica, o bar possui uma infinidade de funções: é um lugar de diversão, exibicionismo, de fofoca, de negócios, de discussões, brigas, de fazer as pazes, de violência e morte, de sedução, de namoro, de flagrantes delitos, de traições e perdões, reconciliações, tratos e distratos, de realizações, ilusões e decepções, de solidão e busca de amizade, de doença e cura, choros e gargalhadas, lamentação, despreocupação e desespero,, lugar de contar vantagens, de confessar a verdade, de afogar mágoas, de tramas políticas, de dramas passionais, de jogo, prostituição, tráfico de drogas, conspirações, planos de crimes, de fazer dívidas, de agravar as dívidas, de comemorações infindáveis e de saciar desejos infindáveis. Enfim, o bar é o espelho conflituoso da consciência e da realidade humana; é o público e o privado convivendo juntos. Uma cidade sem bares seria como uma bomba-relógio. É possível que a ausência e proibição deles provocaria uma rebelião silenciosa que acabaria numa catástrofe psíquica coletiva de grandes proporções, como aconteceria se não houvesse prostíbulos na época em que a repressão sexual era muito intensa.

Em todos os bares e botecos que passaram pela história de Tibiriçá e Epitácio podemos identificar essa características, que são as bagagens pessoais dos seus frequentadores. Em todos os tempos surgiram os bares da moda e muitos deles se tornaram memoráveis exatamente porque marcaram época, juntamente com personalidades curiosas e folclóricas inesquecíveis. Inúmeras figuras boêmias, de todos os tempos, de gerações diferentes; umas alegres outras tristes, passam pela nossa memória, sentados à mesa do bar ou encostados nos balcões observando avida passar. Alguns frequentavam alguma vezes; outros todos os dias; uns de vez em quando; outros sempre. Bebedores moderados sempre dizem par si mesmo: beber faz mal à saúde. Já os sem moderação não têm a menor dúvida em citar o barão de Itararé para justificar seus excessos: “O fígado faz mal à bebida”.

Onde, senão na mesa do bar, poderia ter surgido a ideia da Festa dos Pretos?

Discutia-se ali a seriedade cívica do 13 de Maio e decidiu-se transformar a data comemorativa, criada por decreto, numa festa mais descontraída e autêntica, onde o reconhecimento do valor cultural da raça negra era puro sarro: os brancos serviam os pretos até à meia noite e depois tudo ficava igual. A primeira festa foi realizada na casa do Belmiro e Dona Odete Pimenta. Onde, senão no Brasil, um espanhol dono de bar poderia concordar em se vestir de Nega Maluca e fazer o papel de noiva do Mário Preto?

Tudo isso é o bar, nesse caso o Bar do Espanhol, ex-bar do Toco, ex-Finanbar do Russo (ficava ao lado do Banco Financial), bar da moda nos anos 1970 e 1980. Antes desse, tinha o Haiti, o Bar do Bernardino (depois Bar do Serra), Bar do seu Almiro, do Mané Lima, Bar do Ponto, Cine Bar, Bar da Dona Helena, da Dona Ana Cabrita, do seu Jesuíno, do seu Matias, do Postinho. Depois vieram o Brilhante, o do Paraguai, do Miguelito, o Bar da Zeca, do Mineirinho e os incontáveis bares mais retirados do centro, de ponta de rua; um montes deles que abriram e que fecharam e muitos que sobrevivem até hoje.

E fim de papo, que é hora de ir pra casa... Boa noite!


AS FESTAS DA PRAIA

O Figueiral ficava ao lado de Tibiriçá e o nome foi dado por causa das figueiras nascidas na margem do rio e sobre um tapete verde de grama. As figueiras do parque não eram do tipo frutífera ou carioca e sim aquelas árvores enormes, típicas do sertão. Os galhos dessas árvores pareciam gigantescos tentáculos em direção às águas do Paraná, em busca da umidade e da luz do sol. Quando, como escoteiros, visitamos a cidade de Panorama em 1973 constatamos a semelhança natural com Epitácio exatamente por causa dessas grandes figueiras na margem do rio.

Na minha infância o Figueiral era sempre lugar de pic-nic em dia de sol, quando multidões vinham de todos os lugares da região para aproveitar os fins-de-semana. Epitácio era a cidade do veraneio, alvo de caravanas que vinham nos primeiros trens da manhã, centenas de carros e ônibus de turismo. Na década de 1950 o evento mais popular realizado no Figueiral era o Dia do Trabalho. Para o memorialista Raymundo Farias de Oliveira (Histórias que o povo conta- Memórias de Caiuá), os pic-nics dos feriados de 1º de Maio aconteciam num ambiente natural, onde era possível celebrar o prazer e a liberdade, momentos inesquecíveis de uma juventude cheia de sensualidade e paixão:

“E assim, nas sombras acolhedoras do Figueiral, à margem do rio Paraná, onde a gordura das carnes, caindo nas brasas vivas, exalava um cheiro capitoso, reunindo e aproximando homens e mulheres que comiam, bebiam, dançavam e cantavam ao som de violões e cavaquinhos acompanhados de pandeiros, o dia se passou entremeado de valsas, mazurcas, rancheiras, tangos, guarânias, marchas e sambas, com músicos se alternando ou somando-se ao som estridente da sanfoninha de oito baixos.  Afundado nas lembranças do dia vivido em Presidente Epitácio, eu rolava na cama de um lado para outro na procura inútil do sono que não chegava. Vestidos de cores fortes desfilavam sensuais diante dos olhos de minha memória juvenil, e o carmim nos tantos lábios carnudos que vi despertavam em mim o insaciável apetite dos colibris, na procura impaciente do néctar disputado com as abelhas... silhuetas de todos os matizes flanavam o universo do meu quarto e decotes mais atrevidos ofereciam-se ao meu olhar juvenil, que se perdia atônito nas saliências e nos desvãos daquela geografia humana doidamente sedutora - um mar de amor onde vagariam os desejos de Castro Alves e de todos os moços”.


Na década de 1960 surge a Festa da Praia. Este era, para muitos da minha geração, o acontecimento que melhor definia esse sentimento de felicidade que tomava conta das pessoas quando desciam a estrada de acesso às barrancas, forradas de grama verde e muitas árvores abundantes de sombra. Tudo era muito simples e muito próximo de uma natureza primitiva e exuberante. O parque tinha equipamentos artificiais, tudo feito de madeira e pintado com cal branca, dando uma impressão de capricho e muito bom gosto para a estética daquela época. Era costume pintar também de branco os troncos das árvores, modismo que hoje certamente seria abominado pelos ecologistas, mas que, naquele tempo, era somente um sinal modesto de cuidado e organização.

Assim como as pessoas de fora admiravam sem nenhum pudor de curiosidade as maravilhas do rio e das suas margens, nós os epitacianos ficávamos fascinados pela diversidade de pessoas, rostos, costumes e procedências que se instalavam no Figueiral. Tudo era uma total despreocupação e fácil divertimento, sem nenhuma barreira financeira ou social. Toda aquela gente indo e vindo, na grama ou na extensa praia que se formava com a vazante do rio, exibindo sorrisos e brilhos nos olhos, como se aqueles momentos de intensa alegria fossem durar todos os dias do ano.

Volta e meia alguém, geralmente crianças, desaparecia afogando-se nos bancos de areia e ouvia-se de longe o choro desesperado de mães que voltariam para casa carregando para sempre a tristeza de sua dolorosa perda. Tirando esses incidentes, tudo era vida, luz, calor e muita diversão.

Na passarela alta do chão, que se projetava do vestiário em linha reta para o espaço onde se concentrava o público, desfilavam as beldades de biquíni e maiô nos concursos de beleza que anos mais tarde seriam reeditados do Festival de Pesca e Miss Turismo. No barracão principal havia o restaurante, a pista de dança e o palco, no qual conjuntos como Sombras ou Embalo Jovem se apresentavam tocando sucessos internacionais e da Jovem Guarda. O melhor momento do dia era a manhã e pior era quando a tarde começava a ficar alaranjada com o pôr do sol, hora de arrumar as coisas para voltar para casa.

O Figueiral era lindo e mágico em todas as estações do ano. As manhãs eram perfumadas pelo cheiro de mato e barro das barrancas. As tardes eram deslumbrantes, com um pôr-do-sol sempre diferente. Nas noites de luar essa magia se tornava mais profunda, misteriosa e sedutora. Quem olhasse o reflexo nas águas tinha a imagem de um enorme espelho despertando a imaginação mística e as mais reveladoras reflexões da alma.

Em Tibiriçá e Epitácio também brotaram, provavelmente pela presença de baianos e mineiros que viveram na região do Rio São Francisco, as lendas da Mãe D’Água e também do Nego D’Água, espíritos na natureza que seguram as embarcações e não soltavam enquanto não são presenteados com cachaça e fumo de corda. A primeira vez que ouvi essa estória foi pela boca de Dona Dita, cheia de superstição e mistério, enquanto comprava doces no bar do seu Quinhone. Ela dizia que, certa vez ao voltar da ilha, teve que a cortar com uma grande faca os dedos do Nego d’Água para que o bote, cheio de frutas, ovos e galinhas, não fosse virado pela entidade sedenta de pinga e fumo. Minha avó Maria dizia também que, sempre visitava a ilha do seu Joca, na companhia da minha outra avó (Verônica Szucs) e que durante o trajeto eram incomodadas pelo “bicho”. Quando estavam longe das margens, meu pai, o Toco, muito antes de tornar seu genro, parecia estar sendo atentado pelo Nego D’Água ficando em pé sobre o bote ou canoa, balançando a embarcação com as duas pernas.

Essas lendas e relatos indicam, pelos mitos ou pela sensibilidade espiritual, uma verdade oculta de que nas águas existe um tipo de vida que muitos ainda desconhecem e que normalmente não se enxerga com os olhos físicos.

Já adulto, ouvi também o relato impressionante de um engenheiro, portador de mediunidade de clarividência, que veio trabalhar em Epitácio na área industrial do Bordon. Segundo ele, logo após a matança do gado, centenas de espíritos, de aspecto muito primitivo, saíam do rio para sugar as energias do sangue que escorria dos cortes feitos pelos magarefes do frigorífico. Ele também dizia que, após essa sucção do plasma, via também entidades de luz pulverizando as carnes com fluidos higienizadores.

Voltando ao Figueiral, a última vez que vi esse cenário maravilhoso se deu numa noite de verão, inundada pelo reflexo da lua, no início do outono de 1996. Senti um intenso frio no estômago, um forte aperto no coração e uma irresistível vontade de chorar. Naquele instante passou em minha mente um filme com inúmeras cenas da minha vida, das minhas origens mais remotas, da existência atual, da infância até aquela fase crucial em que me preparava para enfrentar graves mudanças. Alguns anos depois, o Figueiral seria tragado pela inundação provocada pela construção da Usina de Porto Primavera.

No futuro, quem viveu o verdadeiro Figueiral talvez nunca vai poder descrever as belezas naturais que ele possuía. O próprio Rio Paraná, com o seu fluxo natural, jamais vai voltar ser o que era: o ciclo das enchentes e vazantes, as praias maravilhosas que se formavam no leito; enfim, nada será como antes, mas certamente ficará guardado de alguma forma na memória das pessoas ou nos registros históricos artificiais.

Com a formação do grande lago desapareceram as ilhas, o parque, o Porto Tibiriçá e também o meu sonho de voltar viver em Epitácio.

Como será que ficou a vida espiritual ou astral das águas após a formação do grande lago?


FOLIAS DE MOMO

Somos da época em que carnaval de clube era coisa sagrada, quero dizer: quase sagrada...

Era diversão certa tanto para as crianças como para os adultos. Para os jovens solteiros, então, tudo isso que falamos pode ser triplicado por mil.

As matinês eram muito curtas e rápidas, como se fosse de propósito, para inocular em nossas mentes pequenas o desejo de nos tornar futuros foliões. Com dez ou onze anos a gente já começava a mostrar as manguinhas e ensaiar algumas horas nos bailes noturnos, acompanhados dos pais, até que surgisse um comissário de menores para sugerir a nossa retirada do salão. Isso acontecia geralmente na sede A. A. Epitaciana, prédio imponente, feito na mesma época e do mesmo concreto das obras da Ponte.

Em Tibiriçá e Epitácio não havia carnaval de rua. As classes populares eram muito retraídas e recatadas, seguindo o modelo social dominante do patronato. Existiam grupos que se reuniam eventualmente para fazer batucadas, usando uniformes que imitavam os antigos blocos cariocas e que foram os embriões de escolas de samba, agremiações organizadas que só apareceriam nos anos 80. Esse foi, por exemplo, o caso do Tião Samba, cuja iniciativa até hoje é vista como a base dos grandes desfiles que seriam organizados anos mais tarde pelas duas escolas, Vila Maria e Unidos da Ribeira.

Não cheguei a frequentar os bailes carnaval em Tibiriçá, a não ser uma ou duas matinês, entre 1965 e 67. Dizem que eram muito bons, frequentados por ex-moradores da vila e visitantes das cidades vizinhas. Em Tibiriçá a cultura festiva popular de origem africana e nordestina era predominante, porém uma característica que se manifestava timidamente no carnaval de clubes e no futebol pela presença de cariocas que trabalhavam na SNBP. Esse comportamento retraído e cauteloso também se manifestava na religiosidade. Existiam os terreiros de candomblé e de umbanda, tolerados pela classe católica dominante, mas sempre escondidos nos arredores da cidade, como atividade marginalizada e vista com desconfiança. Outra curiosidade sobre esses preconceitos: meu vô paterno e o Mestre João, que eram negros e praticantes do espiritismo kardecista, eram constantemente apontados, em comentários reservados, como “macumbeiros”. Outros grupos mais populares, geralmente migrantes nordestinos e de Minas, também se integravam socialmente nas igrejas protestantes.

Em Epitácio a chegada do carnaval era sempre uma época especial para os frequentadores de clubes. Existiam os concursos de fantasias e também a solenidade de coroação pública do Rei Momo e da Rainha, este último não passando de uma manifestação propriamente mais política do que cultural. Os espaços permitidos e organizados para o carnaval eram os clubes, cada qual com seu perfil social. Isso acontecia na A.A. Epitaciana, que era o clube da elite; na Sociedade Filarmônica que, apesar do nome pomposo, tinha instalações muito simples (de madeira) e era frequentado pelas classes populares e finalmente o Centro Comunitário, mantido pela prefeitura, com acesso gratuito.

Depois de garantidos os ingressos e combinar o encontro com os colegas, era hora de comprar roupas leves da moda no Magazine Celes ou nas Casas Karazawa, um tênis ou sandalinha na sapataria da Cida. Aí, sim, partíamos para o clube e aguardávamos com muita ansiedade o toque de abertura:

 – "Pará, pará, pará, pará, parararararará!!!!"

As bandinhas de animação eram formadas por componentes de Epitácio ou então de alguma cidade próxima. Os músicos que lembro mais eram: Miruca, Irineu, maestro Francisco de Assis, Brás, Zé Fininho, João, Chinha, Castilho, Matateo e o Hélio Baterista, que segundo o Mia, tinha uma performance especial durante as apresentação do seu conjunto. As marchinhas eram as mesmas de sempre, com destaque para “Mamãe eu quero mamar”, “Jardineira”, Coração Corintiano” e “Cabeleira do Zezé”. Todas disfarçadamente muito tristes e debochadas em suas letras, escondendo a verdadeira condição íntima dos foliões durante os quatro dias de carnaval.

Confete e serpentina aos quilos no salão; cerveja e refrigerantes de garrafa (sodinha, guaraná antártica normal ou caçulinha), tudo conservado em tambor de zinco, pedras de gelo e pó-de-serra. Fichas no Bar. Não tinha copo de plástico. Outras bebidas e complementos dos aperitivos, só para quem tinha mesas reservadas: whisky com gelo de água de coco, cuba libre, amendoim; sanduíches de patê ou presunto nos intervalos. Lança-perfume já estava proibido. Era carnaval, mas o regime no País era ditadura militar. Algumas brigas entre os mais exaltados; tinha também a turma a turma do deixa pra lá e as rivalidades políticas: “Disseram que a água lava tudo, a água só não lava as mágoas do meu coração”, cantava o professor e colunista Hermes Martins, lembrando uma certa disputa eleitoral que dividiu a cidade em 1972.

De resto era tudo uma maravilha: amigos reunidos em blocos uniformizados, cantando, pulando, extravasando, para tudo se acabar na quarta-feira. E tudo ia acabar mesmo numa grande canja de galinha no Finambar do seu Russo, depois Bar do Toco e Espanhol. Numa época que não havia energéticos químicos com tanta facilidade, as canjas e caldos, com muitos miúdos, eram os verdadeiros remédios para prevenir as ressacas.  Algumas canjas eram servidas misturadas vinho tinto no próprio prato.

Mas o que realmente acabou foram os bailes e clubes onde esses eventos aconteciam. As mudanças tecnológicas, do uso do espaço urbano, dos hábitos sociais fez surgir um novo costume de diversão em ambientes externos e públicos. Isso afetaria diretamente o consumo e a oferta de entretenimento, sendo os clubes e eventos tradicionais substituídos por casas de espetáculos especializados em shows e festas que antes eram restritas aos sócios e, algumas, proibidas aos não sócios dos clubes. Nesse pacote de mudanças estavam incluídos o carnaval e os bailes temáticos de todas as estações do ano.  As tragédias que acontecem em espaços fechados, como as que aconteceu em Santos no final dos anos 80 e recentemente em Santa Maria, são efeitos dessa impensada tentativa de confinar centenas de pessoas de comportamento informal em espaços tão restritos, em todos os sentidos.

Nos anos 60 e início dos 70 os jovens se divertiam em espaços fechados, típico dos bailes de garagem, clubes e boates. A passagem para os anos 80 aconteceu uma transição das boates para as discotecas (com espaços maiores para dança livre e solta). E nos anos 90 teve início a invasão das calçadas, ruas e grandes espaços “haves”. Em Epitácio, como em todos os lugares, essas mudanças e fases tiveram locais e nomes como os clubes já mencionados, a Cantina do Tio Orlando (um galpão de serraria, semiaberto); a Lanchonete Toco (na Rua Antonio Marinho, toda aberta e quase na calçada); os bares da Zeca e do Teddy (totalmente abertos e praticamente na rua) e depois as festas “haves” e eventos totalmente externos. No futuro, como serão as formas de entretenimento coletivo dos jovens na Era das Redes Sociais?

Em Epitácio, talvez as últimas gerações de carnaval de clube foram as dos anos 1980, ainda nos próprios clubes da cidade; e também no início dos anos 1990, no Camping, na rodovia Marginal. O Bloco do Jacarezinho, formado pela mistura de jovens das duas gerações, também é um bom exemplo dessas mudanças de costumes e ambientes. Tentando manter viva uma tradição que estava fadada ao desaparecimento, os foliões desse bloco davam os últimos suspiros de suas respectivas épocas. Quando visitava Epitácio nesse período, ficava hospedado na Chácara do meu avô (Chácara do Felão), na Boiadeira Norte, próximo do Pirangueiro. Queria sossego completo e não participava das festas, a não ser quando era para tocar bateria e cantar. No Carnaval, ficava sozinho curtindo um livro, uma namorada ou um vídeo. Porém percebia o que se passava no coração daqueles jovens que não aceitavam que época deles estava se esgotando e que um novo tempo estava começando.

O Felão (Sérgio Maurício Xavier Duque), membro da geração dos anos 70 e eterno “guru” comportamental das novas gerações e dos que nunca estavam “nem aí para a situação”, pronunciava constantemente frases irreverentes, aparentemente desconexas. Eram, porém, metáforas que definiam muito bem a condição daqueles adolescentes “Peter Pans” que, internamente, já sofriam com as mudanças em curso. Eles chamavam o Felão de “Tio Fefas” e, por sua vez, o Felão chamava todos eles de “Jacarezinho”, significando muitas coisas, algumas incompreensíveis para quem não convivia com essa tribo.  

Como outras pessoas de senso de humor como o dele, o Felão também gostava de comparar os amigos que tinha comportamento engraçado com bichos da região, dos quais saiam os apelidos: Cururú, Jacaré, Pacú, Jaburú, etc. E foi dessas observações que tirei os elementos para compor a marchinha do Bloco do Jacarezinho, do qual ele era o líder natural.

Todo mundo no meio artístico e expressivo sofre influência intelectual e estética de alguma personalidade marcante. O Felão, a meu ver, foi fortemente influenciado pelo Ronald Golias (e seu personagem Bronco) e também pelo Pato Donald, cuja voz imitava com perfeição de um dublador. Sua voz em falsete de garganta, que com o tempo foi ficando rouca, sempre fez sucesso e era muito aguardada nas festas e shows. Essa e a única explicação sociológica que tenho para esse fenômeno cultural epitaciano e regional, amigo de todo mundo em Epitácio, Bataguassu, Venceslau, Caiuá, Piquerobi, Santo Anastácio, Prudente e que, por coincidência, é o irmão mais novo da minha mãe, irmão do Olégas, portanto, nosso tio de verdade. 

Numa viagem que fiz para Epitácio encontrei o Tonico Vanalli na rodoviária de São Paulo, vindo de Austin (Texas), onde mora há mais de 30 anos. No mesmo ônibus estava o José Rainha (do MST) e que ele não conhecia. Ele me disse se sentia muitas vezes deslocado morando num país diferente e que nesses instantes só se descontraia rindo muito, sozinho, apenas lembrando das frases e gestos surpreendentes, muito engraçados e impublicáveis do Felão. Suas vítimas geralmente eram autoridades arrogantes, contraditórias, bem como pessoas metidas e exibicionistas do meio social, prato cheio para os sarristas e esculhambadores incorrigíveis como ele.

Marcha do Jacarezinho

Jacaré falou que ia embora. Agora tá de novo por aí.

Falou que veio dá uma averiguada. Pedaço de céu véio vai cair

Ô Jacaré, muito louco...Jacarezinho vai de quebra

Trupicando pelas ruas. Com medo da danada da Piranha...


CONJUNTOS E BANDAS

Em um dia qualquer de 1967 soubemos pela Madinha Manoela que receberíamos a visita de uma amiga muito querida, a Dona Cacilda, antiga professora primária e que ela viria acompanhada dos filhos Neno e Irupê, criados em Epitácio, na época em que ela lecionava na Vila Tibiriçá.

Tomamos banho, colocamos perfume pelo corpo e também brilhantina nos cabelos. Vestimos nossas melhores roupas, calçamos sapatos com enormes fivelas e aguardamos ansiosamente os ilustres convidados. Quando as visitas chegaram tivemos uma grande surpresa: Dona Cacilda trouxe não só os filhos, mas todos os integrantes do The Jordans para conhecer nossa família e a Vila Tibiriçá. Foi um verdadeiro bafafá. Logo que os famosos artistas da Jovem Guarda e da TV Record foram descobertos, nossa casa foi completamente tomada por curiosos em busca do famoso conjunto que naquele ano fazia um enorme sucesso com o “Tema de Lara”, da trilha sonora do filme Dr. Jivago. Provavelmente o The Jordans estava em turnê pela região e algum empresário conseguiu um contrato para um grande baile na Sociedade Filarmônica 27 de Março. Eu tinha apenas cinco anos de idade e lembro nitidamente do rosto de todos eles, sentados na sala da minha casa, sendo apresentados, um por um, pela Dona Cacilda: Aladdin (Romeu Mantovani Sobrinho), Sinval (Olimpio Sinval Drago), Tony (José de Andrade), Irupê (Irupê Teixeira Rodrigues), Neno (Demerval Teixeira Rodrigues) e Foguinho (Waldemar Botelho Junior). Mostramos também a eles a nossas habilidades musicais. Depois do nosso pequeno show vocal, fomos bombardeados com perguntas dos astros sobre as nossas roupas moderninhas e as gingas que imitavam os principais cantores da época. Depois dessa visita do The Jordans a nossa vitrola não deu mais sossego. Ganhamos alguns discos dos Beatles e Incríveis, trazidos de São Paulo pelo Olégas, quando ele foi servir na Força Pública, por influência da amizade que tinha com os filhos do Seu Paulo Cunha (Chico Bode, Lino, Adilson, Paulete).  Aliás, quem iniciou a gente na música e ao violão foi o Olégas, tocando e cantando de ouvido todas as canções do momento. Nessa época éramos o grupo vocal familiar “Los Toquitos” - Nenê, Mia, Gui, Bill e Dadau, os cinco filhos do Toco - e o nosso sucesso nos aniversários e nas festivas do Rotary era “Essa garota é papo firme!”. Quem nos dirigia e também nos acompanhava ao violão era Seu Paulo Lopes, um grande músico amador, sempre muito atencioso e entusiasta dos novos artistas.

A musicalidade sempre foi uma marca muito forte nos epitacianos. As revelações antigas como os rapazes Neno e Yrupê, integrantes do The Jordans e do RC 7 (conjunto do Roberto Carlos), bem como as novas, que se destacam na grande mídia, confirmam essa tendência. Sempre fomos um povo alegre e, por isso mesmo, muito musical. A cidade é um celeiro natural de músicos e compositores e os valores de fora também sempre foram muito bem recebidos e valorizados nos seus talentos, de todas as idades, todos os estilos, em qualquer época. Lembram-se do Epifânio - paraguaio nato e epitaciano de opção - com as suas guarânias e boleros inesquecíveis? Poucos sabem que tínhamos um grande croonner, o discreto Bivaldo (Bive) e muitos se lembram da dupla “Voz e Violão” Ulisses Marinho e Joaquim Soldado. Tinha também o seu Lico, que tocava violino em ocasiões muito especiais, e seu Luiz “Graia” - apelido provavelmente colocado pelo meu pai -, que tocava banjo. Esse curioso instrumento do seu Luiz está até hoje com o Mia, como um presente carinhoso dado pela Dona Alzira.

Aquele conceito de que “Baiano não nasce, estreia” também se aplica perfeitamente em Epitácio, mesmo porque a cidade era forrada de baianos e descendentes. Nenhum talento se manifesta se não houver uma boa oportunidade, ou melhor, um bom evento para descobrir os novos valores que vão acontecer no mundo das artes. Muitos deles não trilham os caminhos da fama e do sucesso, preferindo a vida discreta, porém nunca deixaram de ser talentosos e muito admirados por seus colegas que fizeram o trajeto oposto. Mas todos eles, sobretudo os jovens dos anos 60 e 70, tiveram um lugar para canalizar esse talento e manifestar suas vocações musicais: A Mais Bela Voz Colegial. Esse evento foi criado e recriado em diversos períodos por pessoas iluminadas e que perceberam que a música tem o poder infinito de alegrar e despertar virtudes na alma humana.

Sempre que se anunciava uma nova versão dessa festa musical, surgia nos olhos das meninas e meninos cantores um brilho de esperança de reconhecimento, a chance de mostrar o que sabiam e de brilhar diante daquela plateia sempre cheia de expectativa e entusiasmo. Os primeiros concursos foram realizados nos clubes e depois passaram a ser feitos no Cine Azenha, devido ao crescente aumento de público. O palco do cinema era especial e muito respeitado porque era o espaço de apresentação de artistas famosos que vinham fazer shows na cidade como Os Incríveis, os Beatles Argentinos, Noite Ilustrada e principalmente Altemar Dutra.

O mais incrível em A Mais Bela Voz Colegial eram as surpresas: garotos e garotas que, ao contrário dos mais afoitos e já convencidos dos seus talentos, entravam na disputa somente depois de muita insistência dos amigos e professores que percebiam algo diferente neles.

Esse foi o caso do meu irmão Gui (Guilherme Duque dos Santos), que teve uma única e estrondosa participação no evento de 1973 e nunca mais deu as caras. Naquela noite, trajando calça social, camisa branca e paletó azul claro, ele surpreendeu o júri e a plateia cantando “O meu amor chorou”, um sucesso de Luiz Marçal Neto e que ficou conhecido na voz do baiano Paulo Diniz. O Gui arrebentou e virou a celebridade da semana. Por onde anda o Paulo Diniz?

Entre o final dos anos 60 e início dos 70, em Epitácio, a onda de conjuntos de iê-iê-iê teve uma primeira fase, na qual só havia performance vocal e uniformes “Pra frente”: “Os Tigres”, “Os Mickeys” e “Os Terríveis”. Gil Saraiva, Mandioca (Valtinho), João Gil, Silvinho, Tita Portus, Felão, Mia, Zé Martins, Neder, Tonico Vanalli, Hércules Valim, Ortiz, Wanderley, Joaquim Vicente, Carlinhos Gotardi, Eduardo Avalone, Cacho, Nilson Olivato, Paulo Carioca e Odilon Villas Boas eram alguns dos artistas desse tempo. E depois veio a segunda fase, com instrumentos musicais e os uniformes foram substituídos por roupas extravagantes, certamente um efeito dos hippies de Woodstock. Apareceram então o “Embalo Jovem” e “Os Defuntos”.

A entrada dos verdadeiros músicos em cena afastou os curiosos e fez com que as bandas evoluíssem em todos os sentidos. Economicamente só se tornaram viáveis quando passaram animar bailes e brincadeiras dançantes. Meu segundo irmão tornou-se músico nessa transição. Primeiro, em 1972, tocando numa banda que animava a Cantina do Orlando, instalada num galpão de uma antiga serraria na rua Maceió.  A banda chamava-se Mané Gardino Blue Band e depois Felcaxbatunimia (abreviação estilizada de Felão, Cacho, Bá, Tonico e Mia). Tempo depois passou a se chamar Grupo Seda. Na formação de 1973, mais experientes, tocaram Tonico Vanalli (baterista radicado nos EUA), André e Bico (sopros), os guitarristas Bá, Teté e Lalo Califórnia (músico chileno que depois casou-se com a cantora Wanderléa), Mia (vocal), Cacho (teclados), Zildo e Felão (percussionistas).

Em cidades maiores já existiam bandas profissionalizadas e famosas: em Presidente Prudente tinha “Os Sombras” e “Os Temperamentais”; em Assis despontou o “Mac Ribel”; em Marília, “Os Yarassus”; “Os Solphas”, de Oswaldo Cruz, e “Os Vibrantes”, de Adamantina. Essas bandas passaram por Epitácio, tocando nos clubes da Epitaciana, da Filarmônica, e na “Festa da Praia”, no Parque Figueiral.

Todas essas bandas passaram por Epitácio, tocando nos clubes da Epitaciana, da Filarmônica, e na “Festa da Praia”, no Parque Figueiral. Essa festa popular era uma evolução dos antigos pic-nics de 1º de Maio, com barracas de comidas típicas, passeios de barco, concursos de beleza, e muitos turistas morrendo afogados no rio. No final da década de 80, quando fui dar aulas curso e colégio Objetivo de São Paulo, conheci o Hernani Maia, ex-vocalista do “Sombras”, também professor de História e redator de material didático. Eu, o Hernani e o Caetano, de Prudente, demos as primeiras “aulas-show”, inaugurando o primeiro Cursinho de Epitácio, em 1990.

Nenhum desses conjuntos e artistas epitacianos se tornaram celebridades e ingressaram no hall da fama musical. Alguns chegaram perto, porém não tiveram a sorte e o carisma da violeira Helena Meirelles, que, por força do destino decidiu ser epitaciana e fazer justiça aos músicos da cidade e da região.

Um dia desses assisti um documentário sobre Helena Meirelles na TV e logo surgiu na memória algumas cenas antigas.

Quando fomos morar na Baixada Santista os colegas estranhavam o nosso sotaque caipira, com o erre dobrado (tarrde!). Perguntavam de onde tínhamos vindo e a gente respondia que éramos da divisa com o Mato Grosso. Sentíamos orgulho de dizer isso porque essa auto-afirmação nos fazia ser diferentes, com uma identidade mais forte e definida. Ninguém conhecia Epitácio, muito menos Tibiriçá. Então falávamos “Mato Grosso”, de boca cheia e sem essa divisão territorial ocorrida em 1976.  Não estávamos errados. O sol em Epitácio se põe no Mato Grosso há milhões de anos e as nossas Luas sempre vinham de lá, surgindo misteriosas, de trás do varjão, iluminando o rio e as praias.

A primeira vez que vi um fogo-fátuo se movimentando pela noite escura foi nesse enorme varjão que existia na parte baixa das terras do seu Azenha e que fazia cerca com o sítio do meu avô, seis quilômetros Reta A-1 adentro, em direção ao Córrego da Anta. Vivíamos em contato permanente com o Mato Grosso, pisando naquela terra fina e branquinha, indo e vindo dos sítios, fazendas, acampamentos, procissões e cidades próximas. Epitácio recebia mato-grossenses de todos os lados, incluindo os índios e os paraguaios.  A maioria dos nossos boiadeiros (condutores), administradores de fazenda, peões, tinham um pé no outro lado da divisa. Para nós, a ideia de sertão, de lugar distante, fim de mundo, sempre foi o Mato Grosso. Todos nós crescemos e convivemos com essas duas culturas misturadas: a paulista aventureira e a mato-grossense, nômade e quase selvagem, ambas através dos nossos amigos, vizinhos e parentes.

Quem, em Epitácio, nunca atravessou o rio Paraná, de balsa ou pela ponte, para fazer alguma coisa no Porto XV ou em Bataguassu?  Com quem aprendemos a comer carne com mandioca?  Quem nos ensinou a fazer reviro paraguaio e ouvir guarânias?

Quando Helena Meirelles apareceu em Epitácio não entendemos muito bem o que ela veio fazer na cidade. Só depois de algum tempo compreendemos que ela era da nossa região mesmo, lugar que desde a infância sempre fez parte de suas indas e vindas, do lado de lá e do lado de cá do Paranazão.  Artista, mulher de boiadeiro, violeira de zona, mãe de onze filhos (nunca quis fazer aborto), dona do seu próprio nariz, Helena nunca esqueceu Epitácio, nem quando morava no Pantanal. Seu sonho de terminar a vida sossegada, numa casinha simples com o marido e os filhos se passava em Epitácio, lugar que para ela sempre foi sinônimo de alegria, de paz, de felicidade.  Morreu aos 81 anos internada na Santa Casa de Campo Grande, mas seu pensamento e seu coração estavam voltados para essa grande extensão de terras e águas cortadas pelos rios Pardo e Paraná. Nos seus ouvidos ainda ecoavam o som distante dos instrumentos e o barulho dos bailes e noites verdadeiramente sertanejas.

No documentário feito por Dainara Toffoli as imagens enfocam o Porto Epitácio como o principal ponto de referência para mostrar as raízes e as muitas andanças da violeira mais famosa do mundo. É isso mesmo, do mundo.

Quando sua fotografia saiu publicada na revista americana Guittar Player, era um reconhecimento da sua raridade feminina e artística. O som rústico e modesto do seu instrumento fascinou tanto um jornalista americano especializado em música que ele não teve dúvida ao fazer essa comparação assustadora: “Quando eu morrer e ouvir o som da viola de Helena Meirelles e os solos de Jimmy Hendrix, terei a certeza de que estarei entrando no céu”.


SEMPRE ALERTA

Sete de setembro ou 27 de março, não importava: a participação do Grupo Escoteiro do Mar Armênio Ribeiro era presença certa e marcante nos desfiles cívicos. O grupo também marcava presença nas Festas da Praia no antigo Figueiral, auxiliando no patrulhamento das barrancas do perigoso rio Paraná. Eram lobinhos, bandeirantes, júniores e sêniores, todos com uniforme azul (mesclado ou marinho) e branco. Eram Escoteiros do mar (do rio, com o patrocínio da Marinha do Brasil). Em 15 de agosto, na Festa de Nossa Senhora dos Navegantes, eles estavam lá nas balsas e na procissão, "sempre alerta".

Também na semana que antecedia o 13 de dezembro - Dia do Marinheiro - os escoteiros organizavam em frente a Delegacia da Capitania dos Portos, próximo da atual Praça Almirante Tamandaré, um grande acampamento de demonstração da cultura escoteira ou "pioneira", na qual tudo era feito com bambu e cordas de sisal. Em ocasiões especiais como essas, recebíamos a visita do Tio Orelino, grande chefe escoteiro de Presidente Prudente e cantávamos a velha canção "Como vai, visita, como vai?" E o velho Tio Aurelino respondia com a voz rouca e cansada: "Graaato, graaato, grato, gratíssimo!!! Era difícil conter as gargalhadas, mas ficávamos firmes (menos o Álvaro Xavier Duque, que soltava ventos pelos cantos da boca e depois gargalhadas), esperando o velhinho concluir o canto de retribuição da nossa hospitalidade.

Nosso escotismo era uma imitação tropical, mas bem organizada do estilo inglês. Nasceu em Tibiriçá e adquiriu uma conotação militar, influenciada pela Marinha de Guerra e também pelo regime instalado em 1964. Escoteiros do Mar em pleno sertão, por causa do rio. Em Presidente Prudente e outras cidades da região existiam grupos de modelo escocês. O nosso era mais descontraído. Ao invés do chapéu colonial britânico, usávamos um bibico ou caxangá de marinheiro. O escotismo é uma atividade educativa interessante por que ensina o companheirismo e independência dos pais. Mas também tem coisas ruins e perigosas: a pedofilia, por exemplo, era uma prática que podia ocorrer no escotismo, assim como nos ambientes religiosos e esportivos, onde crianças e adolescentes ficavam expostas em situação vulnerável. A gente tinha que ficar esperto porque podia aparecer alguém com essas tendências estranhas, que tinha sofrido abuso sexual quando era criança, etc. O Doutor Alberto Assad, que sempre ficava sabendo das coisas privativas da cidade, sempre advertia nossa mãe sobre esses riscos.

Mas, no geral, tudo era muito divertido e educativo. Aprendíamos coisas boas como a disciplina de horário, preparo de refeições, de limpeza e higiene, organização pessoal, sobrevivência na “selva”. Sem contar que o melhor era o convívio com pessoas muito amigas e divertidas, com sucessivas gerações, dos maiores sempre cuidando dos menores.

Nos anos 90 o escotismo, depois do forte caráter militarista, foi pendendo para o ecologismo. Em Epitácio, nos anos 70, na época da Semana da Pátria, era montado um acampamento de demonstração, em frente da Capitania dos Portos, na atual Praça Almirante Tamandaré. Numa noite de vigília, o Costinha, que depois serviu como fuzileiro naval em Santos, foi severamente repreendido por estar cantando uma versão proibida de uma música de Dom e Ravel, grande sucesso cívico da época: “Maconha no Brasil foi libertada, lá, lá,rá, rá.. Até o presidente já fumou...”

Grande parte das crianças e dos jovens epitacianos das gerações de 50, 60 e 70 passaram pela gostosa experiência do escotismo. Muitos descobriram suas vocações profissionais e tornaram-se educadores, executivos, cozinheiros, policiais, bombeiros e também seguiram carreira militar nas Forças Armadas.

Quem foi escoteiro, aprendeu a dormir longe de casa, a se virar sozinho na vida, cantou e brincou ao redor de uma fogueira e ainda tem uma boa história para contar. Até hoje, quando muitas vezes minha filha de onze anos pede que eu fique à sós com ela antes de adormecer para contar histórias ou cantar cantigas da minha infância ela mesma se lembra de duas inesquecíveis canções de acampamento: A árvore da montanha:

“Essa árvore tinha uma fruta, ai que fruta, bela fruta, ai, ai, ai que amor de fruta: a fruta da flor, a flor, da folha, a folha do galho, o galho da árvore... A árvore da montanha, olê, li, aô; a árvore da montanha, olê, li, aô!);

E a mais simples e talvez mais famosa de todas:

“Acampei lá na montanha, de manhã fiz meu café, arrumei minha mochila e toquei pra frente à pé. Como é bom viver, acampando assim, ver o sol do horizonte morrer; como é bom viver, acampando assim, ver o sol no horizonte nascer” !!!

Ao ler nossas postagens no blog Epitácio na Memória, o amigo José Ortiz, jovem influente e muito carismático que viveu em Epitácio até meados dos anos 70, nos enviou um e-mail gratificante falando das suas lembranças sobre os escoteiros e os conjuntos musicais da cidade. Acrescentou algumas informações importantes e também corrigiu algumas falhas das nossas lembranças. Quem viveu, viu e sentiu realmente pode lembrar com mais precisão e detalhes as coisas que o tempo não consegue apagar. José Francisco Barbosa Ortiz, escoteiro e band leader, hoje é engenheiro e perito judicial em Cuiabá-MT.

Com a palavra, Ortiz:

Hoje tenho 55 anos, e posso contribuir um pouco com a sua história.

O nome do grupo de escoteiros era: Grupo de Escoteiros do Mar Armênio Ribeiro - GEMAR. Começou inicialmente no Tibiriçá, com o Senhor Wilson Cruz, depois foi transferida a sede para o Galpão de Cereais em Epitácio, cedido gratuitamente pela Senhora Júlia Dionisío Barbosa Ortiz "in memoriam" e o meu pai Mestre Fluvial Francisco Ortiz Puertas - que foi comandante de barcos de carga e aposentou-se no Navio Epitácio Pessoa - Está vivo em mora em Florianópolis.

Eu era o Monitor da Patrulha Garça, do Grupo de Escoteiros do Mar e os componentes eram: Ortiz, Padeirinho, Pery Martins, Chocolate, Lourenço (filho do Seu Evódio), Ricardo José Lourenço (filho do seu Valdemar - jornalista e dono do Curso Tamandaré - Admissão para o Ginásio). Estive presente em todas aquelas demonstrações que você citou e esta pick up Jeep era do Nildo Encanador (Macedo), que emprestamos dele para o desfile.

Quanto a musicalidade: Como banda mesmo, o primeiro conjunto a se organizar como tal foi os Mickeys e eu era o dono desse conjunto. Nele tocavam: nas guitarras-base: José Ortiz (eu) e Eduardo Avalone; na guitarra-solo: Cacho (que buscamos em Caiuá), o cantor era o Vanderley, o vocalista de uma única música era o Nilson Louzada Olivetto, o tecladista era o Joaquim Vicente, o baterista era o Tonico e no contrabaixo era o Carlos Gotardi (Carlinhos). Minha mãe comprou o equipamento do João Brilhante, que tocava aos domingos no programa do Zé Bolinha. Também participei no início dos Tigres: Eu, o Mia, o Hércules e outros que não lembro mais. Os Mickeys tocaram em diversos bailes na Filarmônica, na Epitaciana, em Venceslau, em Anaurilândia e Bataguaçu.

Amigo, ainda tem mais.

Grande abraço no Mia e no Nenê, ele também era escoteiro.

Vou lembrar rapidamente alguns nomes de pessoas que participavam ativamente do Grupo de Escoteiros. O grupo era formado pelos Lobinhos, Escoteiros, Escoteiros Sênior. Era subdividido em patrulhas. Só me lembro da Patrulha Garça que era a nossa: Ortiz, Pery Martins, Ricardo Lourenço, Daniel, Rogério, Chocolate, Nenê, Lourenço (filho do Evódio), Natalício, Daniel Gil, e me parece que o Padeirinho era da Patrulha Jacaré. Dos escoteiros sêriores lembro da Patrulha Marajoara*, que era composta pelo: Paulo Vanti (in memorian), Toyotão, Noboyuki (in memoriam), Carlinhos (nosso contrabaixista nos Mickeys). Minha mãe, Dona Júlia Ortiz, passou noites e noites fazendo caxangás para desfile do dia 7 de setembro para diversos integrantes do Grupo de Escoteiro. O Lavico e o Tostão, irmão do Domingos (Mingo Pacas) eram chefe e sube-chefe respectivamente. O Chefe Geral da Tropa era o Sr. Wilson Cruz, pai do Agnaldo, que entrou na tropa como Lobinho.

Quem muito auxiliou na época e também foi chefe de tropa foi o Marcão, policial rodoviário federal naquela época, e nos assistia muitos em nossos acampamentos com seu jipe DKV. Fomos para Anaurilândia e Nova Andradina levando a cultura da Tropa de Escoteiros do Mar, e nossa lema era: " UMA VEZ ESCOTEIRO, SEMPRE ESCOTEIRO”. E “SEMPRE ALERTA” para toda a tropa. O fundador do Escotismo no mundo foi Baden Powell e ele realmente parecia com o Tio Aurelino, Chefe Geral da Tropa de Escoteiro da Terra de Presidente Prudente e Chefe Regional dos Escoteiros. A Sede Geral dos Escoteiros do Mar funcionava na época no Rio de Janeiro.

Vamos dividir em tempos a minha época:

Estudante do Grupo Escolar Rural ("18 de Junho"). Como o próprio nome já informa a Escola era rural, e me ensinou a plantar e cultivar, hortaliças e árvores. Com este aprendizado montei uma horta com 18 canteiros e naquela época eu já ganhava algum dinheiro vendendo alface, couve, tomate, almeirão, cebolinha, beterraba, cenoura. Quem conheceu a minha horta pode comprovar. Acho que não tenho foto da minha unidade produtiva.

Nas horas vagas: Coroinha, participava todos os domingos de jogo de ping pong na residência da Irmã Kirma, irmã do Celso (pai do Pery Martins) e do ex Governador de Mato Grosso do Sul, Wilson Martins.

Também frequentei muito a Piscina do Dr. Natal, na Ponte. Nós íamos de bicicleta. A nossa turminha de natação: Paulo Vanti, Carlos Vanti, Joaquim Vicente, Renato, Nilson Louzada Olivato (aquele vocalista e colaborador dos Mickeys) e outros que não consigo lembrar. Sei também que as filhas do Dr. Natal: Débora, Cyntia e a outra que não lembro também eram nossas parceiras na natação.

Gostei da foto do pessoal de Epitácio com os Beatles, acho que não os conheci.

Lembrei: A Iracema Noronha, filha da minha Professora de Ciências Janete Noronha, era uma das que muito frequentavam o Barracão - Sede dos Mickeys onde nós ensaiávamos, ele pode ajudar a esclarecer mais algumas coisas.

Sei que nós tocamos um baile de debutantes na Epitaciana e também no mesmo palco estava a nova banda do Neder "Os Defuntos". Ele recém havia chegado de USA e trazia uma nova aparelharem e muitas novidades musicais. Foi uma loucura, as meninas rasgaram a camisa de cetim amarelo do Cacho e arrancaram a gravatinha batmasterson. Eu o encontrei chorando na escadinha do palco (naquele tempo ele era um pouquinho caipira). Nós trouxemos ele de Caiuá, ele tocava sanfona em baile de ponta de rua, quem deu a dica desse músico para o Eduardo Avalone e Tonico e eu - que havíamos ido de trem até Caiuá atrás de um guitarrista solista - quem deu a dica foi o Pé de Pano, amigo do Tonico, e tinha um conjuntinho em Caiuá.

Saudações.


E respondemos:

Caro Ortiz, na época de adolescência de vocês eu tinha entre 7 e 8 anos de idade apenas, mas guardo em minha memória duas imagens bem nítidas de você: uma quando você partiu para uma viagem, se não me engano para Mato Grosso, trajado de escoteiro e embarcando num ônibus noturno da Viação Mota. A outra era a sua boutique com moda hippie, incluindo as grandes bolsas e chapéus de couro. Não me lembrava dessas suas iniciativas e atuações nos conjuntos. Quando você começou a descrever os fatos, algumas cenas foram reaparecendo de forma muito viva. Vou reenviar seu e-mail para o Mia, que certamente vai ficar muito contente com o seu contato. Estamos aguardando ansiosos as suas anotações e fotos daquela década inesquecível, talvez a mais marcante do século XX.

Abraços, Dadau.

*NOTA DO AUTOR:

            A Patrulha Marajoara, que teve alguns dos seus membros mortos num trágico acidente em 1968, foi revivida no início dos anos 70 por uma nova geração de escoteiros, alguns ainda pivetes sob a proteção dos primos e camaradas mais velhos: Rogério Zinezi, Grilo (Pacas), Ravashiro Nantes, Luiz Girico, Marcão (Marcão Lanches), Celmar Dunke, Celso Dunke(Colorido), os irmãos João Véio e Lourival, Dadau, Zé do Caixão, Júnior Zangão, Álvaro Xavier Duque, Euclides (irmão do Soldadinho). Com ela fizemos alguns acampamentos e excursões inesquecíveis como a viagem a Panorama, no rebocador Meca VII (que um certo comandante paraguaio imitado pelo Rogério dizia: “Atenção, vocês estão viajando em Mecassête”. Outra viagem foi numa fazenda em Anaurilândia, que alguém da prefeitura de Epitácio fez o favor de esquecer de nos buscar e fomos socorridos pelo prefeito e pelo professor e vereador epitaciano Amauri Cruz. Naquele dia de fome e incerteza fomos acolhidos numa pensão e comemos arroz com quiabo, sem reclamar.

O grito da nossa patrulha era mais ou menos assim:


Na Ilha de Marajó

Onde todos vivem a lutar

Temos a honra de ser escoteiros

E os seus exemplos imitar, imitar.

Patrulha Marajoara:

Escoteiros do Mar.

Nosso lema é lutar, lutar, lutar, lutar

G.E.M.A.R.


O MELHOR FUTEBOL DO MUNDO

Se pararmos para pensar, essa afirmação do “melhor futebol do mundo” não é tão absurda, já que no interior do Brasil é que acontecem não somente os melhores lances, mas também os verdadeiros prodígios do futebol. Por exemplo: o gol mais rápido mundo aconteceu na pequena cidade de Santo Anastácio, no qual o grande zagueiro Ipojucam precisou de apenas quatro segundos para concluir sua raríssima jogada. Tal feito foi documentado, reconhecido e registrado no Guines Book, nas edições de 1995 e 1996. Tá certo que em Santo Anastácio tinha uma alta incidência de torcedores “espanhóis”, como sempre muito exagerados nas suas histórias heroicas, mas o Guines é o Guines...!

Pelé, antes de ser a suprema majestade dos campos, jogou muita bola em ruas de terra e deslizou pelos gramados de muitos campinhos da Bauru e das cidades vizinhas. Aliás, o gol mais fantástico do Rei aconteceu num jogo ignorado pela grande imprensa e pelos fotógrafos e cinegrafistas da época. Teve que ser refeito em tecnologia digital, com ajuda descritiva e encenação física do próprio Pelé.

Ora, não de se estranhar que nos jogos do E.C. Fluvial também acontecesse coisas mágicas. Dizem que um chute do Toco apavorava os goleiros, porque além da humilhação natural do gol vazado, a bola furava a rede. Tudo bem que as redes daquela época não eram tão resistentes como as de hoje, mas que furava, furava...

Certa vez em Tibiriçá apareceu um jogador chamado de “Assembleia” - se não me engano era parente do Zé Dez - que durante a partida resolvia andar de chuteiras sobre a trave do gol.

Só para lembrar uma malandragem ensinada pelos técnicos do Fluvial, para uso nos momentos críticos do jogo: na marcação corpo-a-corpo o atleta aproveitava-se da distração do juiz e do bandeirinha, pegava a mão do adversário e prendia no sovaco e saía correndo, puxando o adversário. Arrastado e sem entender o que estava acontecendo, esse adversário fazia força em sentido contrário para tirar sua mão presa no sovaco. O juiz olhava de longe aquela cena aparentemente injusta e desleal e.... Falta! Ou até mesmo, quem sabe, uma penalidade máxima! Isso não é folclore: ouvi da boca do próprio Toco.

Então porque duvidar que em Tibiriçá era jogado o melhor futebol do mundo? Perguntem ao pessoal da Epitaciana...

Brincadeiras à parte, é sempre bom recordar que Presidente Epitácio sempre foi um celeiro atletas populares. Na década de 1930 já existiam no Porto Tibiriçá equipes em várias categorias de idade sinalizando que essa modalidade seria realmente a mais aceita e praticada entre os jovens do sexo masculino. Na mesma época, em Epítácio, registrou-se a fundação do Paraná Futebol Clube, que teve existência efêmera. A ausência de clubes e escolas privadas, onde normalmente se incentiva com mais ênfase a prática esportes olímpicos, não permitiu o desenvolvimento acentuado dessas modalidades em Epitácio: basquete, vôlei, handebol, judô, natação e atletismo, que ficaram restritos aos pouquíssimos admiradores, enquanto o futebol, pela sua simplicidade, praticidade acessibilidade social, sempre teve muito maior expressão. O E.C. Fluvial foi uma equipe de destaque enquanto a Bacia do Prata tinha funcionamento pleno e podia abastecer o time em todos os aspectos e necessidades. Na medida em que a empresa entra em declínio, entre 1966 e 1972, provocando o êxodo da Vila Tíbiriçá, entra em ascensão a A.A. Atlética Epitaciana, incrementando seu plantel com ex-jogadores adultos do Fluvial e também com as crianças e jovens oriundos de famílias tibiriçaenses. Foi o caso do time “dente de leite” da Epitaciana, de 1970 (foto). Alguns desses meninos eram talentos raríssimos e não tiveram a oportunidade ou sorte de fazer carreira profissional. Geraldinho Manivela, Lu e Bugão eram dignos de grandes times. Chicão até chegou perto, jogando no Comercial de Campo Grande-MS, mas não conseguiu seguir os passos do seu contemporâneo Miller (São Paulo). Uma pena! Nessa época havia tantos talentos e promessas que o técnico Queijo (Adão Gabriel) se dava ao luxo de ter dois times de base com a marca Consórcio da Promoção Social, denominados Consórcio A e Consórcio B, surgindo aí nomes que anos mais tarde iriam brilhar na A.A. Epitaciana e no depois no Beira Rio. Eu tentei jogar nesse time mas não deu certo: era muito pirralho, gordinho, filho de jogador famoso e ainda por cima perdi os ingressos que o Queijo nos deu pra vender... Ferrou... Fui treinar num time lá da Vila Martins, onde era titular e podia ficar na rua até depois das 22 horas.

Nos primeiros anos da década de 1970 essa transição de jogadores do Fluvial para a Epitaciana já estava praticamente concluída.  Nos anos 50 e 60 equipes de outras cidades, como Presidente Venceslau e Piquerobi, também vinham buscar jogadores de Tibiriçá e Epitácio para melhorar a qualidade de suas equipes, como o Zeíto (artesão de oficina, casado com a minha tia Jandira) e o Saul (sapateiro e tio de ótimos jogadores das novas gerações). Não podemos esquecer que a A.A. Atlética Epitaciana teve no seu quadro, em início de carreira, o jovem Geraldão Manteiga, nascido em Álvares Machado e casado com jovem epitaciana Célia, irmã do jogador Derão. Depois de passar pela Prudentina, Geraldão fez carreira na Primeira Divisão, no Botafogo de Ribeirão Preto (na época de Sócrates) e depois sagrou-se campeão paulista em 1977 pelo E.C. Corinthians, na memorável reconquista do título, que não acontecia desde 1954.

A segunda fase de ouro do futebol epitaciano, talvez a que mais tenha se destacado o estilo profissional, aconteceria a partir de 1975, quando foi fundado o Beira Rio E.C., com sucessivas equipes também compostas por epitacianos e jovens de outras cidades. Entre outros treinadores, o BREC foi dirigido pelo técnico Celso Azevedo, que fez carreira profissional em outras cidades da região e em Mato Grosso do Sul. No livro “Presidente Epitácio – 100 anos a fundação da Cidade”, o memorialista Benedito de Godoy Moroni, valendo-se de depoimentos de atletas, dirigentes, torcedores e familiares de jogadores, registrou as mais importantes fases históricas e expressões do futebol epitaciano. Segundo ele passaram por Epitácio verdadeiras lendas do futebol paulista, dos quais evidentemente citou apenas alguns como grandes exemplos, pois foram muitos: Toco, Zeíto, Matateo e Santiago; Dedé, Jesus e Mitaim, Téia e Geraldão; Ticonha, Adoilson e Marlan.

O quadro “Que Fim Levou”, do famoso site do comentarista Milton Neves, tem em sua galeria de craques históricos o jogador Jesus Ribeiro (ex-BREC) e que fez carreira na Bolívia, juntamente com os epitacianos Dedé, Mitaim e Matateo. Ao contar o ínicio de carreira de Jesus, com informações biográficas de Fábio Villalba, Milton Neves cita o E.C. Fluvial como o adversário mais importante dessa fase do jogador, assim se referindo:

“Com apenas 15 anos de idade, iniciou na A.A Epitaciana na época dos grandes derbis, contra E.C Fluvial, (onde tinha os craques legendários e que fizeram história no futebol Epitaciano), tais como: Leirton, Renato Aranha, Zinho (falecido), Teixeira, Miruca (falecido), Beca (falecido), Piscuila (falecido), Teia, Matateu (falecido), Edson, Barroca (falecido), Pedro Cera, Pigmeu, Toco (falecido), Zeito, Mazza, dentre outros”.
 



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